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Mundo
15/09/2026
5 min

O que a escalada dos houthis no Iêmen pode significar para o Irã

Conhecido por ser um grupo alinhado a Teerã, os rebeldes houthis já tomam conta do Iêmen e podem ameaçar a principal alternativa ao Estreito de Ormuz

O que a escalada dos houthis no Iêmen pode significar para o Irã

A ofensiva que a Arábia Saudita vinha anunciando há meses contra os houthis, rebeldes apoiados pelo Irã que controlam grande parte do Iêmen, teve um resultado inesperado. Em vez de recuar diante da pressão saudita e de seus aliados, o grupo avançou rapidamente pela costa oeste do país e conquistou posições estratégicas, ameaçando o Mar Vermelho, principal alternativa ao fechamento de Ormuz.

Nos últimos dias, os houthis tomaram a cidade portuária de Mokha — que dá nome ao grão de café — e depois assumiram o controle da ilha de Perim, localizada no estreito de Bab al-Mandab, uma das principais passagens marítimas entre o Mar Vermelho e o oceano Índico.

É um cenário familiar deste ano: forças menos treinadas e com menos equipamento conseguem dissuadir um oponente mais forte e avançado militarmente. Em conversa com a EXAME, Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, explica a discrepância.

"O fato de ter Força Armada Superior significa que vai atropelar completamente o país todo. Nós vimos, desde o Vietnã, que a coisa não funciona muito assim. A Arábia Saudita está fazendo o que vimos os EUA fazer no Irã; [os sauditas] têm uma força aérea super sofisticada, uma das melhores da região. Eles também têm um sistema de artilharia hipersofisticado, o melhor que o dinheiro pode comprar; então, bombardeiam tudo o que você pode lá", diz.

"Só que você não consegue dominar o país sem botar tropa no chão. E a Arábia Saudita não tem soldados para tomar aquele território todo, para combater de fato [os houthis]. Eles fazem operações pontuais, mas não ocupam o território. Mesmo os Estados Unidos tentando ocupar o território do Iraque, do Afeganistão, sofreram horrores e acabaram desistindo", continua o especialista.

Segundo o especialista, aArábia Saudita não tem a capacidade, em termos de número de homens e tudo mais, e talvez nem um estômago para poder fazer uma ocupação completa e expulsar realmente as forças do território ou, enfim, deixar em um estado isolado, num cantinho, sem ter muito mais capacidade de causar muito dano.

E o Irã?

Petróleo: preço do barril voltou a subir em meio à guerra no Irã e ao fechamento do Estreito de Ormuz.

Petróleo: preço do barril pode oscilar mais com a guerra no Iêmen, à medida que pressão houthi no Mar Vermelho afeta mercados (atlascompany/Freepik)

Alguns analistas temem que a ofensiva também aumente a influência de Teerã em uma área estratégica para o comércio e o transporte de petróleo, uma das poucas alternativas de larga escala ao seu domínio de Ormuz.

Nesse entendimento, o avanço dos houthis ao longo do litoral e de Bab al-Mandeb poderia dar ao Irã mais capacidade para pressionar os Estados Unidos e seus aliados em meio à guerra.

Os efeitos já chegaram ao mercado de petróleo. O Brent chegou a superar US$ 109 por barril em 11 de setembro, antes de encerrar o dia em patamar ligeiramente inferior. A preocupação é que uma escalada prolongada aumente os riscos para os navios e as rotas de exportação no Mar Vermelho.

Para Paz, todavia, tudo depende do impacto que os houthis podem causar. "O meu chute aqui seria que os houthis não conseguem fechar de fato a entrada do Mar Vermelho, mas conseguem criar disrupção. Conseguem dar muito trabalho, [com] míseis de curto alcance, especialmente [usados contra] petroleiros e outras embarcações que podem passar por ali e desestimulando essas companhias de transporte."

Mesmo assim, o especialista acredita que um possível ataque ocidental continua sendo mais provável em Ormuz, não no Iêmen, mas pode ser motivado pela pressão no Mar Vermelho.

"Se eles criam uma disrupção com algum grau de eficiência, [isso pode se somar ao] problema que o Irã coloca ao fechar o Estreito de Ormuz, aí sim, eu consigo um cenário em que os Estados Unidos e alguns países europeus possam atuar no Irã e, para poder abrir o Estreito, obviamente, fazendo uma válvula de escape para esse processo todo", diz.

Ainda assim, a pressão no Mar Vermelho pode fortalecer a posição de barganha iraniana enquanto o status quo não mudar. Isso se dá porque os principais moderadores do petróleo — como o caso da China, que, ao usar suas vastas reservas em vez de depender do mercado, conseguiu afetar o preço do barril em todo o mundo — só funcionam até certo ponto.

"Se você consegue realmente criar um problema, atrapalhando, que é a disrupção no Estreito do Mar Vermelho, chega uma hora em que tem que parar de usar a sua própria reserva para comprar. Aí eu acho que o preço do petróleo pode começar a subir e, aí sim, é esse o cenário que o Irã quer no final, em que ele vai conseguir muito mais poder de barganha", afirma.

"Então, quanto mais complexa a situação no Mar Vermelho, no Golfo do Iêmen, melhor para o Irã, porque torna mais eficiente o fechamento do Estreito de Ormuz", diz Paz.

De qualquer forma, à medida que os conflitos tanto no Irã quanto no Iêmen se intensificam, os efeitos sobre o mercado de energia devem se agravar.

A ameaça dos houthis já havia afastado navios de Bab al-Mandab: segundo a Kpler, a Arábia Saudita exportou apenas 200 mil barris de petróleo por dia pelo estreito em agosto, contra 4 milhões em junho.

Mesmo que a Saudi Aramco, a petroleira estatal do reino, consiga reparar rapidamente a infraestrutura atingida, o risco de novos ataques deve manter a pressão sobre o transporte marítimo e os preços do petróleo.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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