O terroir como obsessão: como Don Melchor transformou uma parcela histórica em seu novo vinho de luxo

Foram décadas de uma construção discreta, centrada em um único e celebrado rótulo. Ano após ano, Don Melchor surpreendeu, chamando atenção para a denominação de Puente Alto, no Chile. Em 2024, sua safra 2021 chegou ao topo do mundo. Melhor vinho do ano na eleição da Wine Spectator, abriu um timing mais que ideal para o lançamento de uma série inédita, a Las Parcelas.
Em vez de olhar para novos blends distintos do original, o lançamento planta raízes ainda mais profundas do terroir da região – uma obsessão de Don Melchor na gestão de Enrique Tirado, que veio ao Brasil para apresentar o lançamento em uma série de eventos de apresentação, do Paraná à Bahia.
Desde que assumiu a direção técnica do projeto, em 1997, Tirado e sua equipe se dedicam a entender cada vinha em profundidade. (Suas iniciativas incluem até um interessantíssimo vinhedo solar, que, por sua complexidade, merece outro artigo dedicado somente a ele.)
O trabalho os levou a dividir o terreno de 125 hectares em 151 microparcelas agrupadas em sete divisões – ou parcelas –, cada uma com características particulares.
Nas últimas quatro décadas, Don Melchor reuniu a cada ano o melhor corte do vinhedo, feitoo a partir das sete divisões. "Mas nem todos os anos usamos 100% das parcelas no blend final. Às vezes, algumas delas sozinhas são muito boas, mas ao misturá-las com o restante, o equilíbrio se quebra", conta Tirado.
Volta ao início
Assim, quando chegou a hora de inovar, Don Melchor abriu caminho para explorar estes territórios individualmente. E o fez justamente com o trecho que deu origem ao vinhedo, a Parcela Nº 1, protagonista absoluta do DM/01 safra 2022, que chega agora ao mercado brasileiro.
Para entender o lançamento de 2026 é preciso voltar no tempo: para a safra 2022, claro, mas também para 1979, quando foi plantada a primeira parcela Don Melchor.
A uva cultivada ali tem origem ainda mais remota, oriunda de um material de Cabernet Sauvignon que veio de Bordeaux há cerca de 150 anos. Seu desenvolvimento daria origem a parte essencial do que compõe o blend de Don Melchor ao longo dos estes anos.
"A Parcela nº1 sempre terá essa expressão de frutas vermelhas, notas florais e uma fineza nos taninos que é típica dela", explica Tirado.
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Uma parcela com jeito próprio
Então veio a temporada 2021/2022 com temperaturas ligeiramente mais baixas e menos umidade que a média história de Puente Alto. No Don Melchor 2022, apresentado em 2025, isso refletiu em um Cabernet Sauvignon de enorme pureza, responsável por 95% do corte. Isso garantiu uma safra elegante com bom potencial de guarda, no melhor estilo da vinícola.
Na Parcela Nº01, por sua vez, a temporada evidenciou textura e vibração, com taninos marcantes e notas de flores e frutas vermelhas. A seleção acabou destacada veio a elaboração do primeiro lançamento da série Las Parcelas.
Composto por 88% de Cabernet Sauvignon e 12% de Cabernet Franc (todos da Parcela Nº01), o vinho teve 15 meses de envelhecimento em barricas de carvalho francês, sendo 74% de primeiro uso. Mais fresco que o Don Melchor, o lote anuncia imediatamente à boca sua distinção do blend principal.
Ao todo, foram apenas 500 caixas produzidas, 300 delas apenas para o mercado brasileiro, maior da vinícola no mundo. Por se tratar de uma série limitada, cada garrafa vem numerada e sai a R$ 800.
Um novo olhar
A apresentação do DM/01 no Brasil se beneficiou do lançamento simultâneo da safra 2023 de Don Melchor – um ano mais quente e seco, que exigiu produção e vinificação especialmente cuidadosas e gerou um rótulo profundo e complexo (agora no mercado brasileiro a R$ 1.200).
Diante do corte repleto da personalidade da linha principal, ficou fácil identificar, simultaneamente, o frescor da série Las Parcelas. É um contraste sutil, mas que evidencia a inteligência por trás do lançamento: se durante décadas o desafio de Don Melchor foi encontrar a melhor combinação possível, Las Parcelas inverte a lógica e busca na individualidade a riqueza do terroir de Puente Alto.
A ideia é manter assim: a cada ano, uma das sete parcelas do vinhedo deve ser apresentada individualmente, como forma de envolver também o público na pesquisa ostensiva do terroir de Puente Alto. Para a safra 2023, Tirado já adiantou que a Parcela escolhida foi a Nº05, enquanto 2024, 2025 e 2026, já vindimada, seguem em segredo de estado.
