O que Trump disse agora sobre as eleições de 2020? Entenda em 5 pontos

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a questionar a integridade das eleições presidenciais de 2020 em um discurso na Casa Branca na quinta-feira, 16. As afirmações ocorrem meses antes das eleições de meio de mandato, em que o republicano tem pressionado pela adoção do SAVE America Act, uma lei de reforma eleitoral no país.
Durante cerca de 25 minutos, ele repetiu alegações de fraude eleitoral, acusou a China de obter dados de eleitores, sugeriu que a Venezuela poderia manipular máquinas de votação e afirmou que centenas de milhares de não-cidadãos estariam registrados para votar.
Ao mesmo tempo em que Trump reforçava suas acusações, aCasa Branca retirou o sigilo de centenas de páginas de documentos de inteligência para sustentar suas declarações.
No entanto, segundo apuração do New York Times e da AFP, o material divulgado não comprova as alegações mais contundentes do presidente. Em alguns casos, os próprios documentos chegam a conclusões opostas às apresentadas por Trump e reafirmam avaliações já divulgadas pelas agências de inteligência americanas após a eleição de 2020.
A seguir, veja os principais pontos do discurso e o que mostram os documentos oficiais.
1. Trump voltou a dizer que a eleição de 2020 foi 'roubada'
Trump repetiu que a eleição presidencial de 2020, vencida por Joe Biden, foi fraudada e que o sistema eleitoral americano permaneceu vulnerável a manipulações.
Ao mesmo tempo, a Casa Branca retirou o sigilo de mais de 270 páginas de documentos de inteligência que, segundo Trump, demonstrariam essas vulnerabilidades.
O que se sabe: mais de 60 ações judiciais apresentadas após a eleição de 2020 não encontraram evidências de fraude capazes de alterar o resultado do pleito. Autoridades eleitorais americanas e integrantes da própria administração Trump também rejeitaram repetidamente essas alegações.
2. Trump afirmou que a China roubou 220 milhões de registros de eleitores
Trump declarou que aChina realizou "o maior ataque hacker a dados eleitorais da história", obtendo ilegalmente cerca de 220 milhões de registros de eleitores americanos. Em seguida, sugeriu que Pequim tentou produzir cédulas ilegais em favor de Joe Biden.
O que mostram os documentos: avaliações divulgadas anteriormente pela comunidade de inteligência americana concluíram que a China realmente obteve registros eleitorais de diversos estados. No entanto, esses cadastros são, em grande parte, informações públicas, frequentemente adquiridas por campanhas políticas e outras organizações.
Os documentos divulgados pela própria Casa Branca também indicam que autoridades chinesas estudaram operações de influência, mas não executaram nenhuma ação para alterar o resultado da eleição. Segundo avaliações oficiais de 2021, não houve indícios de que agentes estrangeiros tenham modificado qualquer aspecto técnico do processo de votação.
3. O presidente sugeriu que a Venezuela poderia manipular eleições americanas
Trump também afirmou que a Venezuela realizou eleições fraudulentas sob Nicolás Maduro e sugeriu que as máquinas de votação utilizadas nos Estados Unidos poderiam sofrer manipulações semelhantes.
A declaração retoma acusações feitas por aliados de Trump em 2020 envolvendo a empresa de tecnologia eleitoral Smartmatic.
O que mostram os documentos: os relatórios divulgados pela Casa Branca afirmam que autoridades venezuelanas desenvolveram interesse e possivelmente alguma capacidade para interferir em sistemas eletrônicos de votação dentro do próprio país. No entanto, os mesmos documentos dizem que não confirmam fraudes eletrônicas em larga escala em eleições venezuelanas.
Além disso, os relatórios afirmam que nem a Smartmatic nem o governo venezuelano tinham capacidade para manipular de forma previsível eleições realizadas fora da Venezuela. Um dos documentos também conclui que sistemas de apuração de votos seriam difíceis de manipular em escala suficiente para comprometer um resultado eleitoral nos Estados Unidos.
4. Trump voltou a falar sobre eleitores sem cidadania americana
O presidente afirmou que centenas de milhares de pessoas sem cidadania americana estariam registradas para votar.
O que se sabe:votar sem cidadania é ilegal nos Estados Unidos. Auditorias eleitorais e investigações independentes apontam que casos desse tipo são considerados raros, além de existirem diversos mecanismos destinados justamente a impedir que não cidadãos participem das eleições.
Entre os documentos divulgados pela Casa Branca há uma referência a mais de 250 mil registros de não cidadãos em quatro estados americanos. No entanto, segundo o New York Times, os documentos não apresentam evidências que comprovem essas alegações, que foram imediatamente contestadas por autoridades estaduais.
5. Trump defendeu mudanças na segurança eleitoral
Durante o discurso, Trump afirmou que pretende trabalhar com estados e autoridades locais para corrigir vulnerabilidades nos sistemas eleitorais antes das eleições legislativas de meio de mandato.
O presidente também voltou a defender aaprovação do projeto chamado SAVE America Act, que prevê medidas como exigência de comprovação documental de cidadania, identificação com foto e restrições ao voto pelo correio.
O contexto: segundo especialistas citados pelo New York Times, os problemas apontados por Trump durante o discurso — como supostas tentativas de influência estrangeira ou possíveis ataques cibernéticos — não têm relação direta com boa parte das medidas previstas no projeto defendido pelo presidente.
