Onde fica o Uzbequistão? O país do algodão e da Rota da Seda vive sua 1ª Copa

Duas décadas após ter erguido o troféu da Copa do Mundo como capitão da Itália, o renomado Fabio Cannavaro retorna aos gramados à frente de uma equipe inusitada: a seleção do Uzbequistão, um país na Ásia Central que se qualificou pela primeira vez ao torneio.
Estreou contra a Colômbia e foi derrotado por 3 a 1. Nesta terça-feira, 23, às 14h, enfrenta Portugal para tentar marcar seu primeiro ponto na competição.
O Uzbequistãoé um país sem acesso ao oceano e faz fronteira com outros cinco países também sem acesso ao mar: Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão e Turcomenistão. A capital e maior cidade é Tashkent, e a religião oficial é o Islã.
E, apesar de ser um azarão no futebol, pouco se sabe sobre o país em geral. Mesmo assim, o Uzbequistão tem uma longa história que remonta à antiguidade, e as heranças dessa época definem o país até hoje.
Uma das curiosidades é que o Uzbequistão é um dos principais produtores de algodão do mundo. Em 2024, arrecadou US$ 1,43 bilhão, segundo dados do Observatory of Economic Complexity, plataforma que analisa em profundidade o cenário econômico de países.
Muitas pessoas interpretam a faixa branca na bandeira tanto como referência à paz quanto à colheita de algodão no país, prática que remonta à antiguidade.
O ouro branco do Uzbequistão: da Rota da Seda aos dias de hoje
Campo de algodão pronto para a colheita: commodity está no coração da identidade e economia Uzbeque há mais de mil anos (dhughes9/Getty Images)
O país asiáticofoi uma peça central em séculos de conquistas, ao ver alguns dos maiores generais da história ocuparem suas cidades e sobreviver por mais de 2 mil anos a transformações que derrubaram impérios.
A cidade que hoje é Tashkent foi conquistada por Alexandre, o Grande, em 329 a.C. e, sob ocupação grega, passou a ser conhecida como Markanda. Séculos depois, em 1220, outro grande líder da história, o imperador mongol Gengis Khan, também conquistou a cidade, que se encontrava em posição estratégica no coração da Rota da Seda.
Nesse período, a região que hoje compõe o país se consolidou como um dos principais centros comerciais dessa rota, que conectava a China ao Mediterrâneo. A cidade de Samarcanda, em específico, situada no leste do Uzbequistão e diretamente no percurso da Rota da Seda, tornou-se um dos principais polos comerciais e espirituais da região, conhecida como “A Jóia da Rota da Seda”.
O crescimento de Samarcanda foi impulsionado principalmente pelo comércio de algodão e têxteis dessa fibra, uma mercadoria tão valiosa quanto a própria seda, que dá nome à histórica rota.
Situada no cruzamento das rotas que ligavam a China, a Índia, a Pérsia e o Mediterrâneo, Samarcanda transformou-se em uma das cidades mais ricas e influentes do mundo antigo. No século XIV, durante o auge do império de Tamerlão, imperador turco-mongol e herói nacional uzbeque, a cidade foi transformada em uma vitrine de poder, reunindo os mais renomados arquitetos, artesãos, filósofos, tecelões e metalúrgicos de diferentes partes da Ásia.Impulsionada pelas riquezas da Rota da Seda, a metrópole floresceu como centro comercial e cultural do que hoje é o Uzbequistão. Seus monumentos mais célebres, como a necrópole de Shah-i-Zinda e a majestosa Registan, permanecem como símbolos de uma era em que as fortunas da rota eram convertidas em obras monumentais de pedra, azulejo e poder político.E essa herança do passado continua até hoje: o algodão segue como peça central tanto da economia quanto da cultura do país. O Uzbequistão é atualmente o sétimo maior produtor da commodity no mundo. O algodão uzbeque segue em alta demanda desde o período da Rota da Seda, com seus têxteis tradicionais, como Suzani e Ikat, tecidos à mão, que inclusive encontraram espaço no mundo da moda, fazendo parte da coleção de verão e primavera da Gucci em 2010.
A colheita do algodão é uma parte tão importante da cultura do Uzbequistão que mais de dois milhões de pessoas são mobilizadas todos os anos para participar da safra anual.
Porém, nas últimas décadas, a indústria de algodão do Uzbequistão foi acusada de trabalho forçado e condições de trabalho inadequadas, atraindo fortes críticas internacionais. A partir de 2022, reformas no setor resultaram em mudanças na cadeia produtiva; naquele ano, a colheita foi a primeira em mais de uma década na qual a Organização Internacional do Trabalho (OIT) não encontrou evidências de abusos.
Com o setor representando até 25% do PIB uzbeque, somando receitas de exportação e geração de empregos, segundo a BBC, a consolidação de uma produção mais regular e monitorada representa um passo relevante para o país.
