O que deve colocar a produção de alimentos em risco? A FAO tem uma tese

As perspectivas para a produção global de alimentos seguem positivas, mas a combinação entre riscos climáticos e tensões geopolíticas pode mudar esse cenário nos próximos meses. O alerta é da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em relatório sobre o panorama alimentar mundial.
Segundo a entidade, o fortalecimento do fenômeno El Niño e as incertezas em torno do comércio de energia e fertilizantes, agravadas pelo conflito no Oriente Médio, representam os principais fatores de risco para a segurança alimentar global.
"O sistema agroalimentar continua robusto do ponto de vista da produção, mas os riscos estão aumentando e muitos deles têm potencial para provocar impactos rápidos e adversos sobre a oferta e o acesso aos alimentos", afirmou o economista-chefe da FAO, Máximo Torero.
Para o especialista, a prioridade deve ser fortalecer a resiliência das cadeias globais de abastecimento por meio da manutenção dos fluxos comerciais e logísticos, ao mesmo tempo em que os países se preparam para possíveis choques climáticos.
Um dos pontos de atenção do relatório é o mercado global de fertilizantes. A FAO identificou uma queda de 20% a 25% no volume negociado mundialmente entre janeiro e abril de 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Apesar do recuo recente nos preços, a organização avalia que persistem preocupações para a temporada agrícola 2026/27. A demanda segue enfraquecida em mercados importantes, como Europa e América do Norte, especialmente para fertilizantes nitrogenados e fosfatados.
O cenário também permanece sensível a eventuais interrupções no tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de energia e insumos agrícolas em meio às tensões envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel.
No segmento de commodities agrícolas, a soja aparece como destaque positivo. A FAO projeta uma produção recorde de 432,3 milhões de toneladas na safra 2025/26, impulsionada principalmente pelo crescimento das colheitas no Brasil e na Rússia. O avanço deve compensar as quedas esperadas na Argentina, Índia e América do Norte.
Já o açúcar segue trajetória oposta. A entidade prevê uma nova redução da produção brasileira, que deverá registrar a segunda queda consecutiva. O movimento reflete a menor parcela de cana destinada à fabricação de açúcar diante da maior atratividade do mercado de etanol.
Arroz e trigo
Entre os grãos, as colheitas globais de trigo, arroz e grãos grossos devem recuar em relação aos níveis recordes recentes, embora continuem em patamares historicamente elevados graças aos estoques acumulados.
No caso do trigo, a produção mundial é estimada em 810,9 milhões de toneladas, queda de 3,8% em relação ao ciclo anterior. O recuo será puxado principalmente por menores safras na Austrália, União Europeia e Estados Unidos. Para os americanos, a expectativa é de uma redução de 21,3%.
A FAO também projeta crescimento de 1% na produção mundial de carnes em 2026, para 391,3 milhões de toneladas. O avanço será liderado pela avicultura, cuja produção deve aumentar 2,5%, enquanto a carne bovina tende a registrar retração.
Na pesca e aquicultura, a produção global deve crescer 1%, alcançando 200,5 milhões de toneladas, sustentada principalmente pelo aumento da oferta de camarão, salmão e carpa.
Em contrapartida, a pesca extrativa deverá recuar 1,1%, afetada pela redução das cotas de captura para espécies importantes do Atlântico Norte, como cavala, arenque e bacalhau, além da anchoveta peruana.
