'O varejo brasileiro já está na UTI e o destino é a morte', diz fundador da Havan
Parte do problema, diz Luciano Hang, está na concorrência com produtos importados da China

O varejo brasileiro entrou em 2026 com um número recorde de recuperações judiciais e uma fila de grandes empresas tentando renegociar dívidas.
Para Luciano Hang, fundador da Havan, a crise não é explicada apenas pelos juros altos ou pelo consumo mais fraco. Parte do problema, diz ele, está na concorrência com produtos importados da China.
Hang critica especialmente o fim da chamada taxa das blusinhas, apelido dado à tributação sobre compras internacionais de baixo valor.
Na visão do empresário, permitir a entrada de produtos estrangeiros com uma carga tributária menor do que a enfrentada por empresas brasileiras cria uma disputa desigual e aumenta a pressão sobre varejistas e fabricantes nacionais.
A avaliação vem num momento em que Casas Bahia, Grupo Toky, dono de Tok&Stok e Mobly, e Marabraz recorreram à recuperação judicial.
Hang afirma que o impacto não fica restrito às grandes redes: fornecedores, transportadoras e indústrias também sentem o efeito quando um varejista perde capacidade de pagamento.
“O varejo nacional já está mal, já está na UTI. E é fatal, muitas e muitas empresas nacionais vão morrer. Inclusive fábricas”, diz Hang.
Para o empresário, o risco aumenta porque parte da indústria brasileira precisa competir com produtos asiáticos enquanto carrega custos tributários e operacionais maiores.
“Se eu importo um produto, eu pago de 80% a 120% de impostos. E eles estão trazendo mercadoria da China com zero de imposto. Isso é uma carnificina”, afirma Hang.
Na contramão do setor, a Havan fechou 2025 com faturamento de 18,5 bilhões de reais e lucro recorde de 3,4 bilhões de reais, uma alta de 28% frente ao ano anterior. A varejista encerrou 2025 com dívida bruta de 678 milhões de reais, e 4,9 bilhões de reais em caixa e aplicações financeiras. Hoje, 90% dos produtos fornecidos na Havan são da indústria nacional.
Por que Hang critica a taxa das blusinhas
A principal crítica de Hang está nas regras para compras internacionais de baixo valor. O empresário afirma que a diferença de tributação entre produtos vendidos por empresas brasileiras e mercadorias compradas em plataformas estrangeiras reduz a capacidade de competição do varejo nacional.
Na avaliação dele, a discussão vai além das varejistas. Quando um produto importado entra no país com uma carga menor, afirma, a pressão chega também às fábricas brasileiras que disputam o mesmo consumidor.
O empresário também associa esse movimento à perda de produção e de empregos no país. “Nós estamos exportando os empregos dos brasileiros para a China. Quem está muito feliz com a lei aprovada aqui no Congresso Nacional são os chineses”, diz Hang.
A preocupação, segundo ele, é que a pressão apareça primeiro nas empresas com menos caixa e mais dependência de crédito. Depois, se espalhe para fornecedores e prestadores de serviço ligados às grandes redes.
O efeito dominó sobre fornecedores
Na visão de Hang, o problema se agrava quando uma grande varejista perde capacidade de pagamento. O impacto deixa de ficar concentrado no balanço da companhia e chega a fabricantes, transportadoras e prestadores de serviço que dependem daquele cliente.
“Destrói toda uma cadeia de fornecedor, de serviço, de transportadora”, diz Hang.
Ele cita Casas Bahia, Americanas e Marabraz como exemplos de empresas cuja crise afeta negócios ao redor. “Numa crise como a da Casas Bahia, ou Americanas, Marabraz, isso desmonta todo o setor”, afirma.
A preocupação é maior, segundo ele, entre fabricantes da cadeia têxtil, setor com o qual a Havan mantém relação histórica. Hang diz já perceber fornecedores mais pressionados pela combinação de crédito caro, concorrência com importados e dificuldade de repassar custos.
“É muito triste o que eu sinto dos nossos fornecedores, principalmente na cadeia têxtil, de onde eu faço parte. Muitas empresas não vão aguentar os próximos meses e os próximos anos. Elas vão sucumbir”, diz Hang.
Os pedidos de recuperação judicial reforçam esse ambiente de pressão. Em 2025, foram 977 processos, envolvendo 2.466 CNPJs, recorde da série da Serasa Experian. No primeiro trimestre de 2026, foram mais 194 pedidos.
Para Hang, esses números podem ainda subestimar o tamanho do problema, porque muitas empresas fecham sem recorrer à recuperação judicial. “Se nós estamos vendo o maior número da história de pedido de recuperação judicial, imagine quantas empresas já quebram ou fecham sem ter recuperação judicial”, afirma.
“Eu tenho certeza que para os meses à frente vai ser muito mais feio do que nós vimos até agora”, diz Hang.
E a Havan?
Enquanto parte do varejo tenta renegociar dívidas, a Havan diz operar sem débitos bancários.
Hang afirma que começou a se preparar para um ambiente mais difícil há cerca de dez anos, quando reduziu o ritmo de expansão, pagou bancos e passou a financiar o crescimento com recursos próprios.
“Eu segurei os nossos investimentos, paguei todos os bancos, não temos dívidas. Nós financiamos o nosso crescimento com dinheiro próprio”, diz Hang.
Segundo ele, a decisão veio depois da experiência de 2015 e 2016, quando a empresa sentiu os efeitos de uma desaceleração após anos de forte crescimento.
Agora, a Havan voltaa a acelerar. A empresa prevê chegar a 203 lojas ainda neste ano. Hang diz enxergar espaço para chegar a entre 300 e 400 megastores no Brasil e manter um ritmo próximo de 10 inaugurações por ano.
