O sistema financeiro híbrido de cripto e finanças tradicionais já está sendo construído

Por Nicolás Alonso*
O debate que por muitos anos colocou o mercado cripto e o sistema financeiro tradicional em lados opostos começa a perder relevância. De um lado, a promessa de descentralização, velocidade e inovação; do outro, a solidez institucional, a tradição regulatória e a escala. Hoje, especialmente na América Latina, o que se observa é um movimento claro, e cada vez mais inevitável, de convergência entre esses dois universos.
Na prática, a infraestrutura baseada em blockchain está deixando de ser uma camada paralela para se tornar um componente invisível dentro das engrenagens das grandes instituições financeiras.
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Esse movimento ganha uma dimensão ainda mais relevante na América Latina. A região reúne características que aceleram naturalmente a adoção de soluções financeiras mais modernas: burocracia elevada, custos operacionais altos, inflação, volatilidade cambial e forte demanda por pagamentos internacionais mais eficientes. O Brasil é um exemplo emblemático ao ocupar a terceira posição no Índice Global de Complexidade de Negócios de 2026, evidenciando o desafio operacional enfrentado por empresas e instituições financeiras.
Alguns sinais claros dessa transformação aparecem no mais recente relatório Panorama das Stabecoins na América Latina, da Bitso: dentre os usuários de ativos digitais, as stablecoins já representam 40% de todas as compras na região, superando o bitcoin. A mesma tendência é observada no mercado corporativo: somente no primeiro semestre deste ano, o Volume Total de Pagamentos (TPV) de stablecoins para o segmento B2B cresceu 81% na empresa.
Utilidade prática
Mais do que uma mudança de preferência, o dado sinaliza uma mudança de comportamento. O mercado latino-americano passa a utilizar ativos digitais menos pela lógica especulativa e mais pela utilidade prática. Stablecoins oferecem previsibilidade, liquidez e eficiência para transações internacionais, funcionando como uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e a nova infraestrutura digital.
Essa transformação ajuda a explicar por que instituições financeiras ao redor do mundo passaram a olhar para blockchain de forma menos experimental e mais estratégica. O interesse crescente de bancos globais, fintechs e plataformas financeiras por soluções ligadas a ativos digitais não representa uma substituição do sistema tradicional, mas uma tentativa de torná-lo mais eficiente, integrado e programável.
Paralelamente, avanços regulatórios começam a abrir novas possibilidades para o sistema financeiro tradicional. No Brasil, por exemplo, a autorização para que diversas instituições operem com câmbio, a partir de novembro de 2025, amplia o leque de serviços que podem ser oferecidos aos clientes. Mas essa expansão também traz um desafio relevante: como acessar um mercado altamente técnico e em constante evolução sem precisar construir toda a operação do zero?
Diante desse cenário, cresce também a demanda por modelos de infraestrutura financeira que permitam às instituições incorporar novas capacidades sem precisar reconstruir toda a operação tecnológica. Soluções baseadas em APIs e infraestrutura blockchain encurtam esse caminho, permitindo a integração de serviços financeiros internacionais e operações com ativos digitais de forma mais rápida, eficiente e aderente às exigências regulatórias.
Construção de um novo modelo financeiro
A convergência entre os dois mundos começa justamente aí. Enquanto empresas nativas na blockchain oferecem velocidade, programabilidade e eficiência operacional, instituições financeiras tradicionais seguem trazendo escala, sistemas legados e experiência regulatória.
O resultado desse movimento é a construção de um novo modelo financeiro, mais híbrido, no qual as fronteiras entre ativos digitais e tradicionais se tornam cada vez menos relevantes. Para o usuário final, essa transformação tende a ser quase imperceptível. O que muda, de fato, é a experiência, oferecendo transações internacionais mais rápidas, custos reduzidos, maior previsibilidade e acesso ampliado a serviços financeiros.
A América Latina, historicamente marcada pela necessidade de soluções financeiras mais ágeis e acessíveis, acaba se consolidando como um dos principais laboratórios dessa transformação global. E, ao que tudo indica, a próxima etapa da evolução financeira não será definida pela substituição dos bancos, mas pela integração entre instituições tradicionais e novas infraestruturas digitais.
*Nicolás Alonso é country manager da Bitso Brasil.
