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InvestMercadosBDR
13/10/2026
5 min

O que é o 'acordo do talco' que ajudou a derrubar o lucro da Johnson & Johnson em 96%

O acordo prevê o pagamento de US$ 5,5 bi em ações na Justiça movida por mulheres com câncer de ovário

O que é o 'acordo do talco' que ajudou a derrubar o lucro da Johnson & Johnson em 96%

A Johnson & Johnson teve uma queda de 95,9% no lucro líquido do 3º trimestre de 2026, para US$ 210 milhões. Um dos principais motivos foi uma despesa bilionária ligada ao "acordo do talco", que busca encerrar milhares de processos sobre os antigos produtos de talco da empresa.

O "acordo do talco" foi anunciado no fim de julho e prevê o pagamento de pelo menos US$ 5,5 bilhões. O objetivo é resolver milhares ações na Justiça dos Estados Unidos movidas por mulheres que dizem ter desenvolvido câncer de ovário após usar produtos de talco da Johnson & Johnson.

A empresa nega que seus produtos causem câncer e mantém a posição de que o talco não faz mal à saúde.

Como funciona o "acordo do talco" da Johnson

A proposta não depende apenas do pagamento dos US$ 5,5 bilhões. Para avançar nos termos previstos, o acordo precisa da adesão de escritórios de advocacia que representem pelo menos 95% dos casos envolvidos.

Os pagamentos também não serão feitos de uma só vez. O primeiro desembolso está previsto para 2027 e pode chegar a US$ 3 bilhões.

Por que a J&J enfrenta processos por causa do talco

Os processos, que se arrastam há cerca de 15 anos, alegam que produtos de talco da companhia estavam contaminados com amianto e provocaram câncer de ovário e outros tipos de câncer. A Johnson & Johnson rejeita essa acusação e diz que seus produtos não continham amianto.

A empresa também diz que o acordo não significa uma admissão de culpa, e mantém a posição de que suas fórmulas eram seguras.

Antes do acordo atual, a J&J tentou resolver os processos por meio da falência de uma subsidiária criada para concentrar as ações. Duas tentativas anteriores haviam sido rejeitadas pela Justiça.

Em outubro de 2024, um juiz permitiu o avanço de uma terceira tentativa. Na época, Erik Haas, vice-presidente mundial de litígios da J&J, afirmou que a decisão ajudava a empresa a avançar na busca por um acordo.

"Mais um passo em direção à resolução total e final do litígio de talco para o benefício de todas as partes interessadas", disse Haas. Só que essa estratégia acabou não resolvendo o problema.

A disputa ficou suspensa por mais de três anos enquanto a companhia tentava usar o processo de falência para chegar a uma solução. As tentativas fracassaram e os processos voltaram a avançar em março de 2025.

Talco para bebês saiu das lojas nos Estados Unidos

A Johnson & Johnson deixou de vender seu tradicional talco para bebês à base de talco nos EUA em 2020. O produto foi substituído por uma versão feita com amido de milho. A mudança ocorreu mesmo com a companhia mantendo a defesa de que o produto era seguro.

Três anos depois, em 2023, a empresa também encerrou a venda do produto à base de talco no restante do mundo.

A discussão também chegou ao campo científico, e estudos sobre uma possível relação entre o uso de talco e o câncer de ovário apresentam resultados diferentes.

Em 2024, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), passou a classificar o talco sem amianto como "provavelmente cancerígeno para humanos" quando usado na região genital feminina. A conclusão foi publicada na revista científica The Lancet Oncology.

Como o acordo derrubou o lucro da Johnson & Johnson

O efeito apareceu com força no balanço divulgado nesta terça-feira, 13. O lucro líquido caiu de US$ 5,15 bilhões no 3º trimestre de 2025 para US$ 210 milhões neste ano. O lucro por ação também despencou, de US$ 2,12 para US$ 0,09.

A apresentação de resultados da empresa mostra que o lucro contábil foi afetado por despesas extraordinárias. Entre elas estão o encargo ligado ao acordo do talco, a compra da Firefly Bio e a parceria com a Sail Biomedicines.

O relatório financeiro mostra ainda US$ 5,519 bilhões em ajustes antes dos impostos ligados a litígios no 3º trimestre. Esse valor ajuda a explicar por que o lucro caiu tanto mesmo com a receita da companhia crescendo no período.

Sem essas despesas, o resultado foi melhor no 3º tri

A receita da Johnson & Johnson chegou a US$ 25,4 bilhões no trimestre, alta de 5,9% em relação a igual período de 2025. As vendas operacionais cresceram 6%.

O lucro ajustado ficou em US$ 6,34 bilhões. Já o lucro ajustado por ação foi de US$ 2,59, contra US$ 2,80 um ano antes. Esse cálculo tira da conta alguns gastos considerados extraordinários pela empresa.

O resultado ficou acima do esperado por analistas consultados pela LSEG. A previsão era de lucro ajustado de US$ 2,54 por ação. A receita de US$ 25,4 bilhões também superou a projeção de US$ 25,28 bilhões.

Trimestre mostra melhora no crescimento, diz CEO

O presidente e CEO da Johnson & Johnson, Joaquin Duato, disse que o trimestre mostrou uma melhora no ritmo de crescimento da companhia. "O forte desempenho da Johnson & Johnson no 3º trimestre e o aumento do crescimento sequencial refletem a aceleração do nosso portfólio focado."

O desempenho foi diferente entre os negócios da companhia, com as vendas da área farmacêutica crescendo de 7,7% para US$ 16,76 bilhões, enquanto a divisão de tecnologia médica avançou 2,5%, para US$ 8,6 bilhões.

Joe Wolk, diretor financeiro (CFO, em inglês) da empresa, pontuou ainda que conflitos no Oriente Médio, medidas de austeridade na Europa e preços na China continuaram pesando sobre os negócios internacionais.

"São países que ainda valorizam e querem sistemas de saúde premium", disse Wolk ao citar Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Segundo ele, parte dos orçamentos desses países passou a ser direcionada para defesa.

*Com informações de Vanessa Loiola e de agências internacionais

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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