O que sabemos do novo acordo nuclear entre os EUA e a Arábia Saudita?

O governo dos EUA chegou nesta semana a um acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita. A iniciativa permitirá que o reino avance em seu programa nuclear e, no futuro, possa enriquecer combustível para abastecer reatores, segundo autoridades americanas.
Trump, no entanto, disse na quinta-feira, 23, que o acordo só entrará em vigor se os sauditas reconhecerem Israel e entrarem no tratado chamado de Acordos de Abraão.
O entendimento atualbusca fortalecer a parceria entre Washington e Riad em meio às tensões decorrentes da guerra contra o Irã. A Casa Branca também aposta que o acordo movimentará bilhões de dólares para a indústria nuclear dos Estados Unidos, com destaque para a fabricante Westinghouse.
Apesar do apoio esperado dos republicanos, parlamentares de ambos os partidos e autoridades israelenses demonstram preocupação com a possibilidade de a Arábia Saudita utilizar um programa nuclear civil como base para desenvolver armas nucleares no futuro.
Segundo o New York Times, o acordo "reflete um mundo volátil no qual os aliados dos Estados Unidos buscam capacidades nucleares para se proteger contra vizinhos predatórios, interrupções prejudiciais no fornecimento de energia e a redução do "guarda-chuva" de segurança americano. Reflete também uma Casa Branca ávida por negócios lucrativos para empresas americanas, disposta a flexibilizar normas de não-proliferação em favor de um parceiro privilegiado em uma região perigosa."
Medos e concessões
Novo acordo entre os EUA e a Arábia Saudita suscita medos pelo futuro nuclear do mundo e pela estabilidade bélica do Oriente Médio. (Ralph Lee Hopkins/Getty Images)
Segundo autoridades americanas ouvidas pelo Times, o acordo permitirá que sauditas e americanos realizem estudos conjuntos sobre a produção de combustível nuclear. Dependendo dos resultados, Riad poderá enriquecer urânio ou reprocessar plutônio em seu próprio território.
Isso gera temores quanto à possibilidade de Riad se aproveitar dos termos do acordo para, eventualmente, desenvolver armas nucleares. Além disso, os termos do entendimento limitam os locais do país que podem ser verificados por inspetores internacionais.
Essas concessões representam mudanças significativas em relação a acordos semelhantes anteriores dos Estados Unidos. Por exemplo, no tratado firmado com os Emirados Árabes Unidos, considerado o "padrão-ouro" da não proliferação, Abu Dhabi abriu mão do direito de produzir seu próprio combustível nuclear e aceitou inspeções internacionais mais rigorosas.
As negociações se arrastam há anos, e já foram muito diferentes. Durante o governo de Joe Biden, predecessor de Trump, a cooperação nuclear fazia parte de um pacote mais amplo que previa a normalização das relações diplomáticas entre Arábia Saudita e Israel com base nos Acordos de Abraão, proposta que perdeu força após os ataques do Hamas em outubro de 2023.
Por sua vez, Trump decidiu desvincular os dois temas, priorizando exclusivamente a cooperação nuclear. A mudança facilitou o avanço das negociações com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, líder do reino. Depois da assinatura, no entanto, Trump mudou de ideia e condicionou o novo tratado ao reconhecimento de Israel por parte dos sauditas.
Todavia, a preocupação é ampliada pelas declarações anteriores de Salman, que já afirmou que a Arábia Saudita desenvolverá armas nucleares caso o Irã consiga produzi-las.
Mesmo assim, especialistas acreditam que, pelo menos no momento, o risco do surgimento de novas potências nucleares é baixo, segundo o Times. O verdadeiro risco é a redução de regras e o aumento de liberdades no âmbito nuclear: a avaliação é de que as concessões feitas à Arábia Saudita poderão incentivar outros países a exigir condições semelhantes em acordos nucleares, enquanto Rússia e China podem aproveitar o precedente para oferecer parcerias menos restritivas e ampliar sua influência no setor.
Isso, por sua vez, gera riscos de uma nova corrida armamentista nuclear.
Sigilo e preocupações
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o príncipe Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, durante um evento em Riad. (Brendan Smialowski/AFP)
O novo entendimento também inclui duas cartas paralelas classificadas como sigilosas. A administração Trump argumenta que os documentos tratam de informações comerciais e de segurança nacional, mas parlamentares defendem sua divulgação antes da votação no Congresso.
O contexto regional também pesa nas negociações. Após a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã em 2018, Teerã ampliou seu programa de enriquecimento de urânio, enquanto Washington e Israel lançaram ataques contra instalações nucleares iranianas durante o conflito iniciado neste ano.
O entendimento também busca reconstruir a relação entre Washington e Riad após divergências durante a guerra. Em maio, a Arábia Saudita recusou-se a autorizar o uso de seu espaço aéreo por forças americanas em operações ligadas ao Estreito de Ormuz, evidenciando o desgaste entre os dois aliados.
Além da cooperação nuclear, Trump e Mohammed bin Salman discutem uma parceria de defesa que poderá incluir a venda de caças F-35 ao reino. No entanto, o plano não prevê um tratado formal de defesa mútua, como os sauditas desejavam durante as negociações conduzidas pelo governo Biden.
Enquanto reforça os laços com os Estados Unidos, a Arábia Saudita também busca preservar os canais de diálogo com o Irã. Os dois países restabeleceram relações diplomáticas em 2023, em um acordo mediado pela China, e mantêm contatos para reduzir os riscos de uma escalada militar no Golfo Pérsico.
