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30/06/2026
7 min

O que está em jogo entre Brasil e Noruega no campo dos negócios

O que está em jogo entre Brasil e Noruega no campo dos negócios

No próximo domingo, 5, as seleções do Brasil e Noruega disputam as oitavas de final da Copa do Mundo. Nos negócios, porém, a rivalidade dá lugar à parceria, em uma relação que começou muito antes do petróleo, da energia renovável ou dos acordos comerciais.

Em 1842, o primeiro navio norueguês aportou no Brasil carregado de bacalhau e voltou à Europa com café nos porões, dando início a uma relação comercial que atravessou quase dois séculos entre essas duas nações, e que hoje, tem uma nova agenda de crescimento baseada em energia, tecnologia e descarbonização.

Em entrevista exclusiva à EXAME, Kjetil Elsebutangen, embaixador da Noruega no Brasil, afirma que a relação bilateral vive uma nova fase, impulsionada por comércio, energia, tecnologia e descarbonização. Há seis meses no país, o diplomata chegou depois de um período de forte aproximação entre os dois governos.

“A Noruega foi o país convidado quando o Brasil teve a presidência do G20. Tivemos muitas visitas políticas e reforçamos as relações. Dentro desses seis meses em que estou no Brasil, já pudemos ver os resultados de relações ainda mais fortes entre os dois países”, afirma Elsebutangen.

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A parceria no campo econômico

A cooperação, segundo o embaixador, vai além dos negócios. Ela passa por agendas comuns em democracia, direito internacional, multilateralismo e direitos humanos. Mas é no campo econômico que os números mostram a dimensão da parceria.

Hoje, cerca de 300 empresas norueguesas estão ativas no mercado brasileiro. Os investimentos somavam aproximadamente US$ 14 bilhões em 2024 e contribuíam para a geração de 120 mil empregos diretos e indiretos no Brasil. Além disso, o fundo soberano norueguês mantém cerca de US$ 7 bilhões investidos no mercado brasileiro.

“É uma cooperação forte, uma presença muito forte das empresas norueguesas no Brasil”, diz o embaixador.

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Acordo Mercosul-EFTA deve abrir novas oportunidades

Um dos principais pontos de atenção para os próximos meses é o acordo de livre comércio entre Mercosul e EFTA, bloco formado por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein.

Segundo Elsebutangen, o acordo já foi aprovado pelo Congresso brasileiro e pelo Parlamento norueguês, restando as etapas finais de promulgação. A expectativa é que ele possa entrar em vigor ainda neste ano.

“Esperamos que seja possível que este acordo entre em vigor antes do fim deste ano”, afirma o embaixador.

Na prática, o tratado deve reduzir tarifas para uma ampla lista de produtos. Em alguns casos, a queda será imediata; em outros, gradual. Entre os setores que devem ser beneficiados estão pescado, máquinas, equipamentos, tecnologia e indústria marítima, segundo Elsebutangen.

“Esse acordo é muito importante para os dois países porque abre novas oportunidades”, afirma o embaixador. “Em um mundo com mais desconfiança e mais barreiras tarifárias, ele mostra que economias que acreditam na cooperação podem fazer isso de forma concreta.”

Para a Noruega, o acordo também representa uma estratégia de diversificação comercial. Para o Brasil, reforça a política de abertura de mercados.

Brasil é prioridade fora da Europa e dos Estados Unidos

Apesar de a Noruega ter pouco mais de 5 milhões de habitantes, o país ocupa posição relevante entre os investidores estrangeiros no Brasil. Segundo o embaixador, fora da Europa e dos Estados Unidos, o Brasil é o mercado mais importante para as empresas norueguesas.

“Depois da Europa e dos Estados Unidos, o Brasil é o mais importante”, afirma. “As empresas norueguesas veem o mercado brasileiro no longo prazo. Não é um mercado onde entram por um ano, dois anos e depois vão embora.”

Essa visão de longo prazo explica a presença de companhias como Equinor, Statkraft, Yara e Hydro no país. A atuação se concentra principalmente em energia, petróleo e gás, renováveis, fertilizantes, setor marítimo e soluções industriais.

A Equinor, empresa de energia, é apontada pelo embaixador como uma das principais investidoras norueguesas no país. A companhia tem ampliado sua presença no Brasil em projetos offshore, enquanto outras empresas avançam em energia renovável, como eólica e solar.

“Uma empresa como a Equinor saiu de outros mercados do mundo, de outros países, mas reforçou sua prioridade no Brasil”, afirma Elsebutangen.

Energia, fertilizantes e descarbonização

A energia segue como um dos principais pilares da relação bilateral. O Brasil é visto pela Noruega como um mercado estratégico tanto em petróleo e gás quanto em renováveis.

“O setor de energia é bastante importante e abre oportunidades. Temos o setor offshore, de petróleo e gás, onde várias empresas norueguesas contribuem, mas também o setor de energia renovável, com oportunidades em eólica, solar e baterias”, diz o embaixador.

Outro setor citado é o de fertilizantes, com destaque para a Yara, empresa norueguesa com forte presença no Brasil.

“A Yara joga um papel importante que tem a ver com segurança alimentar no Brasil. Então, tem um papel estratégico também”, afirma.

Além dos investimentos tradicionais, uma das novas frentes de cooperação é a descarbonização do transporte marítimo. Segundo Elsebutangen, há um memorando de entendimento entre os dois países que reúne empresas, portos e organizações de pesquisa do Brasil e da Noruega.

“É um processo longo, mas muito importante. O interessante é que combina tecnologia com descarbonização e possibilidades de identificar novas oportunidades para as empresas”, diz.

Mais empresas podem chegar ao Brasil

Com a entrada em vigor do acordo Mercosul-EFTA, a expectativa é que novas empresas norueguesas passem a olhar o Brasil com mais atenção. Segundo o embaixador, as grandes companhias já estão instaladas, mas há espaço para atrair empresas menores e médias.

“Com o acordo de livre comércio, precisamos mostrar para mais empresas as possibilidades que existem no Brasil”, afirma. “Talvez para empresas menores, que ainda não tiveram a possibilidade de descobrir o mercado brasileiro, há uma oportunidade.”

A presença norueguesa ainda é muito concentrada no Rio de Janeiro, por causa da indústria de óleo e gás, mas São Paulo começa a ganhar mais relevância como centro financeiro e comercial. Outras regiões também entram no radar conforme a disponibilidade de recursos naturais e oportunidades em energia renovável, como o Nordeste, onde a energia eólica avança como um potencial em energia limpa.

“Temos um consulado geral no Rio. A maioria das empresas fica no Rio, mas temos cada vez mais empresas aqui em São Paulo. Isso reflete uma diversificação da atividade das empresas”, afirma.

O desafio da previsibilidade

Apesar do otimismo, o embaixador reconhece que o Brasil ainda impõe desafios para investidores estrangeiros. Juros elevados, volatilidade de preços, tarifas internacionais e complexidade regulatória estão entre os pontos de atenção.

“Acho que há um ditado: o Brasil não é para amadores. Isso é um conhecimento compartilhado também entre as empresas norueguesas no Brasil”, afirma.

Para Elsebutangen, a chave para atrair e manter investimentos é a previsibilidade.

“As empresas podem se adaptar a vários tipos de regras ou fiscalização se há previsibilidade. Previsibilidade é a chave”, diz.

Mesmo em um ano eleitoral, o embaixador afirma acreditar que a relação econômica entre os dois países deve continuar avançando, independentemente de mudanças políticas.

“Temos certeza de que há um interesse conjunto entre partidos e forças políticas de continuar a cooperação econômica, atrair investimentos e empresas estrangeiras para criar valor aqui no Brasil”, afirma.

No futebol, Brasil e Noruega serão adversários. Nos negócios, porém, o jogo é de longo prazo, e os dois países parecem dispostos a seguir jogando do mesmo lado.

AutorLayane Serrano
FonteExame
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