O que o Brasil precisa fazer para transformar seu potencial mineral
EXPOSIBRAM 2026 reuniu empresas, governos e especialistas para discutir como pesquisa, inovação e confiança podem ampliar a participação do país nas novas cadeias globais

O setor mineral brasileiro faturou R$ 150,7 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 8,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Foram exportadas 196,2 milhões de toneladas de produtos minerais, que movimentaram US$ 25,1 bilhões. O saldo de US$ 20,3 bilhões representou 48% do saldo da balança comercial brasileira no período.
Os números dão uma dimensão do peso da mineração na economia, mas contam apenas parte da história. Com o aumento da demanda por insumos ligados à transição energética, à inteligência artificial, à economia digital e à defesa, o desafio é transformar a diversidade mineral brasileira em maior participação nas cadeias globais.
Nesse novo tabuleiro, as reservas minerais deixam de ser apenas uma vantagem econômica e passam a ocupar um lugar estratégico.
“Até um tempo atrás, quando pensávamos em soberania, falávamos muito de território. Hoje em dia, estamos falando de tecnologia, de indústria, de energia e de defesa”, afirmou Ana Sanches, presidente da Anglo American no Brasil e do Conselho Diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).
Para o Brasil, que reúne amplo potencial mineral e energético, a questão passa a ser quanto desse patrimônio conseguirá se converter em investimentos, produção e cadeias de maior valor agregado. A resposta depende, entre outros fatores, da capacidade de oferecer horizonte a projetos que levam anos para amadurecer.
“Não basta termos essa oportunidade; precisamos transformá-la em projeto, fazê-la chegar à realidade. Nesse momento de tanta disputa geopolítica, é preciso conferir maior previsibilidade aos investimentos de longo prazo para podermos garantir essa transformação”, disse Sanches.
Ana Sanches, presidente da Anglo American no Brasil e do Conselho Diretor do IBRAM: “Não basta termos essa oportunidade; precisamos transformá-la em projeto, fazê-la chegar à realidade.” (EXPOSIBRAM/Divulgação)
Esse foi um dos principais debates do Congresso Brasileiro de Mineração (EXPOSIBRAM), promovido pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) entre 24 e 27 de agosto de 2026, no Expominas, em Belo Horizonte.
Ao longo de quatro dias, executivos, representantes de governos, pesquisadores e especialistas discutiram os entraves e as oportunidades de um setor pressionado a ampliar a oferta, agregar valor à produção e fortalecer sua relação com os territórios.
Para Pablo Cesário, diretor-presidente do IBRAM, a EXPOSIBRAM aproxima os diferentes atores necessários ao avanço da mineração brasileira. “O evento reflete a força e a relevância da mineração brasileira, promovendo o encontro entre conhecimento, tecnologia, investimentos e oportunidades de negócios para impulsionar o desenvolvimento responsável do setor”, afirma. Cesário foi o palestrante principal na abertura das atividades da manhã de 26 de agosto.
A escolha de Minas Gerais não foi ao acaso. O estado respondeu por 38,2% do faturamento mineral brasileiro no primeiro semestre, seguido por Pará, com 34,6%, e Bahia, com 5%.
A distância entre a reserva e a produção
No Brasil, a distância entre potencial geológico e produção ajuda a dimensionar o desafio. Na abertura do segundo dia do evento, Gustavo Pimenta, presidente da Vale, resumiu uma das contradições brasileiras: o país reúne reservas importantes, experiência produtiva e relações comerciais com diferentes mercados, mas perdeu espaço na mineração mundial. “Temos a tabela periódica em nosso território”, afirmou.
Segundo os dados apresentados pelo executivo, o Brasil caiu da quarta posição mundial em valor da produção mineral, em 2014, para a sétima, em 2023.
A diferença fica evidente no minério de ferro, responsável por 47,2% do faturamento do setor no primeiro semestre de 2026, com R$ 71,2 bilhões. Embora continue como o principal produto mineral do país, seu faturamento recuou 3,1% no período.
No cenário internacional, enquanto Brasil e Austrália produziam volumes próximos em 2010, a produção australiana chegou a cerca de 1 bilhão de toneladas, ante aproximadamente 400 milhões de toneladas brasileiras.
Para Pimenta, ampliar a oferta passa primeiro por conhecer melhor o próprio território. Apenas 28% do Brasil está mapeado em escala considerada adequada, enquanto países como Austrália e Chile superam 70%.
“Nosso desafio é colocar esses minerais no mercado para atender à demanda crescente”, afirmou Pimenta.
Um estudo apresentado pela Vale durante o evento reuniu quatro agendas para enfrentar essa distância: desenvolvimento de projetos e licenciamento, integração das cadeias produtivas, segurança institucional e geração de valor compartilhado nos territórios. A análise também propõe 15 iniciativas relacionadas a esses eixos.
Gustavo Pimenta, presidente da Vale: “Nosso desafio é colocar esses minerais no mercado para atender à demanda crescente.” (EXPOSIBRAM/Divulgação)
Entre os entraves está o tempo necessário para colocar uma mina em operação. Um projeto pode levar cerca de 15 anos entre o início da exploração e o começo da produção. Em um mercado no qual diferentes países disputam investimentos e segurança de abastecimento, o prazo reduz a capacidade brasileira de responder ao crescimento da demanda.
Pimenta defendeu uma agenda que combina conhecimento geológico, licenciamento, infraestrutura e estabilidade regulatória. A discussão alcança ainda quanto do beneficiamento e do processamento dos recursos brasileiros pode permanecer no país. A previsibilidade das regras ganha relevância em uma indústria na qual o capital permanece imobilizado por décadas:
“Quando colocamos R$ 1 para trabalhar em uma mina, esse investimento permanecerá lá pelos próximos 40 anos”, disse o presidente da Vale.
Minerais críticos entram na estratégia dos países
A disputa pelos minerais críticos mostrou que a mineração deixou de ser apenas uma questão de oferta de commodities. Esses recursos passaram a ocupar espaço nas políticas industriais, tecnológicas e de segurança nacional de diferentes países.
Durante a EXPOSIBRAM, representantes da França, do Canadá, dos Estados Unidos e da Austrália apresentaram estratégias para reduzir a concentração das cadeias, ampliar o processamento e construir novas parcerias internacionais.
“A elevada dependência de fontes estrangeiras para o acesso a minerais críticos processados foi reconhecida como uma questão concreta de segurança nacional”, afirmou Matthew Lowe, conselheiro econômico da Embaixada dos Estados Unidos.
A França já destinou aproximadamente 7 bilhões de euros a cerca de 20 projetos, principalmente nas áreas de refino e reciclagem. A Austrália também busca reduzir a exportação de recursos com baixo nível de processamento, enquanto o Canadá procura associar novos projetos à participação das comunidades e dos povos indígenas, com geração de empregos, compras locais e compartilhamento de receitas.
Para o Brasil, o debate envolve a escolha de limitar-se à extração ou avançar em etapas como refino, processamento, pesquisa e desenvolvimento tecnológico. A Política Nacional para Minerais Críticos e Estratégicos está entre os instrumentos que podem orientar esse avanço.
“Os minerais críticos não são apenas commodities. São ativos estratégicos que sustentam as necessidades futuras das economias”, avaliou Sophie Davies, embaixadora da Austrália no Brasil. Segundo ela, esses recursos estão relacionados a tecnologias avançadas, defesa, segurança econômica e à transição para uma matriz energética mais limpa.
Agregar valor, porém, exige infraestrutura, energia, financiamento e regras previsíveis. Também depende de ampliar a própria oferta mineral. Como resumiu Pimenta, “sem minério, não há refino.”
Tecnologia precisa chegar à operação
Outro eixo da EXPOSIBRAM foi a capacidade de transformar pesquisa e tecnologia em resultados concretos. Inteligência artificial, automação e digitalização já permitem simular processos, reduzir o tempo de testes e antecipar ganhos de produtividade, custos e emissões.
Um dos exemplos apresentados foi o projeto de gêmeos digitais da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), desenvolvido em parceria com uma universidade do País Basco. A ferramenta reproduz virtualmente processos siderúrgicos e permite testar diferentes cenários antes da etapa industrial.
Segundo Ricardo Fonseca, CEO da CBMM, procedimentos que poderiam levar até um ano passaram a ser realizados em poucos dias.
Ricardo Fonseca, CEO da CBMM: gêmeos digitais reduzem de um ano para dias o tempo de processos (EXPOSIBRAM/Divulgação)
O avanço dessas soluções também muda o perfil dos profissionais e cobra das lideranças capacidade de integrar inovação, segurança e desempenho operacional. Para os participantes do debate, investir em tecnologia sem preparar as equipes limita os resultados.
A articulação entre empresas, universidades, centros de pesquisa e governo foi apontada como outro caminho para dividir os riscos de projetos tecnológicos. “O desenvolvimento tecnológico e a inovação envolvem riscos, e seu compartilhamento é fundamental para viabilizar projetos dessa natureza”, disse Elias Ramos, diretor de Inovação da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
No campo das políticas públicas, a Lei do Bem foi citada como um dos instrumentos de estímulo à pesquisa. De acordo com os dados apresentados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o mecanismo viabilizou R$ 51,6 bilhões em investimentos privados em pesquisa e desenvolvimento, diante de R$ 12 bilhões em renúncia fiscal.
Confiança também entra na conta
A expansão do setor não depende apenas de recursos minerais, capital e tecnologia. Na conversa entre Paul Polman, ex-CEO da Unilever, e Ruben Fernandes, diretor de Operações Globais da Anglo American, confiança, transparência e responsabilidade apareceram como condições para empresas que pretendem manter seus negócios no longo prazo.
O debate abordou desde a prevenção de acidentes até a relação com comunidades e a capacidade de reconhecer falhas. “Você não pode construir confiança se não há transparência”, destacou Polman.
Para os participantes, ambientes nos quais os profissionais conseguem comunicar riscos e pedir ajuda contribuem para decisões mais seguras.
A mesma lógica vale para os territórios. Durante o evento, os participantes defenderam que impostos, empregos e investimentos sejam acompanhados por diálogo, diversificação econômica e construção de oportunidades capazes de permanecer além da vida útil das minas.
Os debates da EXPOSIBRAM mostraram que o Brasil parte de uma posição relevante, mas não garantida. Transformar reservas em desenvolvimento exigirá conhecimento geológico, previsibilidade para os projetos, maior capacidade de processamento, inovação e, principalmente, relações mais transparentes com a sociedade.
