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23/10/2026
5 min

Operadoras do interior do Brasil se aliam à rival de Musk para levar satélite ao celular

Brisanet, Unifique e Iez! vão ceder frequências de 700 MHz à americana AST SpaceMobile; serviço depende da Anatel e ainda não tem data

Operadoras do interior do Brasil se aliam à rival de Musk para levar satélite ao celular

Uma operadora que começou vendendo internet via rádio no interior do Ceará, outra que nasceu como provedor de internet discada em Santa Catarina e uma terceira criada por uma fabricante de equipamentos de telecomunicações querem agora conectar celulares diretamente do espaço.

A Brisanet, a Unifique e a Iez! Telecom assinaram em conjunto um acordo comercial com a americana AST SpaceMobile para oferecer banda larga móvel via satélite direto em smartphones, em todo o território brasileiro. O anúncio foi feito em fatos relevantes nesta sexta-feira, 23.

A tecnologia, conhecida como direct-to-device (D2D), é a mesma que a Starlink, de Elon Musk, tenta trazer ao país. Até agora, nenhuma oferta comercial do tipo foi lançada no Brasil.

Como funciona o satélite no celular

Na prática, o satélite funciona como uma torre de celular em órbita. O cliente mantém o chip e o aparelho que já tem, sem acessórios, atualizações ou aplicativos especiais, e passa a ter sinal fora do alcance das redes terrestres.

A proposta é viabilizar chamadas de voz, dados em banda larga e vídeo em smartphones comuns. A constelação usada será a da AST, formada por satélites de baixa órbita.

Pelo acordo, as três operadoras vão disponibilizar as frequências da faixa de 700 MHz que já detêm. Também ficarão responsáveis por investir nos gateways, as estações em solo que conectam as redes móveis à constelação de satélites.

Os termos definitivos do contrato ainda estão em negociação, e as empresas não divulgaram valores nem a divisão dos investimentos entre elas. A transação depende de autorizações e licenças da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Para as operadoras, o atrativo é ampliar a cobertura sem construir novas torres. Segundo José Roberto Nogueira, fundador e CEO da Brisanet, a parceria complementa a rede da empresa e leva voz e banda larga móvel além do alcance da infraestrutura terrestre.

Na Unifique, listada na B3 sob o código FIQE3, o diretor-presidente Fabiano Busnardo apresentou o satélite como o próximo passo da companhia, depois da fibra óptica e do 5G.

Do Nordeste ao Sudeste: quem são as três operadoras

As três têm origens diferentes, mas um ponto em comum: arremataram lotes regionais no leilão do 5G de 2021 e hoje disputam a telefonia móvel com Claro, Vivo e TIM fora dos grandes centros. Cada uma atua em uma região diferente do país.

A Brisanet foi fundada em 1998 em Pereiro, com a proposta de levar conectividade ao interior nordestino. Em 2010, já era a maior operadora de internet via rádio do país. A partir de 2011, migrou para a fibra óptica.

A companhia abriu capital na B3 em julho de 2021. No mesmo ano, venceu lotes regionais do leilão do 5G no Nordeste e no Centro-Oeste e passou a atuar também como operadora móvel.

Ao fim de maio de 2026, a empresa somava 1.578.364 casas conectadas, das quais 1.540.007 por fibra até a residência. No mesmo mês, a operação móvel ultrapassou 1 milhão de acessos, quase o dobro de um ano antes.

O próximo território é o Centro-Oeste. A Brisanet começou a vender chips na região em agosto, com investimento de R$ 100 milhões. A meta é chegar a 115 municípios, sendo 62 em Goiás e 53 em Mato Grosso do Sul, com foco em cidades de pequeno e médio porte.

A Unifique surgiu em novembro de 1997 em Timbó, no Vale do Itajaí, com o nome TPA (Timbó Provedor de Acesso), vendendo internet discada. A marca atual foi adotada em 2014, com a expansão pelo estado.

Em 2021, a empresa levantou R$ 818 milhões no primeiro IPO de um provedor regional na B3, dias antes da estreia da Brisanet. No mesmo ano, venceu o leilão do 5G na faixa de 3,5 GHz em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Ao fim de junho de 2026, a Unifique tinha 909 mil assinantes de banda larga fixa e 337 mil acessos móveis, quase o dobro de um ano antes. A meta é encerrar 2026 com cobertura móvel em 440 cidades, com a entrada em São Paulo e no Paraná.

A Iez! é a mais nova das três. A operadora pertence ao Grupo Greatek, fabricante de equipamentos de telecomunicações fundada em 1997, com produtos como amplificadores de sinal para antenas parabólicas.

Pela empresa Cloud2U, o grupo arrematou em 2021 a licença regional de 5G em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. A marca Iez! foi lançada em 2023. Neste ano, a operadora também venceu um lote da faixa de 700 MHz para os três estados.

O modelo da Iez! se apoia em parcerias com provedores regionais de internet, que usam sua rede para vender serviços móveis com a própria marca nas cidades do interior.

A rival de Musk

A parceira escolhida pelas três disputa com a Starlink o mercado de conexão direta entre satélite e celular. Com sede no Texas e ações listadas na Nasdaq, a AST desenvolve uma rede de baixa órbita pensada como extensão das redes móveis, e não como substituta delas.

A empresa ainda está na fase de construção da constelação. No segundo trimestre de 2026, faturou US$ 31,5 milhões, principalmente com a entrega de gateways a operadoras e com contratos do governo americano.

A AST mantém a projeção de receita entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões para o ano. A meta é ter cerca de 45 satélites BlueBird em órbita até o início de 2027.

A Starlink já oferece o serviço direto no celular em outros países, sempre por meio de operadoras parceiras. Nos Estados Unidos, a parceira é a T-Mobile.

No Brasil, a empresa de Musk tem 791 mil acessos de banda larga fixa via antena, segundo dados da Anatel de maio, e é a 13ª maior provedora do país. A própria Starlink fala em mais de 1 milhão de assinantes, por metodologia própria.

No celular, porém, a Starlink depende de uma operadora parceira, porque o sinal usa as frequências da tele e o serviço não é vendido diretamente ao consumidor.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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