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Sacre Investimentos
Exame INACS
25/08/2026
5 min

Oi ainda tem R$ 1,4 bilhão para vender. O problema é encontrar comprador

Braço corporativo não recebeu propostas no primeiro leilão e pode voltar à venda na falência, mas saída de clientes, contratos públicos e disputa com bondholders aumentam a incerteza sobre o ativo

Oi ainda tem R$ 1,4 bilhão para vender. O problema é encontrar comprador

A Oi ainda tem um ativo avaliado em pelo menos R$ 1,4 bilhão para transformar em dinheiro no processo de falência. O problema é que ninguém quis comprá-lo quando a companhia ainda estava em recuperação judicial — e a quebra pode tornar a operação ainda mais complicada.

A Oi Soluções, braço de serviços corporativos da companhia, foi colocada à venda em junho com preço mínimo de R$ 1,417 bilhão. Interesse inicial não faltou. Vivo, Claro, TIM, V.tal e Sercomtel se habilitaram para participar do processo competitivo, tiveram acesso às informações da operação, mas nenhuma apresentou proposta na audiência realizada em 17 de junho. O preço mínimo havia sido definido a partir de uma avaliação da G5 Partners, que estimou o negócio entre R$ 1,272 bilhão e R$ 1,599 bilhão. Nos bastidores, porém, potenciais compradores já levantavam dúvidas sobre o valuation e a qualidade da carteira, que inclui contratos com margens baixas ou negativas e outros próximos do vencimento.

A carteira não é pequena. A Oi Soluções reunia cerca de 14 mil contratos, segundo informações publicadas à época do leilão, sendo aproximadamente 60% com órgãos públicos e 40% com clientes privados. A UPI colocada à venda incluía não apenas essa base de clientes, mas também estrutura operacional, receitas, custos e relações com fornecedores.

Agora, com a confirmação da falência pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), uma nova tentativa de venda poderá ser feita dentro do processo falimentar. Ao confirmar a quebra, o tribunal determinou a preservação dos atos de alienação e liquidação realizados durante a recuperação e também dos negócios jurídicos iniciados enquanto a falência esteve suspensa. A própria decisão registra que o processo de alienação da UPI Oi Soluções estava em "fase intermediária".

A dificuldade, porém, vai além do preço. Pessoas que acompanham de perto o processo avaliam que a falência adiciona novas incertezas a um ativo que já não encontrou comprador na primeira tentativa. Uma delas está na própria carteira de clientes. A Oi Soluções atende empresas e órgãos públicos e seu valor depende, em boa medida, da manutenção desses contratos. Quanto mais longa for a busca por um comprador, maior o risco de clientes migrarem para outros fornecedores diante das incertezas envolvendo a continuidade da Oi.

Há uma dificuldade adicional nos contratos com o setor público. Dependendo das condições de cada contratação, a transferência para um novo controlador pode exigir anuência do órgão contratante. Na prática, isso significa que comprar a Oi Soluções não necessariamente garante ao interessado que toda a carteira será transferida junto com o negócio.

A situação ganha dimensão maior porque cerca de seis em cada dez contratos da carteira eram com o setor público. Pessoas próximas às discussões avaliam que órgãos públicos podem adotar uma postura conservadora diante da necessidade de autorizar uma transferência, sobretudo pelo risco de questionamentos posteriores.

Mais uma camada de incerteza

O problema não termina nos clientes. Credores financeiros da Oi também podem abrir uma nova frente de disputa envolvendo a Oi Soluções. Em caso de venda, bondholders devem questionar judicialmente a destinação dos recebíveis gerados por clientes da operação, sob o argumento de que teriam direitos sobre esses fluxos.

O TJ-RJ procurou reduzir parte da insegurança ao determinar que atos de gestão e alienação praticados durante a recuperação sejam preservados, assim como negócios iniciados durante o período em que a falência esteve suspensa. Mas a Oi Soluções chegou à falência em uma situação diferente de outros ativos da companhia. Enquanto as alienações da V.tal e da UPI Serviços Telefônicos já estavam homologadas e em fase final, o processo envolvendo a Oi Soluções ainda estava em estágio intermediário.

Oi, tchau

A decisão desta terça-feira retoma uma falência que havia sido decretada pela primeira vez em novembro de 2025. Na ocasião, a 7ª Vara Empresarial do Rio reconheceu a insolvência técnica e patrimonial da Oi, mas determinou a continuidade provisória dos serviços considerados essenciais, sob gestão judicial.

A quebra foi suspensa poucos dias depois, após recursos apresentados por credores, entre eles Itaú e Bradesco. Com isso, a Oi voltou à recuperação judicial enquanto os desembargadores analisavam os agravos. O julgamento chegou a começar em junho, mas foi interrompido por um pedido de vista e retomado nesta terça-feira, quando o TJ-RJ confirmou a falência.

É o desfecho de uma crise que atravessa quase uma década. A Oi entrou em sua primeira recuperação judicial em 2016 e voltou à Justiça em 2023. Desde então, vendeu sucessivos ativos para reduzir dívidas e financiar a operação. Na reta final, porém, encontrou dificuldades justamente para transformar em caixa alguns dos ativos que restavam — entre eles a Oi Soluções.

A quebra ocorre ainda em meio a uma disputa sobre as responsabilidades pela deterioração da companhia. A Oi tenta responsabilizar fundos ligados a Pimco, SC Lowy e Ashmore, que chegaram a reunir 58,28% do capital em dezembro de 2024. A companhia sustenta que os credores teriam influenciado sua administração para priorizar pagamentos aos bondholders. A Pimco nega ter controlado a Oi e afirma que os direitos questionados estavam previstos no plano de recuperação aprovado pelos credores.

AutorPedro Gil
FonteExame
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