O que a Embraer ganha se Trump barrar compras de jatos da Bombardier
Efeito é positivo, porém limitado ao segmento de jatos executivos da fabricante brasileira de aeronaves

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a canadense Bombardier não poderá mais vender seus aviões no mercado americano caso não passe a fabricá-los inteiramente nos EUA, criticando também a qualidade dos produtos da companhia.
A ameaça, feita em uma publicação na rede Truth Social, ocorre em meio à escalada da disputa comercial entre o país e o Canadá. O governo canadense prepara uma nova rodada de tarifas de retaliação contra produtos americanos, enquanto Washington amplia sua política protecionista.
No Brasil, a fabricante de aviões Embraer, concorrente da Bombardier, pode ganhar espaço no mercado americano de aviação executiva, segundo analistas ouvidos pela EXAME. Embora tenham portfólios bastante diferentes, as duas competem em parte desse segmento.
A presença industrial nos EUA pode ajudar a Embraer, mas não a deixa imune a uma eventual política de proteção à produção doméstica. A companhia tem uma operação em Melbourne, na Flórida, enquanto a Bombardier também mantém atividades industriais nos EUA, incluindo a fabricação de asas do Global 8000 no Texas.
Embraer pode se beneficiar do cenário
Os efeitos sobre a Embraer dependeriam da intensidade e da duração das medidas contra a Bombardier, que podem incluir eventuais tarifas ou restrições.
"A Bombardier é uma das principais concorrentes da Embraer em jatos executivos", diz Gustavo Bertotti, head de renda variável da Fami Capital.
Ele destaca que a Embraer vem apresentando resultados sólidos e ganhou relevância no mercado internacional nos últimos anos. São fundamentos que podem continuar sustentando a ação mesmo em um cenário de maior aversão ao risco.
Disputa direta é menor do que parece
Apesar do potencial benefício, o impacto não deve ser superestimado, porque a Bombardier concentra sua atuação atual em jatos executivos de maior porte, além dos negócios de defesa e serviços. A empresa deixou a aviação comercial em 2020, quando vendeu o programa CRJ para a Mitsubishi e o C Series para a Airbus.
"Então não existe captura de mercado no segmento regional, que é justamente onde os EUA compram cerca de 45% dos jatos comerciais da Embraer", de acordo com o CEO da Gravus Capital, Ricardo Trevisan.
O programa comercial da Bombardier que chegou a representar uma ameaça mais direta à Embraer acabou se transformando no A220, da Airbus, e hoje é produzido também no Alabama. Portanto, não está diretamente no centro da ameaça feita por Trump à canadense.
O estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle, ressaltou que há um componente especulativo elevado apesar de considerar a notícia como positiva para a Embraer. Para o especialista, as ações EMBJ3 têm potencial para uma reação positiva à notícia, mas os investidores precisam acompanhar de perto os próximos passos de Trump e evitar uma valorização exagerada baseada apenas na expectativa.
Analista da Moat Capital, Caio Barone também vê espaço para algum benefício à Embraer, mas considera que a sobreposição dos portfólios com a Bombardier é limitada, sendo o Praetor 600 o principal modelo que poderia ganhar espaço. Ele é o maior jato executivo da companhia.
"A disputa hoje é em aviação executiva, Praetor contra Challenger [da Bombardier]. Aí sim uma restrição aos jatos canadenses abriria espaço para a brasileira, que monta Phenom e Praetor lá mesmo nos EUA", acrescentou o sócio-fundador do Hub do Investidor, Jayme Simão.
Ameaça de Trump pode ser ruído político
A declaração de Trump não veio acompanhada de um ato administrativo que estabeleça como os aviões da Bombardier seriam impedidos de entrar no mercado americano. A Casa Branca também não explicou imediatamente como pretende fazer cumprir a medida.
Para Barone, a ameaça atual é diferente de um episódio ocorrido no início do ano, quando Trump vinculou a Bombardier a uma disputa envolvendo a certificação de jatos da Gulfstream no Canadá. "Dessa vez, a ameaça não tem nenhuma exigência técnica, é apenas pelo 'trade war'. Ou seja, pode ainda ser só um blefe."
A própria integração da Bombardier com a economia americana também dificulta uma ruptura simples. A empresa emprega 3.500 pessoas nos Estados Unidos, possui uma rede de 2.800 fornecedores no país, conforme a Reuters, e gasta mais de US$ 2,5 bilhões por ano com fornecedores americanos.
Embraer está preparada para um cenário mais protecionista?
A questão das tarifas americanas não é totalmente nova para a Embraer. Trevisan lembra que a companhia passou por uma situação semelhante em julho de 2025, quando os EUA anunciaram uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, mas a aviação acabou submetida a uma alíquota de 10%.
Em fevereiro de 2026, o setor aeroespacial foi excluído dos encargos adicionais da Seção 122, e a Suprema Corte americana derrubou parte das tarifas.
O guidance da Embraer para 2026 foi elaborado considerando uma tarifa de 10%. E o JP Morgan enxerga que a eliminação da tarifa acrescentaria cerca de 60 pontos-base à margem da companhia. "Ou seja, a sensibilidade é medida e conhecida", na visão de Trevisan.
A Embraer também vem ampliando sua presença nos Estados Unidos, com um plano que abrange investimentos de até US$ 500 milhões no país em cinco anos, além de outros US$ 500 milhões condicionados à aceitação do KC-390 pela Força Aérea americana, aumentando a proteção contra o risco comercial.
Ganho de mercado, se vier, é mais para frente
A aviação executiva da Embraer está praticamente vendida, segundo Trevisan. O guidance para 2026 prevê entre 160 e 170 entregas de jatos executivos, enquanto o segundo trimestre foi o melhor da empresa em 16 anos, com 65 aeronaves entregues.
Por isso, mesmo que a Bombardier perca participação nos EUA, a Embraer não teria capacidade de absorver imediatamente toda essa demanda adicional. "Eventual ganho de market share (mercado) é história de 2028 a 2030, não 'trade' de 2026", afirmou Trevisan.
Para Bertotti, porém, o movimento pode favorecer a percepção dos investidores sobre a Embraer no curto prazo, principalmente porque a empresa combina presença internacional, receita em dólar e uma posição competitiva relevante na aviação executiva e comercial.
