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Future of MoneyCPTO
06/06/2026
4 min

Oito bancos centrais estão entrando no mercado de stablecoins; o que isso sinaliza para o Brasil?

Oito bancos centrais estão entrando no mercado de stablecoins; o que isso sinaliza para o Brasil?

Por Rodrigo Caggiano*

Durante anos, o mercado tratou as stablecoins como uma inovação criada à margem do sistema financeiro tradicional. Tether, USDC e outros ativos digitais ganharam espaço porque resolveram um problema que bancos e reguladores não conseguiram solucionar: transferir valor globalmente em tempo real, com baixo custo e sem depender da infraestrutura bancária internacional construída nas últimas décadas.

Agora, porém, o cenário começa a mudar de forma significativa. Pela primeira vez, oito dos principais bancos centrais do mundo participam ativamente da construção de uma infraestrutura que incorpora conceitos desenvolvidos originalmente pelo universo das stablecoins.

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O Projeto Agorá, coordenado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), reúne o Federal Reserve de Nova York, Banco da Inglaterra, Banco do Japão, Banco da Coreia, Banco Central do México, Banco Nacional Suíço, Banco da França, representando a Zona do Euro, e, mais recentemente, o Banco do Canadá. Ao lado deles estão mais de quarenta instituições financeiras globais, incluindo JPMorgan, HSBC, Deutsche Bank, UBS, Visa, Mastercard e SWIFT.

Desse modo, os bancos centrais deixaram de observar o mercado de stablecoins de longe e passaram a construir suas próprias versões de infraestrutura financeira programável, deixando também uma dúvida sobre o futuro das CBDCs.

Convergência entre blockchain e o sistema financeiro

O movimento não significa uma adesão à filosofia das criptomoedas. Pelo contrário. O Projeto Agorá nasce para preservar os mecanismos de supervisão, conformidade regulatória e soberania monetária dentro de uma nova arquitetura tecnológica. Cada transferência passa por verificações automáticas de compliance, monitoramento de sanções e mecanismos de rastreabilidade incorporados diretamente ao ativo digital.

Assim, estamos assistindo à convergência entre blockchain e sistema financeiro tradicional, mas não necessariamente à vitória da descentralização. O aspecto mais relevante dessa transformação não é tecnológico. A tecnologia já existe há anos. O que realmente chama atenção é o fato de bancos centrais historicamente conservadores terem dedicado recursos, equipes e tempo para construir uma infraestrutura operacional capaz de liquidar pagamentos internacionais em tempo real. O próprio BIS já afirmou que o protótipo foi concluído e os próximos passos envolvem testes em cenários reais de financiamento internacional.

Isso representa uma mudança estrutural na forma como governos enxergam o mercado de ativos digitais. Durante muito tempo, reguladores discutiram se stablecoins deveriam ou não fazer parte do sistema financeiro. Hoje, a discussão parece ter evoluído para outra pergunta: como incorporar os benefícios das stablecoins sem abrir mão do controle institucional?

Para o Brasil, essa mudança tem implicações diretas. O país está entre as economias que mais utilizam stablecoins no mundo. Dados recentes mostram crescimento acelerado das stablecoins lastreadas em real, enquanto milhões de brasileiros continuam utilizando USDT e USDC como instrumentos de proteção cambial, acesso ao dólar e transferência internacional de recursos. Ao mesmo tempo, o Banco Central recuou no ano passado com o Drex e discute uma estrutura regulatória específica para as stablecoins.

Oportunidade para o BC

Nesse contexto, o Projeto Agorá funciona como uma espécie de laboratório do futuro sistema financeiro internacional. Se os maiores bancos centrais do mundo estão apostando em infraestruturas tokenizadas para liquidação de pagamentos globais, torna-se cada vez mais difícil sustentar a visão de que stablecoins representam apenas uma tendência.

A experiência brasileira oferece uma perspectiva particularmente interessante. O Banco Central construiu uma reputação internacional ao lançar o Pix e ao liderar iniciativas de inovação financeira que frequentemente servem de referência para outros países. Agora, diante da expansão global das stablecoins e da criação de redes institucionais como a Agorá, o Brasil tem a oportunidade de ocupar novamente uma posição de protagonismo.

O desafio será encontrar equilíbrio entre inovação, competitividade e soberania regulatória. Se a regulação restringir excessivamente o uso de stablecoins, empresas e usuários podem migrar para estruturas internacionais. Se houver flexibilidade excessiva, surgem preocupações legítimas relacionadas à supervisão financeira, prevenção à lavagem de dinheiro e estabilidade monetária.

O mais provável é que o mercado evolua para uma coexistência entre modelos. Grandes transações institucionais poderão migrar para infraestruturas soberanas como a Agorá, enquanto stablecoins públicas continuarão atendendo demandas de varejo, remessas internacionais, proteção patrimonial e pagamentos em mercados emergentes, mas para que isso evolua no Brasil, precisamos avançar em dois pontos fundamentais: o fantasma do imposto para transações digitais e como as stablecoins podem realmente impactar a liquidez do mercado de crédito e como a tokenização de ativos pode atuar nesse cenário.

A discussão agora não é mais se o dinheiro será tokenizado. A questão é quem definirá as regras dessa nova infraestrutura financeira global.

*Rodrigo Caggiano é fundador e CEO da Capitare e do RWA Monitor

AutorDa Redação
FonteExame
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