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Future of MoneyCPTO
20/09/2026
6 min

O que a adoção de stablecoins revela sobre os mercados emergentes?

Nos países ricos, stablecoins são uma aposta de eficiência. Nos emergentes, são resposta a necessidades que o sistema financeiro nunca resolveu

O que a adoção de stablecoins revela sobre os mercados emergentes?

Por Nathaly Diniz e João Pedro Menegotto*

Há duas cenas que ajudam a entender o momento das stablecoins no mundo. Na primeira, um banco de Wall Street anuncia um piloto para liquidar operações entre instituições financeiras alguns segundos mais rápido. Na segunda, um freelancer no Vietnã recebe o pagamento de um cliente americano em dólar digital porque a alternativa bancária levaria dias e custaria uma fatia relevante do trabalho. E, a poucos fusos dali, uma família nas Filipinas recebe a remessa mensal de um parente no exterior pelo mesmo trilho. É a mesma tecnologia. Mas não é, nem de longe, o mesmo problema.

Essa é a distinção que a discussão global sobre stablecoins costuma atropelar. Nos mercados desenvolvidos, onde contas bancárias são universais, a moeda é estável e os pagamentos domésticos funcionam, o dólar digital compete por margens: liquidação mais rápida, custos menores, programabilidade. É uma história de otimização.

Nos mercados emergentes, a história é outra: stablecoins respondem a necessidades que o sistema financeiro tradicional nunca atendeu bem: acesso a uma moeda forte, proteção contra a inflação, remessas que custam caro demais e infraestrutura bancária que não chega a todo mundo. Não é otimização; é substituição de uma lacuna.

Os números confirmam onde a tecnologia encontrou tração de verdade. No índice global de adoção de criptoativos da Chainalysis de 2025, a Índia lidera, com Paquistão, Vietnã e Brasil também no top 5: quatro emergentes entre os cinco primeiros. A Ásia-Pacífico foi a região que mais cresceu, com alta de 69% no valor recebido on-chain em um ano, seguida de perto pela América Latina, com 63%. E uma pesquisa da Castle Island Ventures com usuários em Brasil, Índia, Indonésia, Nigéria e Turquia mostrou que o uso já transbordou do universo cripto: poupar em dólar, enviar remessas e liquidar comércio internacional aparecem entre os principais motivos de uso, ao lado do trading.

Mas o dado mais interessante não é que os emergentes lideram a adoção. É que eles não a lideram pelo mesmo motivo.

América Latina: o dólar digital como defesa

Na América Latina, a stablecoin faz sobretudo o trabalho de proteger. A Argentina é o exemplo clássico: décadas de inflação criaram o hábito do "colchão de dólares", e o dólar digital transformou esse colchão em aplicativo: stablecoins já respondem por mais da metade das compras de criptoativos em exchanges no país, segundo a Chainalysis.

No Brasil, mais de 90% dos fluxos de criptoativos já envolvem stablecoins, um número que o Banco Central também observa, e que revela um uso menos especulativo e mais transacional e patrimonial: num país que já naturalizou a liquidação instantânea via Pix, a disputa não é por velocidade, mas pelo acesso ao dólar e a produtos internacionais, impulsionado, inclusive, por instituições financeiras e neobancos que incorporaram o trilho a produtos de varejo e de tesouraria.

No México, o caso de uso dominante é a remessa: o corredor Estados Unidos–México é o maior do mundo, e uma parcela crescente dele já roda sobre trilhos de stablecoin por baixo de aplicativos que o usuário final nem percebe.

O padrão latino-americano, portanto, combina proteção patrimonial e tesouraria. A pessoa física usa o dólar digital para guardar valor; a empresa, para mover caixa entre países e proteger capital de giro da volatilidade cambial. A stablecoin entra onde a moeda local falha em ser reserva de valor.

Ásia: o dólar digital como movimento

Na Ásia emergente, o mesmo instrumento faz um trabalho diferente: mover renda. As Filipinas recebem mais de US$ 35 bilhões por ano em remessas de trabalhadores no exterior (um mercado onde o spread cambial persiste mesmo em escala), e o país se tornou um dos laboratórios mais ativos de recebimento em stablecoin da região.

No Vietnã, quarto colocado no índice global, o sinal mais revelador é o prêmio de 3% a 5% pago nas negociações peer-to-peer de dólar digital. Quando alguém aceita pagar mais caro pelo dólar on-chain do que pelo oficial, é porque a demanda é real; e o dinheiro não fica parado: circula quase imediatamente, financiando renda de freelancers, pagamentos de serviços internacionais e pequeno comércio.

Na Indonésia, o uso que mais cresce é corporativo, com stablecoins encurtando a liquidação do comércio exterior no corredor com Singapura.

Se na América Latina a stablecoin é cofre, na Ásia ela é esteira. Aqui, protege-se o valor; Lá, acelera-se renda e comércio local. E dois países do mesmo continente mostram como até a régua regulatória produz casos de uso opostos.

O problema que todos os mapas compartilham: a última milha em moeda local

Há, porém, um ponto em que todas essas geografias convergem, e ele costuma passar despercebido. A stablecoin resolve com elegância o meio do caminho: o valor cruza fronteiras em segundos, com custo baixo e registro auditável. Mas nenhuma remessa termina em dólar digital. Ela termina quando vira peso na Cidade do México, baht em Bangcoc, rupia em Mumbai ou real em São Paulo, na conta de quem recebe.

Para as empresas que operam pagamentos em dezenas de países (remessadoras, carteiras digitais, plataformas que pagam freelancers e fornecedores), o desafio real não é enviar dólar digital: é garantir moeda local, no volume certo, todos os dias, em mercados onde a demanda nunca para.

O modelo tradicional resolve isso imobilizando capital em contas pré-fundeadas em cada país, um custo silencioso que cresce a cada nova geografia. É essa camada (a conversão entre o trilho global e as moedas locais, com liquidez disponível sob demanda) que uma nova geração de provedores de infraestrutura está construindo, e é nela que a eficiência prometida pelas stablecoins se materializa ou se perde.

Ler o mapa antes de escolher o trilho

Para uma empresa brasileira que expande para a América Latina ou para a Ásia, a lição é menos sobre tecnologia e mais sobre geografia. A pergunta certa não é "stablecoins funcionam em mercados emergentes?" (os dados já responderam). A pergunta é: qual trabalho a stablecoin faz neste mercado?

Na Argentina, ela protege; nas Filipinas, ela sustenta famílias; na Indonésia, ela liquida comércio; na Tailândia, ela atrai turistas; na Índia, ela espera a regulação alcançar a demanda.

O Brasil, que aprendeu com o Pix a exigir liquidação instantânea como padrão, tem a vantagem de entender rápido essa conversa. Mas o trilho, sozinho, não é estratégia. Estratégia é saber que o mesmo dólar digital se comporta de um jeito diferente em cada fronteira, e desenhar a operação, a tesouraria e as parcerias para a última milha de cada uma delas.

*Nathaly Diniz é CRO da Lumx e João Pedro Menegotto é chefe para a América Latina da Levl

AutorDa Redação
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