O que acontece após o governo Lula rebaixar o nível da relação com a Argentina
Em entrevista ao programa argentino "Modo Fontevecchia", o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a decisão foi tomada após "insultos e agressões" de Milei ao presidente Lula

O governo brasileiro anunciou nesta terça-feira, 4, a redução de sua presença diplomática na Argentina após novas declarações consideradas ofensivas do presidente argentino, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A medida é inédita na relação recente entre os dois países, principais parceiros do Mercosul.
Em entrevista ao programa argentino "Modo Fontevecchia", o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a decisão foi tomada após "insultos e agressões" de Milei ao presidente Lula.
“As condições [que provocaram essa decisão] foram os reiterados atos, insultos e agressões ao Brasil, às instituições do governo brasileiro, ao Executivo brasileiro, ao chefe do Executivo, e também ao Judiciário”, afirmou Vieira.
Desde o último domingo, Milei chamou Lula de “ladrão” três vezes. O presidente argentino já havia usado o mesmo termo em 25 de julho, durante a convenção partidária do senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e adversário de Lula nas eleições de outubro. Além disso, chamou o presidente brasileiro de "corrupto".
Na mesma ocasião, Milei também atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, classificando-o como “lixo”. Moraes havia negado um pedido do presidente argentino para visitar Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após ter sido condenado por tentativa de golpe de Estado.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu às declarações e afirmou que Milei é um "palhaço" e criticou a economia argentina.
E agora?
O embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi chamado de volta ao Brasil em julho, um dia após as primeiras ofensas de Milei a Lula. Desde então, os interesses brasileiros na Argentina vêm sendo representados por um encarregado de negócios, cargo de menor hierarquia diplomática.
O ministro-conselheiro Eduardo Uziel, o número dois em comando na embaixada, assumirá a representação brasileira.
De acordo com o Itamaraty, Bitelli não retornará ao posto enquanto Milei continuar fazendo comentários considerados agressivos contra o presidente brasileiro. Até lá, as relações estão em um estado diplomático chamado chargé d'affaires — ou "encarregado de negócios" —, no qual um diplomata ou negociador tratará das relações reduzidas com a Argentina, na ausência de um embaixador formal.
Daniel Raimondi, embaixador argentino em Brasília, foi liberado para retornar ao país natal.
Lula ainda não se manifestou publicamente sobre as declarações do argentino eironizou ao perguntar "quem é esse cara". A relação entre os dois líderes permanece tensa desde a posse de Milei, em dezembro de 2023.
O episódio ocorre como ecos do agravamento das tensões diplomáticas entre Brasília e Washington. Milei é aliado próximo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja administração tem adotado posições críticas ao governo Lula.
Também nesta terça-feira, o Departamento de Estado americano revogou o visto do embaixador brasileiro em Washington, em resposta à negativa do Brasil de conceder vistos a dois diplomatas americanos que pretendiam visitar o país antes das eleições.
Lula foi oficializado no domingo como candidato à reeleição durante a convenção do PT, marcada por discursos sobre possíveis interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.
O vice-presidente Geraldo Alckmin, que repetirá a chapa com Lula, ironizou as críticas externas ao afirmar que o sistema eletrônico de votação do Brasil “é tão eficiente que não aceita votos de argentinos nem de americanos”, em referência indireta a Milei e Trump.
