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BússolaACS
26/06/2026
5 min

Opinião: o imediatismo dos jovens não deve ser freado, mas canalizado

Opinião: o imediatismo dos jovens não deve ser freado, mas canalizado

Por Luiz Bittencourt Júnior*

Vivemos um momento muito particular no mercado de trabalho: cinco gerações convivem no mesmo espaço profissional. Baby boomers, geração X, Z e agora a geração Alpha chegando. Esse encontro, cada vez mais documentado por estudos sobre o futuro do trabalho, é uma das transformações mais desafiadoras e ricas para quem lidera pessoas.

O impacto da convivência geracional nas empresas

Segundo pesquisa da Deloitte (2024), cerca de 70% das empresas globais já têm ao menos três gerações trabalhando lado a lado. No Brasil e em escala global, estudos como o da PwC Brasil em parceria com a FGV EAESP destacam que 95% dos profissionais reconhecem os benefícios da convivência entre diferentes faixas etárias; e pesquisas do Boston Consulting Group apontam que empresas com maior diversidade geracional obtêm 19% mais receita proveniente de inovação. Na Whirlpool, não é diferente.

Se, por um lado, as novas gerações carregam o frescor de quem nasceu em meio ao dinamismo digital, por outro trazem consigo um traço bastante marcante: o imediatismo. É um comportamento moldado por uma vida inteira de respostas instantâneas, do streaming ao acesso ilimitado ao conhecimento com um clique.

Somado a isso, a cultura da comparação, intensificada pelas redes sociais, estimula os jovens a medirem seu sucesso pelo que veem nos outros, muitas vezes em posições artificiais ou inalcançáveis.

Esse fenômeno, já bem estudado academicamente, amplia a pressão por resultados rápidos e muda a forma como os jovens encaram suas carreiras: querem acelerar, conquistar e transformar em ritmo exponencial. E, ao mesmo tempo, muitos nem almejam posições de liderança. É uma outra medida de sucesso.

A quilometragem da experiência prática

Lembro de um caso que ficou comigo: um estagiário me perguntou, com toda a seriedade, qual era, afinal, a diferença entre ele e o presidente da companhia. A resposta foi simples e verdadeira: humanamente, absolutamente nenhuma. O que muda é a quilometragem.

Existem aprendizados, como liderar em tempos de crise ou tomar decisões sob pressão extrema, que só podem ser adquiridos na prática.

A verdade é uma só: a experiência é insubstituível. E aí está o ponto central do nosso papel como líderes e gestores de pessoas: oferecer meios para que essas novas gerações acelerem seu aprendizado sem abrir mão da jornada. É preciso criar ambientes em que os talentos se sintam desafiados e apoiados ao mesmo tempo.

Isso exige um RH protagonista, que vá além da gestão de processos e assuma o papel de arquiteto da cultura, conectando expectativas individuais ao propósito coletivo.

O papel do PDI no desenvolvimento estratégico

Na Whirlpool, o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) tem sido uma das principais ferramentas nessa jornada. Ele permite que cada colaborador trace seus objetivos de crescimento de forma personalizada, alinhando aspirações pessoais ao nosso Modelo de Liderança, com metas de curto prazo (habilidades técnicas) e competências de longo prazo (liderança e resiliência).

Apoiado por treinamentos e conversas de desenvolvimento, o PDI funciona como um guia vivo, que se atualiza conforme as metas evoluem. O resultado é claro: profissionais mais preparados e engajados, que impulsionam a competitividade e a capacidade de inovação da organização.

Canalizando a energia para a inovação

O caminho não está em frear o imediatismo, mas em canalizá-lo. Empresas precisam transformar essa energia em força de inovação e adaptabilidade. Ao designar equipes multidisciplinares com jovens à frente de projetos de transformação digital, aproveitamos sua agilidade e familiaridade com a tecnologia, gerando resultados rápidos e tangíveis.

O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, reforça que os profissionais mais valorizados serão aqueles que combinam domínio técnico com capacidade de liderar mudanças e aprender rapidamente. Essa mentalidade? Os jovens têm de sobra.

Por outro lado, cabe às organizações criar estruturas claras de desenvolvimento como os programas de mentoria intergeracional, nos quais a sabedoria dos mais experientes orienta o dinamismo dos mais jovens, enquanto estes trazem novas perspectivas e conhecimentos digitais aos mentores. Uma troca de valor inestimável.

O uso de dados para personalizar trilhas de carreira e os espaços de diálogo sobre performance ajudam a equalizar expectativas e reforçam que crescimento sustentável depende tanto de aprendizado técnico quanto de maturidade comportamental.

Pontes para um futuro colaborativo

A coexistência de quatro gerações no ambiente de trabalho é, sim, um desafio. Mas é também uma oportunidade inédita de aprendizado coletivo. Se conseguirmos equilibrar a energia transformadora dos mais jovens com a sabedoria acumulada dos mais experientes, vamos construir organizações mais diversas, adaptáveis e preparadas para o que está por vir.

No fim, o que nos diferencia não é a idade, é a forma como escolhemos aprender e nos reinventar juntos. É necessário que líderes e empresas abracem essa diversidade geracional, investindo ativamente na construção de pontes e na valorização de cada etapa da jornada profissional, para desvendar um futuro de colaboração e sucesso sustentável.

*Luiz Bittencourt Júnior é diretor de Recursos Humanos da Whirlpool no Brasil

AutorBússola
FonteExame
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