'O que está acontecendo não deveria ser surpresa', diz Marcos Lisboa sobre varejo
Ex-secretário de Política Econômica afirma que dificuldades das empresas vêm de anos e vê risco de piora em 2027 e 2028

A deterioração financeira de Casas Bahia e Marabraz expõe um problema que, na avaliação de Marcos Lisboa, vem sendo construído há anos no varejo brasileiro.
Economista, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda no primeiro governo Lula e ex-presidente do Insper, Lisboa afirma que o endividamento elevado, decisões de investimento tomadas em períodos de juros baixos e falhas de gestão de risco deixaram companhias mais vulneráveis à mudança do cenário econômico.
“A Casas Bahia já não é novidade”, diz. Para Lisboa, a situação do varejo faz parte de um quadro mais amplo, que também alcança o agronegócio e outras atividades.
Na avaliação dele, problema deve se agravar em 2027 e 2028 caso o país não consiga conter o crescimento dos gastos públicos, condição que considera essencial para uma redução sustentável dos juros.
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Nos últimos dias foram dois pedidos de recuperação judicial, das Casas Bahia e das Lojas Marabraz, duas do setor de varejo. O que explica esse cenário?
Há sinais preocupantes em vários setores da economia há bastante tempo. Não é algo eventual, um acidente ou uma situação que começou agora. A própria Casas Bahia já teve dificuldades com dívida anos atrás e precisou renegociá-la. Os sinais de empresas de vários setores com problemas de solvência e endividamento vêm de muito tempo. Portanto, o que está acontecendo não deveria ser uma surpresa, porque é resultado de um processo muito mais longo.
Têm semelhanças em todo esse processo?
Existem, obviamente, questões específicas de cada empresa, de gestão e de governança, que podem complicar alguns casos mais do que outros. Algumas empresas, na época dos juros baixos, começaram grandes investimentos sem antecipar que, no caso do Brasil, os preços e as taxas de juros são muito voláteis. Essas empresas tiveram dificuldades. Também houve um crescimento peculiar do mercado de crédito nos últimos anos, com muitas operações no mercado de capitais e por meio de fundos, além de um aumento grande da concorrência não apenas bancária, mas também de outras instituições que oferecem instrumentos semelhantes ao crédito. Isso acabou contribuindo para o cenário preocupante que estamos vivendo. Muitas empresas enfrentam dificuldades, com problemas de capital de giro, de gestão de crédito, de viabilização de investimentos e de cumprimento de suas obrigações. Isso vale para o varejo, para algumas partes do agronegócio — em que já temos visto recuperações extrajudiciais em casos mais complicados — e para outros setores da economia. Isso já vem acontecendo há bastante tempo.
Apesar de esse movimento já acontecer há algum tempo, no agronegócio vimos o problema desde 2024, com força maior em 2025 e também em 2026. Fazendo um recorte para o varejo, podemos dizer que o setor é apenas o começo ou ainda é cedo para afirmar isso?
O varejo é parte desse processo. Houve problemas no agronegócio, e o varejo também enfrenta dificuldades há bastante tempo. A Casas Bahia, por exemplo, não é novidade. Outras empresas do varejo também já tiveram problemas ainda mais graves. Há várias empresas do setor com problemas significativos de dívida há bastante tempo, incluindo redes de supermercados e outros negócios. Também temos problemas em algumas instituições financeiras ou que concedem recursos, como gestoras de fundos, há alguns anos. Portanto, esse é um quadro que vem sendo construído. Talvez as pessoas estivessem em certa euforia porque o emprego estava bem e a economia ainda crescia, mas esses problemas já são perceptíveis há alguns anos. O descontrole fiscal do governo contribui para agravar o problema ao pressionar a taxa de juros e criar um ambiente macroeconômico mais estreito no futuro.
Em que isso pode desembocar?
O tamanho do problema que poderemos enfrentar em 2027 e 2028 vai depender muito da forma como o governo reagir às dificuldades. A questão é saber se o governo vai controlar o crescimento dos gastos e adotar uma agenda para melhorar o ambiente de negócios, estimulando a competição e a abertura da economia, ou se vai reagir tentando proteger empresas e setores com fundos, criatividade fiscal e intervenções nos mercados. Se o governo conseguir controlar os gastos e adotar uma agenda de abertura da economia e estímulo à concorrência, podemos ter um momento difícil, mas não tão difícil. Agora, se o governo reagir tentando intervir nos mercados, auxiliar empresas em dificuldade e criar fundos que piorem a dívida pública no médio prazo, com mais distorções, a crise pode ficar mais grave, dependendo dos mercados em que o governo venha a intervir.
Que tipo de intervenção econômica preocupa?
Fico preocupado quando vejo assessores de campanha falando em controle de operações de capital, na conta externa e no câmbio, além de intervenções nos juros. O Brasil já adotou essa agenda várias vezes no passado. Não deu certo antes e temo que não vá dar certo desta vez.
Por que a fórmula de expansão do consumo que funcionou nos primeiros governos Lula não produziu o mesmo efeito sobre o varejo no terceiro mandato? O que mudou de lá para cá?
Tenho uma divergência em relação a esse diagnóstico. Não acho que o problema tenha vindo daí. O governo, tanto no passado quanto atualmente, estimula muito o consumo e o investimento. Procura estimular ambos por meio da concessão de recursos. O problema não veio daí. Houve questões públicas envolvendo troca de acionistas e governança em vários varejistas. Também houve grandes investimentos iniciados no passado, mas as condições da economia mudaram, e esses investimentos hoje geram dificuldades para as empresas. Isso é relatado pelos próprios executivos das empresas. Não é um problema que começou hoje. As empresas no Brasil têm uma dificuldade de fazer gestão de risco e de capital, de compreender os problemas que podem acontecer e de realizar operações sem contar tanto com a ideia de que as circunstâncias serão sempre favoráveis. Isso é um tema de gestão de negócios no Brasil, e várias empresas estão sofrendo com isso hoje. A política de expansão do consumo e do investimento do governo, dentro de uma política fiscal expansionista, também tem várias consequências. A dívida pública tem crescido significativamente. Além disso, a expansão da economia pressiona o nível de preços e a taxa de juros. Isso gera efeitos colaterais indesejados, como juros mais altos e um custo de capital maior tanto para o governo quanto para as empresas.
Há uma discussão sobre a necessidade de ajuste fiscal. Além da questão fiscal, existe outra forma de o Brasil reduzir os juros?
As demais estratégias que têm sido ventiladas estão condenadas ao fracasso. Temos um problema de inflação. Se você baixa os juros de maneira artificial com essa política fiscal, a inflação aparece. Vimos isso durante a gestão de Alexandre Tombini no Banco Central, há cerca de 14 anos. Na época, havia uma inflação um pouco acima da meta, e o Banco Central reduziu os juros de maneira surpreendente. O que aconteceu? A economia cresceu mais? Não. O investimento aumentou? Não. Gerou mais emprego? Não. O que houve foi uma desaceleração da economia depois da redução dos juros, acompanhada por aumento da inflação. Isso ocorreu a partir de 2011, e acredito que o pico da inflação tenha sido no começo de 2013. O Banco Central está refém da política fiscal. Se você tiver uma política fiscal organizada — e não estou falando necessariamente de cortar gastos —, é possível segurar o crescimento das despesas.
O corte de gastos é sempre uma saída?
Há pouco espaço para cortes muito significativos por causa das nossas leis e da Constituição. Se o Brasil conseguir segurar o crescimento do gasto, os juros naturalmente caem, como aconteceu no governo Temer. Com o teto de gastos, a curva de juros de mercado despencou. Depois, o Banco Central pôde reduzir a taxa básica de juros com a queda da inflação. A taxa de juros de mercado, aquela paga pelo Tesouro Nacional, despencou com o teto de gastos. O que machuca o setor real são os juros pagos pelo Tesouro, porque essa é a base da economia. Se você reduz a Selic sem ter condições fiscais que viabilizem e deem sustentabilidade a essa queda, a curva abre. Ou seja, os juros de mercado ficam mais caros, e não mais baratos.
Independentemente de quem ganhar a eleição no ano que vem, essa agenda de controle de gastos precisará ser feita?
A opção dos últimos governos não tem sido essa. Desde o governo Temer, não houve uma opção de fato por estancar o crescimento dos gastos públicos. A situação foi se agravando com o tempo. Houve uma série de medidas para expandir os gastos públicos no governo anterior e também neste governo. Houve ainda a volta da indexação de diversos gastos importantes do governo à receita. Portanto, essa não tem sido a opção adotada. Será preciso ver o que a sociedade vai preferir. Ela pode apoiar opções no Congresso para restringir o crescimento do gasto e viabilizar uma economia mais saudável, como ocorreu no governo Temer, ou insistir na saída populista que temos visto há vários anos e que produz os efeitos colaterais aos quais estamos assistindo.
Não é difícil explicar esse debate para a população? Como dizer ao brasileiro médio que é preciso fazer um corte de gastos?
Não estou falando de cortar gastos. O ajuste é parar o crescimento do gasto.
E como se faz isso?
O teto de gastos fez isso. Você continuou tendo gastos com saúde e educação, mas interrompeu o crescimento das despesas. A economia saiu da recessão, a taxa de juros caiu e a inflação não subiu. Foi um cenário bastante benéfico. Estancar o crescimento do gasto não significa prejudicar saúde e educação. Pelo contrário. É possível reduzir benefícios tributários, rever gastos com outros Poderes, como Judiciário e Legislativo, emendas parlamentares, despesas judiciais e subsídios concedidos ao setor privado. Há muita coisa que pode ser feita. Estamos falando em reduzir a velocidade de crescimento do gasto público, e existe muita margem de manobra para fazer isso sem prejudicar a política social.
Tem exemplos de gestões que adotaram esse caminho?
Governos estaduais que fizeram isso tiveram bons resultados. Posso citar dois exemplos: Paulo Hartung, no Espírito Santo, na década de 2000, em dois mandatos, e Renan Filho, em Alagoas, também em dois mandatos. Eles fizeram ajuste fiscal, ou seja, reduziram o crescimento do gasto e melhoraram os indicadores sociais nos dois casos. Controlaram gastos com os demais Poderes, fecharam empresas ineficientes e fizeram concessões inteligentes para garantir serviços públicos de melhor qualidade à população. Esse é um falso dilema proposto por quem vive da mesada do Estado para interditar o debate. Na prática, isso não se sustenta. Os governadores que tiveram melhor desempenho na gestão das contas públicas também tiveram desempenho excepcional nos indicadores sociais. Paulo Hartung e Renan Filho são dois exemplos, mas não são os únicos.
Você participou do primeiro governo Lula. Na sua visão, o Lula de 2003 aceitaria a política econômica do Lula de hoje? O que mudou?
Eu não vou avaliar pessoas. Não faço isso.
Então, olhando para a gestão econômica, o que mudou?
Houve uma circunstância que viabilizou aquela política econômica. Havia um ministro que liderou aquela agenda e um governo que a apoiou. Muita coisa mudou de lá para cá. O próprio segundo governo Lula já tinha uma orientação muito diferente, de estímulo ao gasto e ao investimento, com essa agenda tradicional do Brasil de conceder subsídios e incentivos para consumo e investimento com a ideia de gerar desenvolvimento econômico. Isso resultou na crise do governo Dilma, com uma das recessões mais graves da nossa história. Essa agenda continua dominante no Brasil. E, novamente, não é uma questão de governo A ou B. Essa é uma agenda que uma parte importante da sociedade brasileira e do setor privado brasileiro defende: concessão de subsídios, benefícios e proteções setoriais. Isso, porém, leva ao descontrole do gasto público.
Existem hoje setores que já conseguiriam andar sem políticas protecionistas?
A questão não é essa. Você não deve proteger setores, a menos que acredite ou tenha evidências e dados de que, durante algum tempo, a sociedade vai pagar um subsídio ou uma proteção para determinado setor e, depois de alguns anos, esse setor se tornará competitivo no mundo e estará entre os melhores. Se não for assim, não vale a pena. A sociedade fica mais pobre. Ao proteger de forma recorrente um setor ineficiente, você empobrece a sociedade.
Na sua avaliação, qual é hoje o maior risco econômico do Brasil: fiscal, institucional ou de produtividade?
A fiscal é urgente. É preciso estancar o crescimento dos gastos. Mais uma vez, não estou falando em cortar gasto público, mas em reduzir seu crescimento e estabelecer prioridades. Se a prioridade é saúde e educação, ótimo. Mas não deveriam ser prioridade políticas que fracassam há décadas, como a Zona Franca de Manaus, políticas de desenvolvimento regional como Sudene e Banco do Nordeste, ou o apoio à indústria automotiva. Essas políticas, sistematicamente, não conseguem obter resultados importantes. Veja o desenvolvimento regional do Nordeste em comparação com o Sudeste. A diferença não caiu apesar dos imensos subsídios concedidos pela sociedade brasileira. Você tirou dinheiro da sociedade, de saúde, educação e saneamento, para tentar fazer a região Nordeste convergir para o Sudeste. Deu certo? Não. A proposta da Zona Franca de Manaus era que ela se tornasse autossustentável em poucas décadas. Tornou-se? Não. Há muitos outros exemplos de políticas fracassadas, inclusive na indústria automobilística. Não repetir os velhos equívocos já seria um avanço imenso para o país.
Mas quais equívocos?
Hoje existe uma agenda confusa no mundo, com o governo americano imitando políticas que o Brasil adotou de maneira fracassada no último século. Acho curioso. Sempre imaginei que o Brasil copiaria as políticas que deram certo nos Estados Unidos. Nunca imaginei que os Estados Unidos copiariam políticas que fracassaram no Brasil. Há também uma agenda de comércio exterior muito importante para várias áreas do agronegócio e para setores nos quais o Brasil tem grande vantagem competitiva. O Brasil possui vantagens em áreas de computação e alta tecnologia. A propósito, o agronegócio é uma área de alta tecnologia. O Brasil se tornou bom no agronegócio porque investiu em tecnologia. Portanto, investir em tecnologia e na proximidade entre ciência aplicada e empreendedorismo é muito importante para uma estratégia de desenvolvimento.
Você foi responsável por diversas agendas microeconômicas na primeira gestão econômica do governo Lula I. Olhando para os últimos governos, a agenda de reformas microeconômicas perdeu espaço no Brasil?
Acho que tivemos um retrocesso nessa área desde o fim dos anos 2000. Houve intervenções setoriais, políticas mal desenhadas, exigências de conteúdo nacional em plataformas de petróleo, incentivos à indústria naval e toda aquela política de subsídios. Um exemplo foi o PSI, do BNDES. Era o estado brasileiro distribuindo subsídios sem uma avaliação adequada sobre a possibilidade de o setor se tornar eficiente ou não. Essas políticas consumiam recursos públicos sem gerar resultados relevantes. Houve um breve interregno no governo Temer, quando existiu uma agenda para corrigir parte das distorções criadas nos governos anteriores. Depois, tanto no governo anterior quanto no atual, houve um grande retrocesso nessa agenda microeconômica.
Mas quais retrocessos você aponta nesse sentido?
Há vários exemplos, como o que aconteceu no setor elétrico e uma série de outras políticas adotadas nos últimos anos. Houve um retrocesso na agenda de geração de maior eficiência. A questão fiscal é urgente, mas a agenda de produtividade é a agenda de longo prazo, aquela que gera desenvolvimento para o país. Nessa área, estamos perdendo o bonde. A produtividade no Brasil cresce menos do que no restante do mundo há muitas décadas, e isso piorou nesta década. O Brasil tem baixo potencial de crescimento porque insiste em políticas que protegem empresas e setores desnecessários, em vez de estimular concorrência, inovação e formação de pessoas, além de educação e saúde de qualidade, que são fundamentais para a produtividade. O estado é grande, retira muito dinheiro da sociedade e o transfere para quem não gera produtividade, crescimento ou bem-estar social. Também não avaliamos adequadamente a qualidade da aprendizagem dos alunos ou a qualidade da água. Vamos fazendo políticas atabalhoadas para atender grupos de pressão, enquanto o país fica para trás, ainda mais nos últimos anos.
Há uma expectativa grande de que a reforma tributária melhore o ambiente de produtividade. Você acredita que ela deve gerar esse efeito ou ainda é cedo para avaliar?
Quanto ela vai melhorar, eu não sei. A reforma não é ótima. Foi o que conseguimos fazer. O texto legal tem muitos problemas. Como de costume, grupos de pressão conseguiram vários benefícios, isenções e exceções. Por outro lado, nosso regime tributário era tão ruim que dificilmente poderia ficar pior. Portanto, a reforma representa um avanço, embora seja uma pena termos perdido a oportunidade de fazer uma boa reforma. Fizemos uma reforma razoável. Dado o desastre que era o sistema tributário brasileiro, é melhor do que o sistema antigo. Fico muito preocupado com o comitê gestor, com esse IVA dual, com as muitas exceções criadas e com um texto legal muito convoluto, complicado e que dá margem a muitas interpretações. A reforma reduz um dos problemas que o Brasil tem. Agora, temos uma agenda consistente para aumentar a produtividade, composta por várias pequenas reformas que resolvam problemas e distorções setoriais, estimulem a concorrência, integrem o Brasil ao restante do mundo e melhorem a qualidade das políticas públicas, como educação e saúde? Não. Essa agenda não domina o debate brasileiro.
