O que sustenta os preços do boi mesmo com a China longe das compras?
Mesmo com o esgotamento das cotas de carne bovina para a China, os preços do boi gordo seguem sustentados, em R$ 347,50, com base no indicador Cepea/Esalq. Mas o que explica esses patamares mais firmes? Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras Mercado, os valores mais altos podem ser explicados pela redução dos abates. “Essa […]

Mesmo com o esgotamento das cotas de carne bovina para a China, os preços do boi gordo seguem sustentados, em R$ 347,50, com base no indicador Cepea/Esalq. Mas o que explica esses patamares mais firmes?
Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, os valores mais altos podem ser explicados pela redução dos abates.
“Essa é a principal justificativa. Basicamente, tivemos uma preparação por parte dos confinadores de que a cota se esgotaria nesse terceiro trimestre. Com isso, tanto a indústria como o confinamento fizeram preparativos. Do ponto de vista do confinamento, a redução de oferta é bastante palpável”, afirma.
A consultoria explica que houve uma queda significativa nos abates de julho, que recuaram 21,57% na comparação com o mesmo mês do ano anterior. A menor disponibilidade de gado para o abate, somada à maior ociosidade da indústria, explica os patamares mais elevados para a arroba.
A leitura é semelhante à de Hyberville Neto, diretor da HN Agro, que avalia que a pressão de baixa observada desde julho foi maior do que a oferta efetivamente disponível de animais. Na visão do especialista, os frigoríficos utilizaram o fim da cota chinesa como argumento para pressionar as cotações, mas foram reduzindo suas escalas ao longo das últimas semanas diante de uma oferta que não acompanhou essa pressão.
“Os frigoríficos pressionaram, mas eles pressionaram sem uma oferta condizente”, afirma Hyberville. Segundo ele, o mercado chegou a ceder, mas “às custas de encurtamento de escalas”, já que não havia uma oferta confortável para a indústria. Com isso, os frigoríficos passaram a precisar pagar mais pelo gado nas últimas semanas para recompor os abates.
China ainda pesa, mas pode voltar a sustentar o mercado
Além da oferta mais enxuta, a China continua sendo um dos principais fatores para entender o comportamento do boi gordo. As exportações brasileiras para o país apresentaram o pior resultado do ano em julho de 2026, somando 82,7 mil toneladas, queda de 48% na comparação com julho de 2025.
No mês, o ritmo diário de embarques ficou em 9,9 mil toneladas por dia, também em um dos menores níveis dos últimos meses.
Agora, parte do produto exportado pelo Brasil ao longo do ano tende a ser sobretaxada pela China, considerando que a cota brasileira excedeu mais de 80 mil toneladas.
“As exportações para China na primeira quinzena de julho estavam muito fortes, com alguns frigoríficos optando por correrem risco de serem sobretaxados. Entretanto, temos um ambiente de embarques que está desacelerando bem. Em agosto isso deve ficar ainda mais evidente. Eles ainda vão comprar do Brasil, mas longe das quantidades que nos acostumamos ver”, afirma Iglesias.
Para Hyberville, porém, o efeito da China sobre o mercado não deve ser unidirecional. Na avaliação dele, a questão da cota tende a pressionar o mercado no curto prazo, mas pode produzir o efeito contrário mais adiante.
Isso porque, com a reabertura das cotas, a expectativa é de uma corrida dos frigoríficos para recompor os embarques ao mercado chinês, com impacto principalmente sobre o gado abatido a partir de outubro.
“Num primeiro momento ela vai impactar negativamente com essa saída de gado voltado à China, e depois vai impactar no sentido oposto, porque vai ter uma corrida para enviar carne para a China na hora que essas cotas reabrirem”, explica.
Oferta deve aumentar no fim do ano
A perspectiva de Hyberville também traz um contraponto importante para o mercado. Embora a oferta esteja mais enxuta atualmente, a expectativa é de crescimento da disponibilidade de gado na reta final do ano, principalmente por conta da sazonalidade do confinamento.
Segundo ele, muitos pecuaristas ficaram receosos de programar animais para abate no meio do ano diante das incertezas envolvendo a cota chinesa. Esse comportamento ajudou a manter a oferta atual mais restrita.
Agora, porém, a combinação de preços futuros mais atrativos e milho mais barato melhora a conta do confinamento e pode estimular a entrada de mais animais no cocho nos próximos meses.
“Isso se soma ao milho barato e faz com que o cenário fique mais interessante e deve ajudar num aumento de volume da oferta de animais confinados nos próximos meses junto com a sazonalidade”, afirma.
Ainda assim, Hyberville não espera uma disparada no confinamento. Na visão da HN Agro, o volume confinado até o momento está abaixo do registrado no ano passado, e a reposição continua sendo um gargalo para os produtores, em meio aos juros elevados e ao custo do dinheiro.
A expectativa, portanto, é de uma oferta de confinamento estável ou ligeiramente maior que a de 2025 na reta final do ano.
Demanda pode compensar maior oferta
É justamente nesse ponto que a dinâmica de oferta e demanda pode ficar mais equilibrada.
Embora Hyberville espere mais gado disponível nos últimos meses do ano, ele também projeta uma demanda melhor a partir de outubro, principalmente por conta da retomada dos embarques para a China.
Além disso, o mercado doméstico deve entrar em sua melhor fase sazonal de consumo no fim do ano. Antes disso, os gastos relacionados às eleições também podem dar algum impulso pontual ao consumo, embora o especialista não espere um aumento exuberante do escoamento.
Outro fator positivo vem de outros destinos. Segundo Hyberville, os compradores que não são a China registraram em julho o segundo maior volume de compras da história desse grupo, sinalizando que outros mercados podem ajudar a compensar parte da menor participação chinesa.
Os Estados Unidos também aparecem como um mercado potencialmente mais favorável do que no ano passado. Segundo o diretor da HN Agro, entre agosto e novembro de 2025, a carne bovina brasileira enfrentava uma tarifa de 76,4% para entrar no mercado americano. Neste ano, a tarifa mencionada por ele é de 26,4%.
Com isso, a leitura para a reta final de 2026 é de um mercado em que a oferta deve aumentar, mas a demanda também tende a ganhar força.
Na comparação anual, Hyberville espera preços de boi gordo maiores em relação aos mesmos meses de 2025. A diferença, porém, é que a demanda deverá ser melhor, sobretudo a partir de outubro, com a retomada das exportações para a China.
Assim, a sustentação atual da arroba não depende exclusivamente da demanda chinesa. A menor oferta de gado, o encurtamento das escalas dos frigoríficos e a menor disponibilidade de animais confinados ajudam a explicar a firmeza dos preços no curto prazo.
Mais adiante, a retomada da China, outros mercados externos e o consumo doméstico de fim de ano podem compensar parte do aumento sazonal da oferta.
