O que explica o bitcoin subir US$ 15 mil por unidade em 3 dias?
Valorização da maior das criptomoedas vem após dois meses de lateralização e gera expectativa pelo que ocorrerá até o fim do ano

O bitcoin passou dois meses lateralizado entre os US$ 59 mil e os US$ 67 mil antes de disparar mais de 20% ao longo de três dias e sair dos US$ 64 mil para os US$ 79 mil. Foi um ganho de US$ 15 mil por unidade da criptomoeda em um período mais curto do que uma semana.
Mas o que levou a uma valorização tão forte e em tão pouco tempo?
Em relatório, a equipe de análise da consultoria Vault Capital destaca que a análise dos dados públicos em blockchain permite ver o preço pelo qual cada bitcoin foi comprado.
Com isso, é possível perceber que há uma grande quantidade de bitcoin comprado há menos de cinco meses por valores entre US$ 60 mil e US$ 65 mil, ao passo que há um vácuo até o próximo patamar pelo qual muitos BTCs foram adquiridos: o de US$ 80 mil a US$ 85 mil.
Isso fez com que a criptomoeda registrasse seus menores volumes de negociação em toda a série de 364 dias. “O motivo aparece no mapa de preços. Naquele momento, 2,4 milhões de bitcoins estavam a menos de dois por cento do preço pelo qual haviam sido comprados. Praticamente ninguém tinha lucro relevante para realizar, e ninguém tinha prejuízo grande o bastante para desistir. Sem motivo para vender, ninguém vendeu”, afirma a Vault.
Gráfico da quantidade de bitcoins comprados a cada preço
Com pouca oferta de bitcoins no mercado, um gatilho de notícias suficientemente forte poderia causar uma explosão nos preços. E foi o que aconteceu.
O aumento nas compras de títulos dos EUA
O governo dos Estados Unidos anunciou nesta semana que vai ampliar as compras de títulos do Tesouro do país de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação. Isso significa que o Estado da maior economia do mundo vai colocar dinheiro no balanço dos bancos que estão com esses títulos e as instituições financeiras poderão usar esse dinheiro para expandir a base monetária ao conceder empréstimos.
A medida foi tomada para reduzir o rendimento desses títulos de longo prazo, derrubando a curva de juros para que o próprio governo possa reduzir o quanto paga em juros. “O Tesouro dos EUA está emitindo treasuries de curto prazo e comprando esses títulos de longo prazo, fazendo com que os juros de longo prazo diminuam, o que facilita as condições de pagamento”, resume Valter Rebelo, especialista de criptoativos da Empiricus.
Ao mesmo tempo, o presidente dos EUA, Donald Trump, reuniu-se com os presidentes das principais empresas de criptoativos do país e saiu da reunião com declarações para defender o setor.
Esta soma de notícias, aliada a uma proposta de regulação de criptoativos pela Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês), foi o gatilho que o mercado precisava para se destravar.
Quem está comprando e quem está vendendo?
De acordo com a Vault, a oferta de bitcoins comprados há seis meses ou mais aumentou apenas 8,9%, quando a mediana do ano é de 11%. “Em uma alta de dois dígitos, os investidores antigos venderam menos que num dia qualquer”, resume a consultoria.
Assim, fica claro que o comprador recente chegou, mas o antigo continuou parado pelo menos até o dia 20. “A alta de agosto tem assinatura de escassez de oferta, não de distribuição. A sequência foi de rede parada, seguida de rompimento em volume comum, com os investidores antigos ausentes e os recentes absorvendo”, aponta a Vault.
O próximo teste, de acordo com a consultoria, é a região dos US$ 75 mil a US$ 80 mil, onde há 448.625 bitcoins ainda no prejuízo.
Debasement trade
Rebelo destaca que a alta do bitcoin veio junto com a do ouro, o que pode revelar um fortalecimento do chamado “debasement trade”. Essa operação se baseia na tese de que a inflação vai continuar aumentando no mundo inteiro, com grande desvalorização das moedas tradicionais, como o dólar.
Consequentemente, os investidores adeptos do “debasement trade” compram ativos cuja oferta é limitada, a exemplo de metais preciosos e do bitcoin, que por programação nunca terá mais de 21 milhões de unidades emitidas.
Liquidação de vendidos
O crescimento desta operação encontrou uma série de posições vendidas de investidores que apostavam em uma queda do bitcoin. Esses investidores foram liquidados em prejuízo por causa da disparada da criptomoeda e precisaram recomprar bitcoins para fechar vendas a descoberto ou posicionamentos em derivativos, algo conhecido como “short squeeze”.
Gráfico da disparada do bitcoin desde as mínimas da semana
Vinicius Bitelo, analista do BTG Pactual, lembra que US$ 953 milhões foram liquidados nas últimas 24 horas e US$ 4,3 bilhões desde que a disparada começou. “Os traders seguem tentando encontrar um novo topo local para o bitcoin, mas continuam sendo liquidados no processo”, aponta Bitelo.
Enquanto isso, o especialista da Empiricus aponta que o bitcoin rompeu três resistências seguidas. “Foi um movimento bem intenso e que mostra o quanto havia de posições apostando contra o bitcoin no mercado”, diz Rebelo. “Até o final do ano, esse tipo de movimento costuma definir mudanças de regime e é algo que persiste.”
Daqui para frente, Rebelo diz que a visão é construtiva e que o bitcoin deve subir ainda mais conforme a regulação nos EUA avançar apesar dos percalços até agora.
Já Matheus Parizotto, analista de criptoativos do BTG Pactual, alerta que a volatilidade tende a continuar elevada no curtíssimo prazo, sendo que a direção do movimento ainda vai depender do saldo entre compras e vendas de criptomoedas por fundos negociados em bolsa (ETFs) e empresas de capital aberto compradoras de ativos digitais (DATs).
"Vale o otimismo, mas sem euforia, com foco em horizontes de semanas e meses, não em dias", diz Parizotto.
