O Super El Niño deve chegar ainda em setembro — o plantio da soja entra no radar
NOAA, dos EUA, eleva de 93% para 97% a probabilidade de um evento de intensidade muito forte a partir do início da primavera

O plantio da soja no Brasil, que começou em alguns estados nesta semana, entra em uma temporada sob influência do El Niño. Nesta quinta-feira, 10, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou de 93% para 97% a probabilidade de um evento de intensidade muito forte a partir do início da primavera, no fim de setembro.
Segundo a agência, há ainda 93% de chance de que a temperatura do oceano Pacífico permaneça em um patamar muito elevado até janeiro, cenário descrito por cientistas como um 'Super El Niño'.
Para Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, o mercado já começou a reagir ao cenário climático.
“O plantio deve prosseguir normalmente em setembro, mas o risco de redução das chuvas começa a ganhar relevância a partir de outubro. Na Bolsa de Chicago, os preços futuros já refletem esse cenário, com cotações sustentadas acima de US$ 13 por bushel”, diz Cogo.
Segundo o analista, a preocupação está no efeito que o fenômeno pode provocar ao longo de diferentes etapas do calendário agrícola brasileiro, e não apenas nasafra de verão. O Brasil tem uma característica particular de produção, com regiões capazes de colher duas e, em alguns casos, até três safras na mesma área.
A NOAA também aponta que o fenômeno deve continuar se intensificando até o fim do ano. Para o trimestre entre outubro e dezembro de 2026, a agência estima 75% de probabilidade de um evento histórico, com intensidade superior aos episódios anteriores de El Niño registrados desde 1950.
Embora o excesso de chuvas seja menos associado ao El Niño em boa parte do Brasil, ele também pode trazer riscos para a safra. No Sul, onde o fenômeno costuma favorecer precipitações acima da média, o excesso de umidade pode atrasar o plantio, dificultar a emergência das plantas e aumentar a incidência de doenças.
O El Niño começou a se formar em julho e deve avançar nos próximos meses, segundo Cogo. O principal ponto de atenção, afirma o analista, não é apenas a intensidade do fenômeno, mas a forma desigual como ele costuma alterar o regime de chuvas no país.
No Matopiba — região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — e no Norte, o principal risco é de redução das precipitações. O norte de Mato Grosso também pode ser afetado, enquanto Centro-Oeste e Sudeste tendem a enfrentar uma diminuição mais moderada das chuvas.
No Sul, o cenário tende a ser diferente, com possibilidade de chuvas acima da média. O excesso de água, porém, também pode trazer perdas, especialmente para culturas como o arroz.
“É desigual porque, quando prejudica uma área, acaba ajudando outra. O Brasil tem essa característica e, por isso, a perda total não costuma ser tão grande”, afirma Cogo.
A própria NOAA ressalta que um El Niño mais intenso aumenta a probabilidade dos efeitos normalmente associados ao fenômeno, mas não significa que todos eles necessariamente irão ocorrer.
A intensidade do aquecimento do Pacífico, portanto, não pode ser traduzida automaticamente em uma quebra de safra. O impacto final dependerá de como o fenômeno vai se comportar e de sua influência sobre as diferentes regiões produtoras do Brasil.
El Niño na soja
É na soja que a distribuição das chuvas ganha peso. O Centro-Oeste concentra 47% da área plantada no país, seguido pelo Sul, com 27%, e pelo Matopiba, com 14%. Pelos cálculos de Cogo, entre 45% e 50% da área brasileira da oleaginosa pode ficar sob influência do El Niño.
O histórico ajuda a dimensionar o risco. No último episódio intenso citado pelo analista, entre 2015 e 2016, a produção de soja nas regiões afetadas caiu de 47,6 milhões para 30,2 milhões de toneladas.
Isso não significa que o cenário vá se repetir. Cogo afirma que as projeções atuais ainda não incorporam uma eventual perda provocada pelo fenômeno.
“Não se estima quebra de safra. Só após os efeitos do fenômeno é que contabilizamos”, afirmou.
Há também uma diferença importante entre perda de produção e impacto sobre preços. No caso da soja, os estoques globais equivalem a cerca de 28% do consumo mundial, segundo Cogo. Esse colchão pode amortecer uma eventual redução da oferta brasileira e limitar uma reação das cotações internacionais.
Para o produtor, essa combinação é particularmente sensível: uma eventual perda de produtividade não necessariamente seria compensada por preços proporcionalmente maiores.
“Com preços deprimidos e margens apertadas no Brasil, uma eventual redução da produção tende a ter impacto mais limitado sobre as cotações”, disse.
Outras commodities enfrentam equações diferentes. No arroz, o excesso de chuva no Sul pode prejudicar as lavouras. Café, feijão e açúcar também estão expostos às alterações de temperatura e precipitação. No milho, o risco pode avançar para 2027, especialmente se problemas na primeira safra atrasarem o calendário da segunda.
