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TecnologiaBDR
19/06/2026
4 min

O que está em jogo em possível acordo da Intel e da Apple

O que está em jogo em possível acordo da Intel e da Apple

A Intel voltou ao centro das atenções em Wall Street na quinta-feira, 18, depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em rede social que a Apple vai trabalhar com a fabricante de chips para desenvolver e fabricar processadores em território americano.

As ações da Intel chegaram a subir cerca de 9% no pré-mercado de Nova York, enquanto os papéis da Apple avançavam de forma mais moderada.

O anúncio foi feito por Trump em sua rede social, Truth Social, e posiciona a Intel como parceira de fundição doméstica para processadores desenhados pela Apple — movimento que, segundo o presidente americano, resultou de seu governo ter "ajudado a Intel em troca de 10% de suas ações".

Nem Apple nem Intel confirmaram oficialmente os termos do acordo até a publicação desta reportagem, e os detalhes concretos, como quais linhas de chips, qual processo de fabricação, qual volume de produção, permanecem desconhecidos.

Por que isso é uma mudança histórica?

Há anos a Apple projeta seus próprios chips — os processadores das famílias M e A, que equipam desde iPhones até MacBooks —, mas depende quase inteiramente da taiwanesa TSMC para efetivamente fabricá-los.

Uma parceria com a Intel marcaria a primeira vez que a Apple confiaria a fabricação de processadores avançados a uma fundição americana em escala relevante.

Fontes ouvidas pela CNBC indicam que o maior desafio histórico da Intel nunca foi a capacidade de produzir chips, foi a falta de clientes externos.

Durante décadas, a empresa concentrou sua produção em seus próprios produtos, enquanto rivais como a TSMC se consolidavam como fornecedoras globais para Apple, Nvidia e AMD.

Caso a parceria seja confirmada, a dona do iPhone se tornaria um dos clientes mais relevantes da operação de manufatura da Intel, ajudando a validar uma estratégia que já consumiu bilhões de dólares em investimentos nos últimos anos.

O pano de fundo: o governo dos EUA como acionista da Intel

O acordo se apoia numa relação incomum entre Washington e a fabricante de chips, construída ao longo do último ano.

Em agosto de 2025, a Bloomberg revelou que o governo Trump avaliava comprar uma participação na Intel — movimento que rompeu com o entendimento tradicional sobre como o poder público interage com a indústria privada nos Estados Unidos.

O acordo se concretizou: a Casa Branca adquiriu 10% da empresa, com um aporte inicial de US$ 5,7 bilhões financiado por subsídios da Lei de CHIPS e Ciência, criada ainda no governo Joe Biden.

Em outubro de 2025, a valorização das ações já havia elevado o valor dessa participação para US$ 16 bilhões.

Segundo Trump, essa fatia "cresceu de forma acentuada" em valor desde então, embora analistas do mercado financeiro apontem que as cifras mencionadas pelo presidente parecem acompanhar o valor de mercado total da Intel, e não necessariamente o valor exato da participação do governo.

Uma reviravolta na estratégia de Lip-Bu Tan

A estratégia de abrir as fábricas da Intel para clientes externos ganhou força após a chegada de Lip-Bu Tan ao comando da empresa, em uma missão de "se tornar mais TSMC".

O caminho até aqui não foi linear: em 2025, a própria TSMC chegou a ser sondada pelo governo americano para assumir o controle das fábricas da concorrente, numa proposta de joint venture que incluiria Nvidia, AMD, Broadcom e Qualcomm — ideia que a taiwanesa rejeitou, preferindo manter o foco exclusivo nos próprios negócios.

O movimento acontece em meio a uma recuperação acentuada da Intel. As ações da empresa acumulam valorização de 464% nos últimos 12 meses, alimentada também pela chegada de outros grandes investidores à companhia, como SoftBank e Nvidia.

O que ainda não se sabe

Apesar da reação entusiasmada do mercado, a confirmação formal de um acordo entre Apple e Intel ainda não existe.

O CEO da Intel já havia sinalizado, em entrevistas recentes, que espera fechar compromissos formais com múltiplos clientes de fundição apenas no segundo semestre de 2026, uma linguagem de expectativa, não de transação concluída.

Também não está claro se a parceria envolveria os chips mais avançados da Apple, como os processadores principais do iPhone, ou componentes secundários, nem qual nó de fabricação seria utilizado.

De qualquer forma, o episódio reforça uma tendência mais ampla da era Trump: usar a influência direta do governo sobre empresas estratégicas — Intel, US Steel, e a mineradora de terras raras MP Materials estão entre os exemplos recentes — como ferramenta de política industrial, buscando reduzir a dependência americana de cadeias de produção concentradas na Ásia.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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