O Vorcaro do Paraguai? Quem é o fundador do Ueno Bank, preso após a intervenção que colocou o governo em xeque
Empresário construiu carreira no grupo fundado pelo pai, chegou à vice-presidência do banco e se tornou um dos personagens centrais da crise que sacode o Paraguai nesta semana

Aos 36 anos, Federico Miguel Vázquez Villasanti saiu dos bastidores do mercado financeiro do Paraguai para o centro de um dos maiores escândalos recentes do país. Fundador do Ueno Bank e presidente do Grupo Vázquez, o empresário foi preso na terça-feira (3), depois que o Banco Central do Paraguai (BCP) assumiu o controle da instituição por insuficiência de capital.
A crise, que colocou sob suspeita as relações entre o banco, autoridades monetárias e integrantes do governo, ganhou uma dimensão ainda maior quando chegou ao presidente do país, Santiago Peña.
A trajetória de Vázquez tem um ponto de comparação com a de Daniel Vorcaro, banqueiro dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro do ano passado após a identificação de fraudes bilionárias.
Assim como o empresário brasileiro, o fundador do Ueno viu seu nome sair do universo dos negócios e ganhar as manchetes em meio ao colapso da instituição que comandava. Vorcaro foi preso na véspera da liquidação do Master, solto dias depois e voltou à prisão em março deste ano.
Mas, no Paraguai, o caso ganhou contornos que ultrapassam a crise de um banco. As conexões de Vázquez com o presidente do Banco Central e com o próprio Peña ampliaram os questionamentos sobre a fiscalização da instituição e transformaram o episódio em uma crise política.
Quem é Federico Vázquez, fundador do Ueno Bank
Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos do setor financeiro paraguaio, Vázquez começou a carreira dentro de uma empresa da própria família.
Seu primeiro emprego foi na Credicentro, companhia fundada por seu pai em 1984. Segundo o perfil do empresário no LinkedIn, ele entrou no negócio aos 18 anos, já como CEO.
A Credicentro cresceu e, em 2022, passou a integrar a Ueno Holding, que já fazia parte do Grupo Vázquez. O conglomerado reúne mais de 20 empresas de diferentes setores e tem Vázquez como presidente. O grupo também controla o Ueno Bank, instituição na qual o empresário ocupava o cargo de vice-presidente.
A formação profissional apresentada por Vázquez acompanha a trajetória de expansão dos negócios. Em seu perfil no LinkedIn, ele afirma ter especialização em Finanças, Gestão Empresarial, Transformação Digital e Inovação em Serviços Financeiros pelo INCAE, além de ter participado de programas na Universidade de Miami e em Harvard.
Fora do ambiente corporativo, o empresário cultivava uma imagem ligada à velocidade e aos esportes de resistência.
Em uma biografia publicada no site do Ueno Bank, descreve-se como “apaixonado por velocidade e competição”. Entre seus interesses, cita pilotar carros de rali e participar de provas de triatlo. Casado e pai de três filhos, também compartilhava nas redes sociais momentos com familiares e amigos.
As conexões que colocaram o Ueno Bank no centro do escândalo
A crise do Ueno Bank ganhou uma dimensão institucional por causa das relações entre seus controladores e autoridades paraguaias. Uma delas envolve Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central quando a intervenção no Ueno foi anunciada.
Carvallo assumiu o comando do BCP em setembro de 2023, cerca de dois meses depois de deixar a presidência do próprio Ueno. Em meio à repercussão do caso, apresentou sua renúncia na terça-feira (3), mesmo dia em que o Banco Central anunciou a resolução da instituição.
Outra ligação alcança o presidente Santiago Peña. Em abril do ano passado, o mandatário admitiu ter mantido investimentos na Ueno Holding.
Segundo o jornal paraguaio ABC, Peña afirmou que entrou na empresa em 2019, mas deixou de participar de uma operação de fusão realizada em março de 2025, depois que o principal acionista decidiu dissolver a companhia.
Essas conexões passaram a ganhar ainda mais atenção depois que vieram à tona suspeitas sobre as operações de crédito do banco.
De acordo com o ABC, a investigação começou quando o Banco Central identificou indícios de que o Ueno concedia empréstimos acima do limite legal a empresas ligadas ao Grupo Vázquez.
A legislação paraguaia estabelece que operações de crédito com pessoas ou empresas vinculadas à propriedade ou à gestão de uma instituição financeira não podem ultrapassar 20% de seu patrimônio efetivo.
A regra busca justamente limitar a concentração de riscos em negócios relacionados aos controladores do banco.
O jornal também apontou a velocidade de crescimento da captação de depósitos públicos pelo Ueno. Em pouco mais de dois anos, o volume teria saltado de 70 bilhões de guaranis (cerca de R$ 62,9 milhões) para 3,45 trilhões de guaranis (aproximadamente R$ 3,1 bilhões).
A intervenção do Banco Central e a prisão do fundador do Ueno
Foi nesse contexto que o Banco Central do Paraguai decidiu intervir no Ueno. Na noite de segunda-feira (2), o conselho da autoridade monetária aprovou por unanimidade a abertura de um processo de resolução. No dia seguinte, o BCP assumiu o controle da instituição e Vázquez foi preso.
A resolução é um mecanismo que permite aos reguladores transferir depósitos de um banco em dificuldades para outras instituições antes de liquidar os ativos restantes.
A medida busca preservar os recursos dos clientes e conter o risco de que os problemas de uma instituição contaminem o restante do sistema financeiro.
Segundo o Banco Central, a decisão foi motivada pela deterioração do índice de solvência do Ueno — indicador que mede o capital da instituição em relação aos ativos ponderados pelo risco.
Após ajustes nas demonstrações financeiras durante uma revisão de supervisão, o índice caiu para menos da metade do mínimo exigido pela regulação.
Em setembro, o Ueno concentrava 8% dos empréstimos e 9% dos depósitos de todo o sistema bancário paraguaio.
A crise bancária chega ao presidente do Paraguai
A intervenção no Ueno não encerrou a crise. Ao contrário, abriu uma nova frente de pressão sobre o governo de Santiago Peña.
Na quarta-feira (4), deputados da oposição apresentaram ao Congresso um pedido de abertura de processo de impeachment contra o presidente e o vice-presidente Pedro Alliana.
O documento acusava Peña de “mau desempenho de suas funções no exercício do cargo” e apontava, entre outras questões, possíveis conflitos de interesse e questionamentos sobre a evolução de seu patrimônio.
A relação anterior do presidente com a Ueno Holding passou a ocupar o centro das críticas. Embora Peña tenha afirmado que deixou de participar da empresa em 2025, sua ligação com o grupo alimentou cobranças por esclarecimentos sobre eventuais conflitos de interesse e sobre a condução do caso pelas autoridades.
Na quinta-feira (5), Peña anunciou em um vídeo publicado nas redes sociais que renunciaria à Presidência. Pouco depois, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade a abertura do processo de impeachment.
A renúncia, porém, não significou uma saída imediata do cargo. Pela legislação paraguaia, Peña permanece na Presidência até que as duas Casas do Congresso aprovem formalmente sua saída. Nesta sexta-feira, o Senado retomou o julgamento do processo de impeachment, sem a presença do presidente.
*Com informações do Estadão Conteúdo.
