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29/10/2026
6 min

O que a compra de US$ 17 bilhões da DoorDash sinaliza sobre o futuro do delivery

Compra da Instacart amplia a disputa por compras de supermercado nos Estados Unidos. No Brasil, iFood e 99 seguem caminho parecido, enquanto dados da Galunion mostram o desafio de conquistar consumidores mais sensíveis a preço

O que a compra de US$ 17 bilhões da DoorDash sinaliza sobre o futuro do delivery
RESUMO +

A plataforma de delivery DoorDash anunciou a compra da empresa de entregas de supermercado Instacart por cerca de US$ 17 bilhões, com conclusão prevista para o fim de 2027, após aprovações regulatórias e dos acionistas. O acordo amplia a presença da DoorDash em supermercados e reforça sua disputa com as varejistas Amazon e Walmart no mercado americano de delivery.

A DoorDash vai desembolsar cerca de US$ 17 bilhões para comprar a Instacart e reforçar sua posição na disputa pelo mercado americano de delivery. O negócio une duas plataformas com operações complementares, mas também expõe a pressão sobre empresas que enfrentam gigantes capazes de combinar venda de produtos, logística e entrega.

Fundada em 2013, a DoorDash cresceu com a entrega de refeições de restaurantes e expandiu a operação para supermercados, lojas de conveniência e outros segmentos do comércio local. Já a Instacart, criada em 2012, conecta consumidores a redes varejistas e oferece tecnologia para que supermercados vendam pela internet.

Pelo acordo, a DoorDash pretende manter a marca e o aplicativo da adquirida. A conclusão está prevista para o fim de 2027, sujeita a aprovações regulatórias e dos acionistas.

A operação acontece em um mercado cada vez mais disputado.AmazoneWalmart têm escala no comércio eletrônico e nas compras de supermercado, além de redes logísticas e programas de assinatura próprios. Para a DoorDash, ampliar a presença no supermercado é uma forma de reforçar sua posição diante de concorrentes que controlam tanto os produtos quanto a relação direta com o consumidor.

O movimento também ajuda a entender a transformação do delivery no Brasil. OiFood diversifica suas receitas com serviços financeiros e novas categorias, enquanto a 99 entrou nas compras de supermercado com o 99Compras. Em ambos os mercados, as plataformas tentam capturar mais gastos cotidianos, para além dos pedidos de refeições.

Para Simone Galante, fundadora e CEO da consultoria Galunion, o acordo reflete uma disputa por diferentes momentos de consumo dentro de uma mesma família.

“Eu vejo o acordo entre DoorDash e Instacart como um movimento para participar de mais decisões de consumo da mesma família. A pessoa pode pedir uma refeição hoje e comprar ingredientes para cozinhar amanhã. Reunir essas possibilidades amplia as oportunidades de relacionamento e de compra dentro de um mesmo grupo”, afirma.

Por que a DoorDash está comprando a Instacart

A DoorDash construiu uma rede de entregas e uma base de clientes voltada a refeições e compras locais. A Instacart, por sua vez, desenvolveu relações com supermercados e tecnologia para operar o comércio digital desses varejistas.

A combinação atende a necessidades diferentes. A entrega de uma refeição pronta tem uma dinâmica distinta da compra de supermercado, que exige separar diversos produtos, lidar com itens indisponíveis e coordenar a entrega de cestas maiores.

Pelo acordo, a DoorDash afirma que os clientes da Instacart poderão acessar mais de 50 mil lojas adicionais, além das quase 100 mil já disponíveis na plataforma. Os programas de assinatura também poderão ser combinados em uma única mensalidade após a conclusão do negócio.

A operação, porém, não elimina a concorrência. Amazon e Walmart contam com estruturas próprias de comércio eletrônico, logística e relacionamento com consumidores. Para a DoorDash, a aquisição é uma forma de reforçar sua posição diante de empresas que já têm escala no varejo e podem conectar a venda dos produtos à entrega.

Como funciona o delivery de supermercado no Brasil

O iFood é um exemplo de como a diversificação pode mudar o perfil de uma empresa de delivery. No ano fiscal encerrado em março de 2026, a companhia movimentou 150 bilhões de reais em volume transacionado, alta de 57%.

Pela primeira vez, um terço da receita do iFood veio de negócios fora da entrega de refeições. A empresa atua em supermercados, farmácias, bebidas, conveniência, software de gestão e serviços financeiros.

A 99, controlada pela chinesa DiDi, segue caminho semelhante. A empresa lançou o99Compras em São Paulo e em mais de 20 municípios da região metropolitana, com investimento de 100 milhões de reais e cerca de 3 mil parceiros comerciais. A plataforma oferece compras em supermercados, farmácias, pet shops e lojas de conveniência, aproveitando sua base de usuários e a rede de entregadores. A Rappi também atua em categorias como supermercado e farmácia.

Os modelos são diferentes. A DoorDash anunciou a compra de uma empresa especializada em supermercados, enquanto iFood e 99 vêm desenvolvendo suas próprias frentes. O ponto em comum é a tentativa de aproveitar a infraestrutura já existente para atender mais necessidades do consumidor.

A estratégia ocorre em um momento delicado para o setor de alimentação no Brasil. Na pesquisa da Galunion realizada em setembro de 2026, com 1.057 entrevistados das classes A, B e C, 74% disseram ter reduzido o orçamento para comer fora de casa nos seis meses anteriores.

Entre os motivos, 30% afirmaram que comer fora ficou mais caro e deixou de oferecer uma boa relação entre custo e benefício. Outros 27% citaram o aumento de compromissos financeiros, como contas e dívidas, enquanto 22% redirecionaram dinheiro para poupar, investir, viajar ou consumir outras formas de lazer.

“56% dos entrevistados apontaram o custo total e 43% citaram cozinhar em casa como motivos. Portanto, entender a concorrência exige olhar também para o que acontece fora dos aplicativos de refeições”, afirma Galante.

O concorrente de um restaurante não é apenas outro estabelecimento no aplicativo. Pode ser a marmita preparada em casa, a comida pronta do supermercado ou a decisão de não pedir nada. Para Simone, a disputa precisa considerar “tudo o que resolve a refeição do consumidor: marmitas, comida feita em casa e comida pronta do varejo”.

A dependência de promoções também preocupa. Em uma pesquisa da Galunion realizada em abril, aproximadamente dois terços dos entrevistados disseram que reduziriam a frequência ou deixariam de pedir delivery sem descontos.

“Ganhar o primeiro pedido e conquistar recorrência são desafios diferentes”, afirma Simone.

Mais categorias não garantem mais lucro

A aquisição da Instacart pode ampliar as ocasiões em que a DoorDash participa das compras dos consumidores. Mas há uma diferença entre aumentar o mercado potencial e elevar o gasto total de cada família. Uma pessoa pode trocar um pedido de restaurante por uma compra de supermercado, sem aumentar o orçamento destinado à alimentação.

Esse limite também vale para o Brasil. O iFood e a 99 precisam equilibrar preço, conveniência e custos operacionais em atividades com exigências distintas. Para os restaurantes, a conta inclui ingredientes, embalagens, mão de obra e taxas dos canais de venda.

“Para o operador brasileiro, será essencial entender quais canais trazem clientes que voltam e quanto sobra em cada pedido. A refeição pode mudar de canal sem que o orçamento da família aumente”, afirma Simone.

A integração entre DoorDash e Instacart ainda depende de aprovações e deve levar tempo. O resultado vai mostrar se a combinação das duas operações consegue enfrentar concorrentes com escala no varejo e transformar uma oferta maior de serviços em um negócio rentável. No Brasil, a pressão sobre o orçamento dos consumidores indica que ampliar a oferta, por si só, não será suficiente.

AutorIsabela Rovaroto
FonteExame
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