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Sacre Investimentos
InternacionalACSBDR
20/07/2026
11 min

O tombo de US$ 2,3 trilhões das 7 Magníficas não assusta os grandes gestores (e também não deve assustar você)

O tombo de US$ 2,3 trilhões das 7 Magníficas não assusta os grandes gestores (e também não deve assustar você)

Imagine olhar para um gráfico da bolsa e perceber que as sete maiores empresas de tecnologia do mundo perderam, em 30 dias, US$ 2,3 trilhões em valor de mercado. Foi o que aconteceu com Alphabet, MicrosoftAmazon, Meta, Apple, Nvidia e Tesla em junho. Mas essa queda não assustou os grandes gestores — e também não deveria assustar você. 

A confiança desses especialistas do mercado financeiro nas 7 Magníficas se baseia muito no top down, uma análise financeira que você também pode aplicar aos seus investimentos.  

Se não está familiarizado com o termo, aqui vai um exemplo simples: você está planejando uma viagem de férias. 

Antes de escolher o hotel, primeiro você olha a previsão do tempo para a região, confere se o país de destino não está passando por uma crise e avalia se o preço das passagens aéreas cabe no seu bolso.  

No mercado financeiro, os gestores que usam essa tese fazem exatamente a mesma coisa. Em vez de saírem procurando ações baratas logo de cara, primeiro eles olham para a floresta (o cenário macroeconômico global, a inflação e a geopolítica). 

Se o clima econômico geral for favorável para um setor — como a inteligência artificial (IA) —, eles dão o passo seguinte: entram na floresta e escolhem a melhor árvore.  

Essa estratégia protege o investidor de comprar uma ótima empresa que está prestes a ser atingida por uma tempestade global. 

E foi por isso que os grandes gestores não saíram correndo para vender as ações das 7 Magníficas quando elas perderam quase R$ 12 trilhões em valor de mercado em apenas um mês — uma lição valiosa para qualquer investidor.  

"No top down, enxergamos um cenário de longo prazo de cinco anos, que é quando a IA vai gerar produtividade sem gerar inflação, em um ciclo econômico virtuoso”, afirma Carlos Camacho, head de gestão do núcleo Global Trends da BTG Pactual Asset Management. 

Para quem quer replicar a estratégia, ele diz que é preciso olhar para empresas nas quais o crescimento estimado dos lucros supere a alta do preço da ação na bolsa. 

Camacho cita o caso emblemático da Nvidia: o crescimento dos lucros da companhia tem sido ainda mais rápido do que a valorização de suas ações, fazendo com que o múltiplo preço sobre lucro (P/L) de fato caia.  

Esse tipo de dinâmica, segundo ele, confere uma margem de segurança caso o mercado global encare uma recessão ou uma nova tempestade macroeconômica. 

Mas o que aconteceu com as 7 Magníficas? 

O tombo de US$ 2,3 trilhões no valor de mercado das 7 Magníficas em junho não aconteceu porque essas empresas passaram a dar prejuízo. Pelo contrário: elas continuam lucrando muito. 

O que houve foi uma tempestade perfeita gerada por expectativas exageradas, impaciência dos investidores e fatores macroeconômicos. 

As gigantes de tecnologia estão em uma corrida para ver quem domina a inteligência artificial. Para isso, elas precisam gastar fortunas comprando chips superpotentes e construindo servidores gigantescos (data centers). 

Nos cálculos do Morgan Stanley, esses gastos de capital (capex) estão projetados para disparar 70%, ultrapassando a barreira dos US$ 700 bilhões este ano. 

“Tanta agressividade acabou canibalizando a geração de caixa livre das empresas para os próximos 12 meses, gerando desconforto no mercado”, disse o estrategista do Deutsche Bank, Jim Reid. 

Também não dá para ignorar o fato de que o mercado financeiro vive de expectativas. Nos últimos anos, as ações subiram impulsionadas pelo entusiasmo da IA — o famoso “Fomo” ou o “medo de ficar de fora’ (“fear of missing out”).  

"Muitas empresas embarcam nesses investimentos porque têm a percepção de que se não entrarem, vão ficar para trás e, assim, o mercado pode puni-las", afirma Luiz Ferreira, CIO do EFG para as Américas. 

Ele, no entanto, pondera que esse comportamento puramente reativo não é algo que valoriza como gestor. 

"O que a gente quer ver, na verdade, são receitas crescentes, um fluxo de caixa com certa preservação. Se possível, que esses investimentos não sejam feitos somente por meio de dívida, mas do fluxo de caixa ", afirma. 

Também em junho, o mercado mudou de postura e passou a exigir o payback: os investidores começaram a se perguntar se e quando os bilhões de dólares investidos vão se transformar em receita e lucro. 

“O investidor precisa ter em mente que esse é um tipo de investimento que demora de um ano e meio a dois anos para resultar no aumento da capacidade de produção dessas empresas”, diz Camacho, da BTG Pactual Asset. 

Como os valuations das ações estão muito esticados (caros), qualquer pontinha de dúvida faz com que os grandes fundos decidam se desfazer de parte das ações para embolsar o lucro acumulado, gerando uma forte onda de vendas. 

O custo do dinheiro também pesou. Surgiram preocupações no mercado sobre a possibilidade de o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) precisar elevar os juros ainda este ano. Taxas mais altas aumentam o custo de financiamento de projetos bilionários como os de IA.  

Além disso, quando os juros sobem, a fórmula matemática que calcula o valor presente das empresas de crescimento, como as de tecnologia, faz com que elas passem a valer menos no presente. 

O mercado financeiro também estava operando com muito dinheiro emprestado (alavancagem. Segundo dados do regulador norte-americano (Finra), o uso de margem (dinheiro emprestado para operar) atingiu a marca histórica de US$ 1,4 trilhão, uma alta de 50% em relação ao ano anterior. 

Junte a isso a proliferação de fundos de índice (ETFs) alavancados — que, em países como a Coreia do Sul, chegaram a multiplicar os ganhos ou as perdas por duas ou três vezes. 

Quando o mercado começou a cair de leve, esses mecanismos de alavancagem forçaram vendas automáticas em massa para cobrir prejuízos, amplificando o tamanho do tombo. 

Para completar, muitos fundos decidiram que as 7 Magníficas estavam pesadas demais em suas carteiras. 

Eles realizaram lucros e migraram esse dinheiro temporariamente para outras empresas menores do S&P 500 ou para setores específicos da cadeia de hardware como chips de memória. Essa dança das cadeiras tirou o combustível que mantinha as 7 Magníficas no topo. 

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O sobe e desce dos chips de memória 

Uma das grandes movimentações recentes do mercado foi a saída de capital das grandes plataformas de software em direção aos fabricantes de chips de memória e hardware físico. 

Essa demanda repentina gerou margens brutas inéditas de até 86% para empresas como a Micron Technology. Contudo, o apetite especulativo do varejo passou do ponto, segundo Camacho, da BTG Pactual Asset. 

"Desde maio deste ano estava havendo exagero nos preços de memória. O mercado viu demanda, partiu para cima — e é sempre bom lembrar que o mercado exagera tanto para cima como para baixo. Houve um frenesi especulativo, e subir assim nunca termina bem", afirma.  

Essa distorção e o subsequente ajuste de rota por parte das compradoras provocaram uma queda cerca de 30% no setor de memória em julho.  

Mas aqui também não há motivos para debandada do setor. Leonardo Martins, analista técnico em renda variável do Inter, enxerga essa mudança como um movimento puramente tático e temporário dos grandes fundos, e não como uma migração estrutural e definitiva de portfólio. 

Não há sinais de estouro de bolha 

Se passou pela sua cabeça que essa perda trilionária das 7 Magníficas foi o estouro de uma bolha de ações tecnologia, semelhante ao que aconteceu com as empresas de internet nos anos 2000, os especialistas acalmam os ânimos.  

A queda recente de preços desse grupo é vista como um movimento de ajuste de expectativas (valuation), e não como a ruína dos negócios. 

Para Ferreira, do EFG, falar em bolha não faz sentido quando os fundamentos das empresas continuam robustos. 

"Nós não achamos que é uma bolha. Bolha não combina com crescimento de receita e não combina com expansão de margem, que é o que a gente vê de uma maneira geral. O que está acontecendo é uma reprecificação de alguns múltiplos", diz. 

Ele lembra que o mercado está apenas menos disposto a pagar caro por cada lucro futuro estimado, reduzindo os múltiplos sem que haja uma queda real nos lucros das companhias.  

"A gente ficaria mais preocupado em relação a bolha se tivesse um colapso, por exemplo, de receita ou de lucro", acrescenta. 

Vale lembrar que os investidores poderão conferir o desempenho financeiro dessas empresas a partir desta semana. 

Na quarta-feira (22), Alphabet e Tesla divulgam seus resultados trimestrais, que serão seguidos por Microsoft e Meta (29/07), Amazon e Apple (30/07) e, por fim, Nvidia (26/08).  

"Ainda é cedo para falar em estouro de uma bolha. O movimento parece muito mais uma realização de lucros após uma valorização excepcional dos últimos anos, combinada com uma reavaliação das expectativas", diz Martins. 

O analista do Inter ressalta que, embora o Morgan Stanley aponte que as 7 Magníficas mantêm uma vantagem de 45% de crescimento anual de lucros frente ao restante do mercado, o investidor comum precisa entender o descasamento entre o lucro real e a oscilação recente das ações. 

"O mercado precifica expectativas futuras, não apenas os resultados atuais. Mesmo com crescimento de lucros acima da média, muitas dessas empresas já negociavam com valuations muito elevados. Quando as expectativas ficam excessivamente otimistas, basta uma pequena revisão nas projeções para provocar correções relevantes nas ações, mesmo que os fundamentos continuem sólidos." 

O que fazer com seus BDRs e ETFs? 

Se as suas posições em BDRs ou ETFs oscilaram no último mês, a orientação dos especialistas é unânime: disciplina, diversificação e foco no longo prazo. E se você está em dúvida sobre a exposição ao setor, eles também dão o caminho.  

1. Faça o rebalanceamento periódico 

Para quem investe em BDRs, Ferreira, do EFG, lembra que a volatilidade do dólar adiciona uma camada extra de emoção. Como esses ativos subiram muito no passado recente, é hora de avaliar o tamanho da sua exposição. 

"Quem tinha uma posição em algum desses papéis, certamente tem muito mais hoje do que tinha no passado. Por isso, deveria repensar o tamanho dessa exposição em um rebalanceamento, seja para outros segmentos, seja até para outra classe de ativos, para que o perfil que o investidor tinha inicialmente seja preservado." 

Por outro lado, o gestor destaca que, para quem entrou no topo e viu a fatia minguar, a queda recente pode ser uma oportunidade para recomprar um pouco e voltar ao patamar ideal da tolerância ao risco. 

2. Evite a concentração excessiva 

Martins, do Inter, reforça que, embora as 7 Magníficas continuem sendo negócios de altíssima qualidade, o investidor pessoa física deve zelar pelo equilíbrio da carteira. 

"Para quem investe com horizonte de longo prazo, oscilações como essa fazem parte do mercado e não justificam mudanças precipitadas. O mais importante é manter uma carteira diversificada, evitando concentração excessiva em poucas empresas." 

Ele sugere buscar exposição equilibrada por meio de ETFs amplos e explorar outros setores do mercado norte-americano para tornar a carteira mais resiliente. 

3. Busque empresas com margem de segurança 

Camacho, da BTG Pactual Asset, defende que o investidor foque em empresas nas quais o crescimento estimado dos lucros supere a alta do preço da ação na bolsa. 

“E um caminho para isso é começar pelos fundos. Temos o BTG Global Trends, que está disponível tanto no mercado brasileiro, com cotas no mercado local em reais e dólares, a depender do que investidor desejar, e também no mercado offshore, com mesma estrutura”, afirma. 

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Para navegar com sucesso pelas 7 Magníficas no segundo semestre, mantenha atenção a estes riscos sinalizados pelos gestores: 

  • Geopolítica Inflacionária 

Camacho, da BTG Pactual Asset, aponta que, enquanto o conflito Rússia-Ucrânia demonstra incentivos fiscais e de recursos para caminhar para um acordo em breve, as tensões no Oriente Médio (leia-se EUA e Irã) são mais complexas.  

Se o conflito se arrastar até o inverno no hemisfério norte, a escalada nos preços de combustíveis pode gerar um forte impacto inflacionário global, forçando os bancos centrais a manterem os juros altos por mais tempo e juros altos costumam castigar empresas de tecnologia.  

  • Geração de valor real da IA 

 Existe o risco de a tecnologia de inteligência artificial gerar ganhos de produtividade menores do que os trilhões estimados pelo mercado para esta década. 

  • Juros e regulação 

Martins, do Inter, acrescenta à lista de alertas a possibilidade de desaceleração econômica global, barreiras comerciais mais rígidas para a exportação de chips de tecnologia e o avanço de leis antitruste e de regulação do uso de dados na Europa e nos EUA. 

AutorCarolina Gama
FonteSeu Dinheiro
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