O que a reunião de Trump e Xi com chefes das big techs pode mudar na tecnologia global
Com CEOs de Nvidia, OpenAI, Apple, Microsoft e Google no jantar de Estado, a cúpula pode definir o futuro da venda de chips à China e criar o primeiro canal entre os dois países para incidentes com IA

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Xi Jinping e Donald Trump se reúnem em Washington com a inteligência artificial no centro da agenda. Executivos de Nvidia, OpenAI, Microsoft, Apple, Google, Tesla e Amazon participam de eventos ligados à cúpula, que envolve disputa por chips avançados, segurança de IA e a relação tecnológica entre Estados Unidos e China.
O presidente da China, Xi Jinping, desembarcou na quarta-feira, 23, em Washington para uma visita de Estado de três dias que tem a inteligência artificial (IA) no centro da pauta.
Nesta quinta-feira, 24, ele se reúne com Donald Trump na Casa Branca e, à noite, participa de um jantar de Estado que deve reunir os principais nomes da indústria de tecnologia americana. É a primeira visita de Xi à Casa Branca em mais de uma década e a primeira visita de Estado de um líder chinês a Washington desde 2015.
A lista de convidados diz muito sobre o que está em jogo. Devem estar no jantar Jensen Huang, da Nvidia, Sam Altman, da OpenAI, Satya Nadella, da Microsoft, Tim Cook, presidente do conselho da Apple, Sundar Pichai, da Alphabet, Cristiano Amon, da Qualcomm, Elon Musk, da Tesla e da SpaceX, e Jeff Bezos, fundador da Amazon, segundo informações de autoridades americanas. A Casa Branca também planeja uma reunião com executivos de IA paralela ao evento. A Anthropic não informou se o CEO, Dario Amodei, estará presente.
O encontro é o segundo entre os dois líderes neste ano. Em maio, Trump visitou Pequim acompanhado de 17 empresários, entre eles Huang, convidado de última hora. Desde então, a corrida da IA se intensificou, as exportações chinesas cresceram e os dois países mantêm uma trégua comercial frágil, que vence em 10 de novembro. Além da tecnologia, a agenda inclui tarifas, terras raras, Taiwan e o Irã.
Os chips da Nvidia no centro da mesa
O tema mais sensível para as big techs é a venda de chips avançados à China. Os Estados Unidos restringem hoje o acesso chinês aos processadores mais poderosos da Nvidia, a empresa mais valiosa do mundo, e Huang faz pressão pessoal sobre a Casa Branca e o Congresso para voltar a vendê-los aos compradores chineses.
Com o CEO, Trump e Xi na mesma sala, analistas veem a possibilidade de o acesso aos chips virar moeda de negociação entre os dois governos.
A proximidade entre Huang e Trump ficou evidente nesta semana. Durante um painel no All-In Summit, em Los Angeles, o executivo atendeu uma ligação do presidente no palco e o colocou no viva-voz.
Na conversa, Trump disse que os Estados Unidos não podem perder a corrida da IA para a China, afirmou que "os robôs não vão dominar o mundo" e chamou de "farsa" os alertas sobre os perigos da tecnologia. Dias antes, Huang já havia dito que há "zero chance" de a IA acabar com a humanidade até 2030.
Do outro lado do debate está a Anthropic. No ensaio em que defendeu desacelerar o desenvolvimento da IA, Amodei também pediu que os Estados Unidos parem de vender chips avançados de IA à China.
A China, por sua vez, tenta reduzir a dependência: nesta terça-feira, 22, a Alibaba apresentou o que chama de chip de IA mais poderoso do país, peça de um plano para ampliar seus data centers a mais de 20 gigawatts até 2032.
A disputa vai além do hardware. O governo americano acusa empresas chinesas, entre elas a Alibaba e a DeepSeek, de praticar a chamada destilação, que consiste em treinar modelos próprios a partir das respostas de sistemas americanos mais avançados.
Pequim rejeita as acusações e diz querer proteger suas empresas do que considera excesso de jurisdição americana. Ao mesmo tempo, os modelos abertos chineses ganham espaço no mercado com uma estratégia de preços baixos, o que o banco J.P. Morgan descreveu como transformar custo em arma na corrida da IA.
Um canal para emergências de IA
A novidade concreta pode vir da segurança. No domingo, 20, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng se reuniram em Nova York, na sede do JPMorgan, para preparar a cúpula.
Bessent disse que os dois lados discutiram a criação de um "Diálogo EUA-China sobre IA" e que os Estados Unidos propuseram um mecanismo de notificação entre os dois países para incidentes envolvendo a tecnologia. Segundo ele, as conversas abrangem tanto modelos fechados quanto os de código aberto.
O pano de fundo são os episódios recentes em que sistemas de IA agiram por conta própria na internet, como o caso em que um modelo da OpenAI escapou de um teste e invadiu a Hugging Face.
Esses incidentes aumentaram o temor de que modelos cada vez mais autônomos tornem ataques cibernéticos mais rápidos e difíceis de conter.
Na semana passada, o secretário-geral da ONU, António Guterres, citou a possibilidade de agentes de IA escaparem do controle humano como uma das três ameaças existenciais à humanidade e comparou a tecnologia às armas nucleares.
Não é a primeira tentativa. Em 2024, ainda no governo de Joe Biden, Washington e Pequim abriram um diálogo sobre IA que não passou do primeiro encontro, travado por divergências de agenda e pela questão de Taiwan.
Agora, o desafio é duplo: tratar a IA como terreno de competição estratégica e, ao mesmo tempo, manter comunicação suficiente para evitar ataques, erros de cálculo ou escaladas indesejadas.
Nenhum dos lados, porém, quer desacelerar. O governo Trump rejeita novas regras para a IA sob o argumento de que frear a tecnologia daria vantagem à China, posição reforçada pelo anúncio de uma "Força de IA" nos moldes da Força Espacial.
A China, que lançou em julho uma aliança multilateral de IA vista por Washington como tentativa de moldar as regras globais do setor, também não sinaliza recuo.
O que cada big tech quer
- Nvidia: quer voltar a vender seus chips mais avançados na China, um dos maiores mercados de semicondutores do mundo.
- OpenAI: Altman confirmou presença e, segundo um porta-voz da empresa, já disse que Trump e Xi poderiam ganhar o Nobel da Paz se chegassem a um acordo sobre a governança da IA.
- Apple e Tesla: dependem da China como base de produção e mercado consumidor, e são diretamente afetadas por tarifas e pela trégua comercial.
- Qualcomm: tem na China uma de suas principais fontes de receita, com fabricantes de celulares locais entre os maiores clientes.
- Microsoft, Google e Amazon: disputam com modelos chineses cada vez mais baratos e dependem de cadeias de suprimento de chips e terras raras, minerais essenciais para a fabricação de semicondutores, em que a China tem posição dominante.
A expectativa de analistas é que a cúpula sirva mais para estabilizar a trégua comercial do que para produzir uma virada nas relações.
Para as big techs, porém, até decisões pontuais, como uma flexibilização na venda de chips ou a criação de um canal oficial para incidentes de IA, podem mudar a forma como a corrida da tecnologia se desenrola nos próximos meses.
