O que é o 'acordo do talco' que ajudou a derrubar o lucro da Johnson & Johnson em 96%
O acordo prevê o pagamento de US$ 5,5 bi em ações na Justiça movida por mulheres com câncer de ovário

A Johnson & Johnson teve uma queda de 95,9% no lucro líquido do 3º trimestre de 2026, para US$ 210 milhões. Um dos principais motivos foi uma despesa bilionária ligada ao "acordo do talco", que busca encerrar milhares de processos sobre os antigos produtos de talco da empresa.
O "acordo do talco" foi anunciado no fim de julho e prevê o pagamento de pelo menos US$ 5,5 bilhões. O objetivo é resolver milhares ações na Justiça dos Estados Unidos movidas por mulheres que dizem ter desenvolvido câncer de ovário após usar produtos de talco da Johnson & Johnson.
A empresa nega que seus produtos causem câncer e mantém a posição de que o talco não faz mal à saúde.
Como funciona o "acordo do talco" da Johnson
A proposta não depende apenas do pagamento dos US$ 5,5 bilhões. Para avançar nos termos previstos, o acordo precisa da adesão de escritórios de advocacia que representem pelo menos 95% dos casos envolvidos.
Os pagamentos também não serão feitos de uma só vez. O primeiro desembolso está previsto para 2027 e pode chegar a US$ 3 bilhões.
Por que a J&J enfrenta processos por causa do talco
Os processos, que se arrastam há cerca de 15 anos, alegam que produtos de talco da companhia estavam contaminados com amianto e provocaram câncer de ovário e outros tipos de câncer. A Johnson & Johnson rejeita essa acusação e diz que seus produtos não continham amianto.
A empresa também diz que o acordo não significa uma admissão de culpa, e mantém a posição de que suas fórmulas eram seguras.
Antes do acordo atual, a J&J tentou resolver os processos por meio da falência de uma subsidiária criada para concentrar as ações. Duas tentativas anteriores haviam sido rejeitadas pela Justiça.Em outubro de 2024, um juiz permitiu o avanço de uma terceira tentativa. Na época, Erik Haas, vice-presidente mundial de litígios da J&J, afirmou que a decisão ajudava a empresa a avançar na busca por um acordo.
"Mais um passo em direção à resolução total e final do litígio de talco para o benefício de todas as partes interessadas", disse Haas. Só que essa estratégia acabou não resolvendo o problema.
A disputa ficou suspensa por mais de três anos enquanto a companhia tentava usar o processo de falência para chegar a uma solução. As tentativas fracassaram e os processos voltaram a avançar em março de 2025.
Talco para bebês saiu das lojas nos Estados Unidos
A Johnson & Johnson deixou de vender seu tradicional talco para bebês à base de talco nos EUA em 2020. O produto foi substituído por uma versão feita com amido de milho. A mudança ocorreu mesmo com a companhia mantendo a defesa de que o produto era seguro.
Três anos depois, em 2023, a empresa também encerrou a venda do produto à base de talco no restante do mundo.
A discussão também chegou ao campo científico, e estudos sobre uma possível relação entre o uso de talco e o câncer de ovário apresentam resultados diferentes.
Em 2024, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), passou a classificar o talco sem amianto como "provavelmente cancerígeno para humanos" quando usado na região genital feminina. A conclusão foi publicada na revista científica The Lancet Oncology.
Como o acordo derrubou o lucro da Johnson & Johnson
O efeito apareceu com força no balanço divulgado nesta terça-feira, 13. O lucro líquido caiu de US$ 5,15 bilhões no 3º trimestre de 2025 para US$ 210 milhões neste ano. O lucro por ação também despencou, de US$ 2,12 para US$ 0,09.
A apresentação de resultados da empresa mostra que o lucro contábil foi afetado por despesas extraordinárias. Entre elas estão o encargo ligado ao acordo do talco, a compra da Firefly Bio e a parceria com a Sail Biomedicines.O relatório financeiro mostra ainda US$ 5,519 bilhões em ajustes antes dos impostos ligados a litígios no 3º trimestre. Esse valor ajuda a explicar por que o lucro caiu tanto mesmo com a receita da companhia crescendo no período.
Sem essas despesas, o resultado foi melhor no 3º tri
A receita da Johnson & Johnson chegou a US$ 25,4 bilhões no trimestre, alta de 5,9% em relação a igual período de 2025. As vendas operacionais cresceram 6%.
O lucro ajustado ficou em US$ 6,34 bilhões. Já o lucro ajustado por ação foi de US$ 2,59, contra US$ 2,80 um ano antes. Esse cálculo tira da conta alguns gastos considerados extraordinários pela empresa.
O resultado ficou acima do esperado por analistas consultados pela LSEG. A previsão era de lucro ajustado de US$ 2,54 por ação. A receita de US$ 25,4 bilhões também superou a projeção de US$ 25,28 bilhões.
Trimestre mostra melhora no crescimento, diz CEO
O presidente e CEO da Johnson & Johnson, Joaquin Duato, disse que o trimestre mostrou uma melhora no ritmo de crescimento da companhia. "O forte desempenho da Johnson & Johnson no 3º trimestre e o aumento do crescimento sequencial refletem a aceleração do nosso portfólio focado."
O desempenho foi diferente entre os negócios da companhia, com as vendas da área farmacêutica crescendo de 7,7% para US$ 16,76 bilhões, enquanto a divisão de tecnologia médica avançou 2,5%, para US$ 8,6 bilhões.
Joe Wolk, diretor financeiro (CFO, em inglês) da empresa, pontuou ainda que conflitos no Oriente Médio, medidas de austeridade na Europa e preços na China continuaram pesando sobre os negócios internacionais.
"São países que ainda valorizam e querem sistemas de saúde premium", disse Wolk ao citar Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Segundo ele, parte dos orçamentos desses países passou a ser direcionada para defesa.
*Com informações de Vanessa Loiola e de agências internacionais
