O sentimento anti-IA pode se tornar uma nova fonte de terrorismo?
À medida que a construção de Data Centers e o avanço da IA fluem com velocidade preocupante, incidentes suscitam medo de que a tecnologia se torne uma nova fonte de ataques terroristas

RESUMO +
Dois ataques contra figuras ligadas à inteligência artificial e a data centers foram registrados em abril de 2026 nos Estados Unidos, em meio a temores sobre empregos, impactos ambientais e sistemas avançados. O think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS) vê potencial para terrorismo motivado pela oposição à IA, mas não identificou uma campanha coordenada. Nenhum ataque causou mortes.
A oposição ao rápido avanço da Inteligência Artificial (IA) e à construção de data centers já começa a se manifestar em episódios esporádicos de violência nos Estados Unidos, em meio a preocupações com a perda de empregos, os impactos ambientais das instalações e os riscos associados ao desenvolvimento de sistemas cada vez mais avançados. Embora a resistência à tecnologia permaneça predominantemente pacífica, dois ataques registrados em abril de 2026 indicam que parte dessas insatisfações pode ultrapassar os limites dos protestos.
Em estudo, o think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS) avalia que a oposição à inteligência artificial tem, de fato, o potencial de se tornar uma nova motivação para o terrorismo no país. Os pesquisadores, porém, ressaltam que os casos conhecidos ainda não evidenciam a existência de uma campanha mais ampla ou coordenada de ataques contra o setor.
Segundo os autores, a preocupação central não é simplesmente o crescimento da oposição à IA, mas a possibilidade de que uma parcela desse movimento passe a considerar a violência um instrumento legítimo e necessário para impedir o avanço da tecnologia.
Ataques levantam alerta
Elon Musk, Sam Altman e Dario Amodei: executivos pedem desaceleração e novos padrões de segurança no desenvolvimento de IA, mas ainda são alvo de ataques (Imagem gerada por IA/Exame)
O primeiro dos episódios analisados pelo CSIS ocorreu em 6 de abril, pouco antes da 1h da manhã, quando um autor ainda não identificado disparou 13 vezes contra a porta da residência de Ron Gibson, integrante do conselho municipal de Indianápolis, enquanto o vereador e seu filho de 8 anos dormiam no imóvel. O responsável deixou um bilhete com a mensagem “NO DATA CENTERS” — “sem centros de dados”, em tradução livre.
Cinco dias antes, a Comissão Metropolitana de Desenvolvimento da cidade havia aprovado uma mudança de zoneamento para viabilizar a construção de um centro de dados de US$ 500 milhões no distrito de Gibson. O projeto enfrentava a oposição de moradores preocupados com o consumo de água e de energia e com a poluição, mas contava com o apoio público do vereador. A polícia classificou o disparo como um ataque direcionado, e o FBI participou da investigação. Até o momento, todavia, não há registro de prisão.
Quatro dias depois, em 10 de abril, Daniel Moreno-Gama, de 20 anos, atacou a residência do presidente-executivo da OpenAI, Sam Altman, em São Francisco, com um coquetel molotov, incendiando o portão de entrada. Em seguida, dirigiu-se à sede da empresa, carregando querosene e dispositivos incendiários, vandalizou as portas de vidro com uma cadeira e disse à equipe de segurança que pretendia incendiar o prédio e matar quem estivesse dentro.
Moreno-Gama levava um documento escrito por ele, intitulado Your Last Warning (“Seu último aviso”), no qual defendia o assassinato de presidentes executivos e de investidores de empresas de IA e listava nomes e endereços. O texto também apresentava o próprio ataque como uma demonstração de compromisso com a causa. O acusado se declarou inocente das acusações federais relacionadas a explosivos e das acusações estaduais, que incluem duas tentativas de homicídio.
Para o CSIS, os dois episódios se enquadram em sua definição de terrorismo: violência praticada por atores não estatais, com a intenção de matar e de promover um objetivo político por meio da intimidação ou da coerção de um público mais amplo. Mesmo assim, nenhum dos ataques resultou em mortes, e os pesquisadores não identificaram vínculos entre os responsáveis nem uma organização que coordenasse as ações.
Outras motivações
Ilustração de uma câmera Flock, um dos principais alvos de vandalismo de opositores ao avanço descontrolado da IA (Imagem gerada por IA/Exame)
A resistência a tecnologias associadas à IA também tem se manifestado por meio de atos de vandalismo. De acordo com o estudo, mais de 240 câmeras de reconhecimento de placas da Flock Safety, que utilizam inteligência artificial, haviam sido destruídas nos Estados Unidos até o início de setembro de 2026.
Os autores identificam, ainda, tentativas de apropriação do tema por grupos extremistas; nos estados de Michigan e do Texas, integrantes de organizações supremacistas brancas já associam a oposição à construção de centros de dados a mensagens antissemitas, incluindo faixas e adesivos que combinam críticas à infraestrutura tecnológica com referências dirigidas contra judeus.
Esses episódios demonstram que a resistência à IA pode se misturar a outras formas de extremismo, incluindo o antissemitismo, a oposição ao governo e a rejeição a determinadas práticas de vigilância em massa. Isso não significa, contudo, que esses grupos estejam organizando uma campanha terrorista contra o setor, alerta o estudo.
Para os autores, um dos fatores que podem favorecer a radicalização é a percepção de que os meios pacíficos não são capazes de impedir o avanço da tecnologia. A história mostra que movimentos políticos inicialmente não violentos podem adotar estratégias extremas quando seus integrantes concluem que eleições, protestos e outras formas de participação política não produzem resultados.
Os pesquisadores citam, por exemplo, a luta contra o apartheid na África do Sul. Após a repressão policial ao protesto de Sharpeville, em 1960, e a proibição do Congresso Nacional Africano, integrantes da organização concluíram que a atuação política pacífica havia se tornado inviável. Em 1961, foi criada uma ala armada que passou a realizar ações de sabotagem contra alvos governamentais e de infraestrutura.
A dinâmica de pequenos grupos também pode contribuir para a violência. Segundo o estudo, indivíduos podem recorrer a atos extremos para conquistar o reconhecimento e a aprovação de comunidades radicais, inclusive em ambientes digitais. A ameaça aumentaria caso ataques isolados passassem a inspirar novos episódios, com autores reproduzindo os métodos e os alvos de seus antecessores.
A natureza da inteligência artificial também amplia o conjunto de possíveis motivações. Algumas pessoas podem se opor a aplicações militares da tecnologia; outras, à vigilância por meio de câmeras inteligentes, ao consumo de recursos dos centros de dados ou à possibilidade de substituição de trabalhadores por sistemas automatizados. Há, ainda, quem enxergue o desenvolvimento de modelos avançados como um risco à própria sobrevivência humana.
Essa diversidade pode dificultar a avaliação da ameaça, já que não há necessariamente uma única causa capaz de unificar os diferentes grupos. Para os autores, também é possível que movimentos extremistas já estabelecidos incorporem essas preocupações às suas próprias agendas.
Ainda assim, a história oferece razões para não presumir que a resistência a novas tecnologias resulte inevitavelmente em terrorismo. O CSIS lembra que movimentos como o dos luditas, formado por trabalhadores têxteis ingleses contrários à mecanização no século XIX, recorreram à destruição de máquinas em resposta a preocupações com o emprego e a remuneração. Já as mobilizações antinucleares durante a Guerra Fria permaneceram, em sua maioria, pacíficas, apesar de episódios de destruição de propriedade.
Além disso, partidos políticos e organizações civis têm incorporado preocupações com a inteligência artificial a debates tradicionais sobre empregos, poder corporativo, liberdade de expressão, desinformação e privacidade. A existência desses canais de participação pode reduzir o incentivo à violência ao oferecer alternativas para contestar decisões e pressionar as autoridades.
Olho no futuro
O CSIS conclui que os ataques contra figuras associadas à IAe à construção de data centers demonstram a possibilidade de terrorismo motivado pela oposição à inteligência artificial, mas não comprovam a formação de uma nova onda de violência. Até o momento considerado pelo estudo, não havia evidências de uma organização responsável por dirigir os ataques nem de uma campanha de autores independentes que estivessem se influenciando mutuamente.
A avaliação poderá mudar caso surjam sinais de coordenação, de reprodução de métodos ou de apoio explícito à violência em comunidades extremistas ou em grupos organizados dedicados a ataques. Outro indicador relevante será a disseminação da ideia de que protestos e disputas eleitorais não são suficientes para interromper o desenvolvimento tecnológico.
Os pesquisadores defendem que as autoridades acompanhem esses possíveis sinais sem tratar a oposição pacífica como indício automático de radicalização. Para eles, a resposta deve combinar a proteção de pessoas e instalações vulneráveis com a preservação de canais políticos para que os cidadãos possam expressar suas preocupações.
A questão decisiva para o estudo é, portanto, não quantos americanos temem a inteligência artificial, mas se uma parcela desse público passará a considerar a violência uma alternativa aceitável para enfrentá-la.
