‘Onda azul’ faz Wall Street disparar, mas vitória democrata pode trazer nova dor de cabeça para Trump
A reação positiva de Wall Street esconde um novo cenário de incertezas para os mercados, com possíveis mudanças na relação de Washington com gigantes da tecnologia, Europa e China.
A 'onda azul' nos Estados Unidos levou a um forte movimento positivo em Wall Street. Apenas nos primeiros 10 minutos de pregão, o índice Dow Jones disparou mais de 1,2 mil pontos. S&P 500 e Nasdaq também operam com alta de mais de 2% desde o início das negociações desta quarta-feira (4).
Já no mercado de títulos, a reação inicial dos rendimentos dos Treasuries foi de queda em toda a curva. No câmbio, o DXY, que compara o dólar a uma cesta de seis moedas fortes como euro e libra, também perde força. Na mínima intradia, o índice de dólar caiu 0,75%, aos 101.099 pontos, zerando os ganhos do mês.
Os democratas conquistaram a maioria tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado nas eleições de meio de mandato.
Também tiveram vitórias importantes nas disputas de governos estaduais, como no Texas — o segundo maior Estado do país e onde uma vitória democrata não era vista há mais de 30 anos, além de elegerem pela primeira vez uma mulher de origem na latina como governadora.
- As eleições renovaram todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Ao todo, o Partido Democrata garantiu pelo menos 228 cadeiras na Câmara, com um mínimo de 218 vagas para formar a maioria; elegeram 20 senadores.
Agora, os democratas servirão como um contrapeso às políticas do presidente Donald Trump, que implementou cortes de impostos às empresas favoráveis ao seu governo, ao mesmo tempo em que prosseguiu com o tarifaço e uma guerra no Irã que impulsionou a inflação.
"A consequência óbvia do resultado de terça-feira é que um Congresso controlado pelos democratas irá sufocar a agenda doméstica do presidente Trump em seus dois últimos anos de mandato", avaliam os estrategistas do ING.
O apetite a risco de Wall Street também ganha espaço à medida que as incertezas políticas diminuem. Trump já fez sinalizações, consideradas positivas para o mercado, de que aceitará os resultados.
Ao The New York Times, o chefe da Casa Branca afirmou que está "absolutamente disposto" a aceitar o resultado das urnas e disse que os republicanos trabalharão com os democratas ao The Wall Street Journal (WSJ).
Ele, porém, alertou que provavelmente se tornará o "Sr. Veto" em uma publicação na sua rede social, a Truth.
O republicano ainda reconheceu que a guerra contra o Irã, em apoio a Israel, teve influência na derrota esmagadora de seu partido nas eleições de meio de mandato. “Acho que parte disso foi o Irã”, disse Trump à Fox News. “O Irã foi um fator”, afirmou ele separadamente ao WSJ.
Nem tudo no azul
A 'onda azul', por outro lado, provocou uma liquidação das ações de duas das gigantes de tecnologia: Tesla (TSLA) recua 3% e Nvidia cai mais de 1% com temores de maior regulação da inteligência artificial (IA).
O ETF iShares Semiconductor (SOXX), que reúne empresas de semicondutores, também opera em queda de cerca de 2,6%.
Isso porque a eleição também acirrou a disputa política em torno dos centros de dados e da infraestrutura de IA e deve mudar a relação entre o setor de tecnologia e Washington.
Com um Congresso mais crítico às empresas do setor, a fiscalização sobre as gigantes de tecnologia e a expansão dos centros de dados de IA tendem a aumentar.
O Texas, por exemplo, é um dos principais Estados na construção dessas estruturas, e a governadora eleita, Gina Hinojosa, defendeu, durante a companha, a suspensão de novos projetos até que sejam adotadas regras mais rígidas.
O resultado das urnas também foi uma derrota para os bilionários da tecnologia e grupos empresariais que gastaram centenas de milhões de dólares para apoiar candidatos republicanos.
Esses políticos poderiam facilitar a construção dos grandes centros de dados de IA que as empresas planejam espalhar pelo país.
Elon Musk, o homem mais rico do mundo e maior doador individual da campanha eleitoral, gastou valores recordes para tentar manter os republicanos no poder, inclusive no Texas, mas não teve sucesso.
O 'apoio' financeiro do dono da Tesla, por sua vez, teve um efeito contrário ao esperado: pesquisas de boca de urna mostraram que os eleitores estavam preocupados com a corrupção no governo e com a influência crescente dos bilionários na política.
Durante a campanha, o senador James Talarico, também do Texas, atacou Musk diversas vezes, acusando-o de tentar comprar “seu próprio senador particular dos Estados Unidos”.
Trump com poder limitado
Para os analistas do ING, uma questão fundamental é se um presidente Trump com poderes limitados, entrando na fase final de seu mandato, se tornará mais disposto a aceitar perturbações políticas ou de mercado na busca de seus objetivos.
Segundo eles, caso não haja qualquer possibilidade de consenso, o impasse resultante no Congresso deixaria o presidente livre para se concentrar em áreas onde ele pode exercer o poder executivo, como política externa e diplomacia, incluindo política comercial; segurança nacional e defesa; aplicação da lei e política regulatória; nomeações de pessoal; e política administrativa e de gestão.
"Isso sugere que o Irã, a guerra entre Rússia e Ucrânia e a política comercial focada em tarifas provavelmente serão o foco do presidente", destaca o ING.
"A política tarifária poderá ser cada vez mais utilizada para incentivar parceiros estrangeiros a se alinharem aos objetivos da política externa dos EUA, por exemplo, pressionando os membros da OTAN a aumentarem os gastos com defesa", acrescenta.
Na mesma linha, a consultoria Eurasia Group considera que "uma derrota nas urnas tende a levar Trump a redobrar sua agenda de política externa, e não a recuar, mesmo que um Congresso de maioria democrata o submeta a maior escrutínio".
Fraco internamente, mais forte na política externa
Com Trump enfraquecido internamente e, assim, com empenho maior de forças na política externa e comercial, a expectativa é de maior volatilidade e incerteza para a economia.
A Europa deve ser a mais afetada, na visão do ING. "Um acordo forçado entre a Rússia e a Ucrânia, em detrimento da Ucrânia e da Europa, poderia prejudicar o sentimento econômico europeu. Uma nova escalada no Oriente Médio elevaria os preços da energia e prejudicaria a economia europeia", destacam os estrategistas.
Eles também consideram que a recente mudança da Europa em direção a políticas comerciais mais protecionistas pode gerar novas tensões comerciais globais.
Ao mesmo tempo, com apenas dois anos restantes na Presidência, o TACO (Trump Always Chickens Out - Trump sempre volta atrás) pode influenciar cada vez mais o pensamento europeu.
"O risco de um desastre econômico injustificado aumenta à medida que Trump adota uma postura mais agressiva em relação à Europa e os países europeus também endurecem suas posições, apostando que o presidente norte-americano acabará recuando ou ficará sem tempo para avançar com suas medidas", avalia o banco holandês.
A China também pode voltar à mira de Trump, mesmo com a melhora recente da diplomacia entre os dois países.
"A trégua comercial expira em janeiro, e parece que nenhum dos lados está interessado em retornar ao cenário mutuamente destrutivo de tarifas elevadas que tivemos em 2025, mas essa possibilidade não pode ser descartada", afirmam os estrategistas do ING.
Por outro lado, a China poderá perceber que é hora de começar a olhar além de 2028, o que desencadearia uma reavaliação de sua estratégia de longo prazo em relação aos EUA.
O fator decisivo será Taiwan, na avaliação da Capital Economics. "Pequim pode ver os próximos dois anos como uma oportunidade para aumentar a pressão sobre a ilha, principalmente se julgar que Washington está distraído ou que Trump estaria disposto a concordar com termos para não intervir", afirma o estrategista-chefe Neil Shearing.
Já na relação com o Brasil, a 'onda azul' deve ter pouco impacto no curto prazo. O Congresso não tem autoridade para bloquear os poderes tarifários de Trump, destaca a Eurasia Group.
"A pressão do Congresso dificilmente reverterá a tarifa de 37,5% imposta ao Brasil. O caminho mais plausível para uma resolução passa por um acordo bilateral, com o Brasil oferecendo concessões — embora isso seja improvável. No entanto, as tarifas também não devem escalar ainda mais", afirma a consultoria.
Na visão de Julia Thomson, analista política da consultoria, o governo brasileiro se sente mais fortalecido em um momento de enfraquecimento de Trump nos EUA, ainda que esse movimento não deva mudar substancialmente a relação entre os dois países.
O que esperar daqui para frente?
Nos mercados, a reação à 'onda azul' deve ter efeito limitado, já que o cenário fiscal e a inflação continuarão sendo a principal preocupação dos investidores.
A paralisação prolongada das atividades do governo (shutdown) deve voltar a assombrar os mercados no início do segundo semestre do próximo ano, levando o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos) a ficar "às cegas", assim como em outubro do ano passado, sem que as estatísticas econômicas do governo sejam compiladas ou divulgadas.
"O grande risco é que os democratas forcem um impasse dramático sobre o teto da dívida, semelhante ao de 2011, quando o Congresso só conseguiu resolver a questão na chamada 'data X'", afirma Stephen Brown, estrategista-chefe para a América do Norte da Capital Economics.
"É possível que os republicanos consigam fornecer fundos para o Pentágono e elevar o teto da dívida como parte de uma terceira reconciliação orçamentária antes do início do próximo Congresso, em janeiro", diz o estrategista-chefe.
"Mesmo que os republicanos não consigam, alguns democratas parecem dispostos a trabalhar com Trump para eliminar o teto da dívida por completo — embora tal medida dificilmente acalmasse as preocupações dos investidores sobre a sustentabilidade das finanças públicas dos EUA", acrescenta.
Além disso, Brown destaca que os resultados das eleições de meio de mandato aumentam ainda mais a probabilidade de já termos atingido o pico para as ações relacionadas à IA e podem atrasar o aumento de produtividade nos próximos anos.
Para o câmbio, a expectativa é de enfraquecimento do dólar. "O dólar pode se desvalorizar um pouco mais em 2027, no entanto, se um Partido Democrata fortalecido se opuser mais às políticas republicanas, incluindo a desregulamentação e o desenvolvimento da inteligência artificial. Além disso, a possibilidade de uma paralisação prolongada do governo em meados de 2027 reforça a hipótese de um dólar mais fraco no próximo verão (do hemisfério norte)", avalia o ING.
