O que explica a ascensão de James Talarico, democrata que lidera midterms no Texas
Fé, voto latino e ataques ao ICE impulsionam seminarista contra Ken Paxton, candidato apoiado por Trump

A última vez que o Texas elegeu um democrata para o Senado americano foi em 1988, um ano antes do nascimento do seminarista presbiteriano James Talarico. Agora, com as eleições desta terça-feira, 3, o jejum de quase quatro décadas pode terminar.
Aos 37 anos, Talarico, que é deputado estadual, desponta nas midterms como a aposta mais concreta do partido para virar a cadeira e se tornou uma das histórias mais acompanhadas da disputa. As pesquisas finais o colocam à frente do republicano Ken Paxton, procurador-geral do estado e aliado de Donald Trump.
Em um levantamento do The New York Times com a Universidade Siena, que mostrou democratas na frente em seis dos sete estados que vão decidir o Senado, a vantagem de Talarico é de sete pontos, 50% a 43%.
Dez meses atrás, porém, o candidato ainda era considerado um azarão dentro do próprio partido. Numa pesquisa da Universidade de Houston no fim de janeiro, Talarico aparecia atrás da deputada federal Jasmine Crockett na disputa interna democrata.
Num eventual confronto com Paxton, ficava dois pontos atrás. Porém, em outubro o mesmo instituto o apontou à frente do republicano, por 48% a 46% - uma arrancada que colocou o Texas, então, entre as prioridades dos democratas no país.
A ascensão se explica pela combinação de três frentes pouco usuais entre democratas texanos. Talarico fala abertamente de fé, corteja o eleitorado latino e critica com dureza a atuação do ICE, a agência federal de imigração.
Do quarto de hotel à sala de aula
James Dell Causey nasceu em Round Rock, cidade vizinha a Austin. Sua mãe, Tamara, deixou seu pai biológico, descrito por ela como alcoólatra e violento, e anos depois se casou com Mark Talarico. Foi ele quem adotou o menino e lhe deu o sobrenome.
A política entrou em sua vida pela sala de aula. Em 2011, aos 22 anos e recém-formado na Universidade do Texas, James Talarico se tornou professor de inglês do sexto ano numa escola de maioria hispânica e de baixa renda em San Antonio, pelo programa Teach for America.
Do magistério veio a principal bandeira que ele levou à Câmara estadual, onde chegou em 2018 por um distrito que Trump havia vencido dois anos antes.
Na Comissão de Educação Pública, ajudou a liderar a oposição aos vouchers escolares, programa do governador republicano Greg Abbott sancionado em 2025, que repassa até US$ 10 mil por ano a famílias para pagar escolas particulares.
Candidato ao Senado, o deputado trouxe experiência docente de novo ao centro: entre suas promessas de campanha estão barrar o modelo, criar pré-escola universal para crianças de 3 e 4 anos e ampliar a merenda federal.
Em paralelo à vida parlamentar, cursou o seminário presbiteriano de Austin, onde concluiu um mestrado em teologia em 2025.
Diz que um dia quer ser pastor, o que o diferencia num partido que costuma tratar a religião com distância.
Em março deste ano, impulsionado pela dupla credencial de professor e seminarista, derrotou Crockett nas primárias.
A Bíblia como escudo
Dois terços dos adultos texanos se identificam como cristãos, segundo o Pew Research Center. A fatia já foi maior, de 84% em 2007, mas a religião segue como um terreno historicamente republicano, que Talarico resolveu disputar.
Em vez de ceder o tema à direita, ele responde com argumentos religiosos. Critica o nacionalismo cristão, se opõe à exibição obrigatória dos Dez Mandamentos nas escolas públicas e sustenta que o preceito de amar o próximo exige apoio à saúde, à educação e aos mais vulneráveis.
A ousadia, no entanto, tem custo. Adversários eventualmente exploram uma frase de 2021, quando, ao discutir um projeto sobre atletas trans, o candidato afirmou que Deus é “não binário”. Atualmente, Talarico diz manter o argumento teológico, mas admite que foi provocativo.
Seu discurso também tem alcance limitado entre os evangélicos brancos, principal base conservadora do estado. Nesse grupo, Paxton tem 52 pontos de vantagem, segundo pesquisa da Fox News feita em outubro.
O voto latino e a sombra do ICE
O voto latino no Texas, tradicionalmente democrata, rachou em 2024. Trump ficou com cerca de metade desse eleitorado, e algumas pesquisas de boca de urna chegaram a lhe dar 55%.
Naquele ano, venceu em quase todos os condados da fronteira e conquistou Cameron e Hidalgo, de maioria hispânica, pela primeira vez em décadas.
Dois anos depois, o quadro é outro. No levantamento de outubro da Universidade de Houston, Talarico tem 52% entre os latinos com probabilidade de votar, contra 41% de Paxton.
Parte desse eleitorado ainda repensa a escolha de 2024. Em pesquisa do YouGov para a rede N+ Univision, feita entre agosto e setembro, um terço dos latinos que votaram em Trump disse ter dúvidas ou se arrepender do voto.
O custo de vida explica parte da guinada, e a outra vem da ofensiva contra imigrantes. Nacionalmente, 67% dos eleitores latinos desaprovam o governo Trump, de acordo com pesquisa divulgada pela CBS News - o que em parte está relacionado ao fato de agentes do ICE estarem "prendendo imigrantes que cumprem a lei".
Talarico entrou nesse debate com cautela, sem se alinhar à ala mais à esquerda da própria legenda. Afirma que não defende a extinção do ICE e que o governo de Joe Biden “falhou” na fronteira, mas compara a atuação da agência sob Trump à de uma “polícia secreta”.
Sua plataforma de campanha inclui ampliar os recursos do ICE para segurança pública, proibir que agentes usem máscaras e criar um caminho de legalização para parte dos imigrantes sem documentos.
Em julho, uma abordagem do ICE em Houston, a maior cidade do Texas, terminou em morte. No dia 7, um agente matou a tiros o mexicano Lorenzo Salgado Araújo, de 52 anos, quando ele levava sua equipe para uma obra.
O ICE afirma que ele tentou atropelar um agente, e a família contesta a versão. Talarico saiu em defesa da vítima, a quem chamou de “filho de Deus”.
O adversário ideal
Do outro lado está um republicano desgastado por um histórico de escândalos. Em 2023, a própria Câmara do Texas, controlada pelo partido, aprovou o impeachment de Ken Paxton por 20 acusações, entre elas suborno e abuso de poder, mas o Senado estadual o absolveu.
No ano seguinte, ele encerrou um processo por fraude com valores mobiliários por meio de um acordo que previa serviço comunitário e restituição. A vida pessoal, com um divórcio e a suspeita de um caso extraconjugal, também causou ruído na campanha.
Nada disso, porém, o impediu de tirar o senador John Cornyn do páreo nas primárias, com o apoio de Trump. O presidente foi ao Texas pedir votos para o aliado e apelidou o rival democrata de “Talafreako”. A reta final ainda teve desinformação:
Influenciadores de direita espalharam o boato falso de que Talarico havia sido internado numa clínica psiquiátrica em Ohio, quando ele estava apenas gripado.
Os republicanos contam também com grandes doadores. Elon Musk, que transferiu para o Texas as sedes da Tesla e da SpaceX, doou US$ 158 milhões entre julho e setembro ao Senate Leadership Fund, principal comitê de apoio aos candidatos do partido ao Senado em todo o país.
Ao todo, anunciantes republicanos já investiram mais de US$ 368 milhões no estado, segundo a consultoria AdImpact, citada pelo The New York Times.
Talarico, por sua vez, bateu recorde de arrecadação no terceiro trimestre, com US$ 64 milhões, conforme números divulgados pelo próprio candidato, contra US$ 18 milhões de Paxton.
O fantasma de 2018
Os democratas, contudo, já viram esse filme. Em 2018, Beto O'Rourke mobilizou o país e bateu recordes de arrecadação contra Ted Cruz, mas perdeu por 2,6 pontos.
Para o historiador texano Bill Minutaglio, ouvido pelo The Guardian, James Talarico estudou os erros do antecessor e evitou parecer um candidato moldado na Califórnia ou em Nova York: "Ele está jogando xadrez em cinco dimensões no Texas", afirmou.
A prudência ainda se impõe num estado que Trump venceu por 14 pontos há dois anos. Uma vitória de Talarico mudaria o mapa do Senado. Uma derrota confirmaria que, no Texas, nem números favoráveis bastam aos democratas.
