O próximo salto do Brasil é transformar inovação em escala
Em artigo, Gianna Sagazio, CEO da SOSA Brasil e copresidente do Portulans Institute, aponta os gargalos que impedem tecnologias brasileiras de chegar ao mercado e ganhar escala

Por Gianna Sagazio*
RESUMO +
Um estudo de 2026 da empresa SOSA aponta que o Brasil reúne 1.269 deep techs, 72,7% do total latino-americano, mas ainda converte pouco dessa capacidade em escala econômica. As empresas brasileiras captaram US$ 624,7 milhões, cerca de US$ 490 mil por companhia, ante US$ 7,5 milhões por empresa no Chile. A expansão depende de mais capital, clientes industriais e instrumentos de compra de tecnologia.
O Brasil já provou que sabe inovar. O que ainda não aprendemos, de forma consistente, é transformar inovação em escala econômica. E é justamente aí que está uma das maiores oportunidades da próxima década.
Passo boa parte dos meus dias conversando com quem constrói tecnologia no Brasil: fundadores, pesquisadores, executivos de indústria. Saio dessas conversas quase sempre com a mesma impressão: temos muito mais capacidade tecnológica do que conseguimos transformar em crescimento.
Não nos faltam ciência, empresas ou empreendedores. O desafio está em conectar esses ativos de maneira mais eficiente para gerar produtividade, competitividade e crescimento global. Esse talvez seja o próximo grande salto do país, e ele está mais ao nosso alcance do que costumamos admitir.
Os números ajudam a entender o paradoxo. O Brasil reúne 1.269 empresasdeep tech, 72,7% de toda a base latino-americana, em setores nos quais temos vantagens reais, como agronegócio, mineração, energia, indústria, aeroespacial, química, papel e celulose. É uma base relevante. Mas a liderança em número de empresas ainda não se traduz em capital na mesma proporção.
As deep techs brasileiras captaram US$ 624,7 milhões, cerca de US$ 490 mil por empresa. No Chile, são apenas 103 empresas, mas US$ 772,5 milhões captados, US$ 7,5 milhões por companhia. São quinze vezes mais capital por empresa.
Esse foi um dos dados que mais me chamaram a atenção quando organizamos, na SOSA, o estudo Deep Tech Industrial no Brasil. Ele mostra que nosso desafio não está apenas em criar novas tecnologias, mas em financiar sua evolução até que possam chegar ao mercado e ganhar escala.
A leitura é reforçada pelo Global Innovation Index 2025, da OMPI (WIPO). O Brasil aparece na 52.ª posição entre 139 economias, é o segundo colocado da América Latina e do Caribe, atrás do Chile, e é a única economia da região a superar, pelo quinto ano consecutivo, o desempenho de inovação esperado para seu nível de desenvolvimento.
Há uma mensagem importante nesses diagnósticos: o Brasil tem capacidade de inovação, mas ainda captura apenas parte do valor econômico que ela poderia gerar. O próprio índice mostra essa diferença: estamos em 63º lugar em insumos de inovação e em 50º em resultados. São Paulo, por sua vez, aparece como o 49º maior cluster de inovação do mundo.
A pergunta, portanto, não é apenas se conseguimos inovar. É onde essa inovação está perdendo velocidade entre a tecnologia desenvolvida e o valor gerado pela economia.
Um dos principais gargalos está na relação entre tecnologia e indústria. Menos de 7% das empresas industriais brasileiras usam dez ou mais tecnologias avançadas de manufatura. Ao mesmo tempo, corporate venture e inovação aberta alcançam menos de 2% das deep techs. Apenas quatro ou cinco grandes grupos industriais mantêm programas estruturados de venture client ou CVC, embora mais de 30 tenham escala para isso.
O resultado é um círculo difícil de romper. A startup precisa de clientes para validar sua tecnologia e gerar receita. O investidor precisa enxergar demanda para financiar o crescimento. E a grande empresa precisa de mecanismos que permitam testar e incorporar novas tecnologias sem transformar cada iniciativa em um projeto excepcional.
Quem já rompeu o círculo
Algumas empresas já começaram a romper esse círculo e são casos que mostram que o caminho é possível.
A Petrobras acumulou mais de R$ 1 bilhão em contratos com startups. A Vale Ventures investiu US$ 100 milhões, integrada a uma agenda anual de US$ 170 milhões em pesquisa e desenvolvimento. A WEG adquiriu a Mvisia, startup de visão computacional ligada à USP, cuja tecnologia hoje integra produtos vendidos globalmente.
O que esses casos têm em comum? A inovação deixou de ser apenas uma agenda de experimentação e passou a fazer parte da estratégia de negócio.
É nesse contexto que o modelo de venture client ganha relevância. Nele, a empresa atua primeiro como cliente da startup, e não apenas como investidora ou parceira institucional. Na prática, isso significa criar pilotos com orçamento definido, duração de três a seis meses, indicadores claros e uma possibilidade concreta de expansão quando os resultados são comprovados.
Parece uma mudança pequena, mas não é. Muda a forma de medir inovação. Em vez de contar quantas startups foram avaliadas ou quantas provas de conceito foram realizadas, a empresa passa a perguntar quantas tecnologias resolveram problemas reais, geraram resultado operacional e chegaram à escala.
O segundo gargalo é financeiro. Deep techs normalmente precisam de mais tempo e mais capital para transformar pesquisa em produto e produto em escala. Por isso, as diferentes fontes de financiamento precisam funcionar de maneira complementar.
A trajetória da Tractian é um bom exemplo. A empresa utilizou recursos do Finep Inovacred para desenvolver uma nova geração de sensores e, paralelamente, captou capital privado para crescer, chegando a uma avaliação de US$ 720 milhões na Série C.
O Brasil já dispõe de instituições e instrumentos capazes de apoiar essa trajetória. BNDESPAR, Embrapii, Finep e Lei do Bem cumprem papéis diferentes e potencialmente complementares. O desafio é fazer com que esses instrumentos formem uma trajetória de financiamento que reduza o risco tecnológico nas fases iniciais e amplie a capacidade de investimento à medida que a solução prove seu mercado.
Existe ainda uma terceira lacuna, talvez a mais silenciosa: a passagem entre o desenvolvimento tecnológico e o primeiro cliente.
Compras públicas aparecem no histórico de financiamento de apenas 0,3% das deep techs brasileiras. E o número de rodadas de CVC no país caiu para 66 entre julho de 2024 e junho de 2025, menos da metade do registrado nos 12 meses anteriores.
A base existe. O que ainda falta é fazê-la funcionar de maneira mais conectada.
Custo econômico concreto
Essa fragmentação tem um custo econômico concreto. Uma tecnologia que não encontra cliente demora mais para gerar receita. Uma empresa sem receita tem mais dificuldade para captar capital. E uma indústria que demora a incorporar novas tecnologias perde velocidade na geração de produtividade. É um custo que, muitas vezes, não aparece em nenhuma conta específica, mas que a economia brasileira paga.
Há, no entanto, uma vantagem que ainda exploramos pouco: o Brasil oferece ambientes reais de altíssima complexidade para desenvolver e testar tecnologia. Mineração, agronegócio, energia, manufatura e infraestrutura apresentam problemas difíceis, grandes volumes de dados e empresas que podem se tornar as primeiras clientes de soluções inovadoras.
É o que vemos em empresas como Tractian e Solinftec. O país pode funcionar como um grande ambiente de validação tecnológica. Tecnologias desenvolvidas para resolver problemas complexos aqui podem, depois, ser levadas para outros mercados.
Essa lógica ganha ainda mais importância diante da próxima onda tecnológica: a inteligência artificial aplicada à operação industrial.
O relatório estima que o mercado global de IA agêntica na manufatura passe de US$ 5,5 bilhões em 2025 para US$ 16,8 bilhões em 2030, em aplicações como manutenção preditiva e prescritiva, planejamento da produção, orquestração da cadeia de suprimentos e inspeção de qualidade.
E isso já está acontecendo. A Axia Energia (antiga Eletrobras) utiliza uma plataforma de IA em dez subestações, com identificação autônoma de alarmes, agrupamento de falhas e recomendação de ações corretivas. O tempo de resposta caiu de minutos ou horas para menos de dez segundos, e a solução está sendo expandida para toda a rede de transmissão.
A próxima disputa competitiva não será simplesmente entre empresas que adotam inteligência artificial e empresas que não adotam. Será entre aquelas que conseguem incorporá-la mais rapidamente aos processos produtivos e transformá-la em produtividade.
O Brasil tem condições para fazer isso. Temos mercado, indústria, pesquisa, empreendedores e uma base crescente de tecnologias avançadas. Temos instrumentos públicos e privados de financiamento. E algumas empresas já demonstraram, na prática, que é possível transformar inovação em contratos, aquisições, produtos e expansão internacional.
O próximo salto, portanto, não exige começar do zero. Exige fazer com que uma parcela maior do que já está sendo desenvolvido encontre capital, clientes e condições para crescer.
Essa é uma agenda que envolve empresas, investidores, universidades e governo. E pode se tornar uma das maiores alavancas de competitividade do Brasil na próxima década.
Mais do que produzir inovação, precisamos aprender a transformá-la em escala econômica.
Inovar mais. Financiar melhor. Desenvolver e comprar tecnologia. Escalar muito mais.
Esse é o próximo salto do Brasil.
* Gianna Sagazio é CEO da SOSA Brasil e copresidente do Portulans Institute.
Fontes:
SOSA, Deep Tech Industrial no Brasil, relatório preparado para o SOSA Leaders Forum, 2026.
WIPO, Global Innovation Index 2025. Relatório do Brasil (WIPO)
