Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
01/09/2026
7 min

Os 4 pontos para entender por que o PIB cresceu 0,5% no 2º tri de 2026

Agropecuária, gasto do governo e investimentos compensaram a perda de força do consumo das famílias e dos setores mais sensíveis aos juros

Os 4 pontos para entender por que o PIB cresceu 0,5% no 2º tri de 2026

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, na comparação com os três meses anteriores, em linha com as expectativas do mercado. O resultado, porém, veio com uma composição que revela uma economia perdendo força, com queda de 0,4% no consumo das famílias e avanços de agropecuária, gastos do governo e investimentos sustentando a atividade.

Para Felippe Serigatti, coordenador do FGV Agro, o crescimento veio acompanhado de uma mudança importante na dinâmica da economia.

“O crescimento de 0,5% no trimestre e de 2% quando a gente compara o segundo trimestre deste ano com o segundo trimestre do ano passado não traz grandes novidades. A parte mais interessante está justamente na composição”, diz.

Antônio Ricciardi, economista do Banco Daycoval, também considera que o resultado veio acima do esperado pela instituição, que projetava alta de 0,3%. Para ele, porém, a surpresa positiva ficou concentrada em setores menos sensíveis à política monetária.

“Quando a gente olha com mais detalhe o PIB divulgado, parece que os itens cíclicos, ou aqueles mais sensíveis à política monetária, desaceleraram de forma mais forte, e o que sustentou o movimento foram os itens não cíclicos, principalmente a agropecuária”, afirma.

Celso Toledo, economista e diretor da E2, faz uma ressalva sobre essa leitura. Para ele, o principal recado do PIB não está no desempenho da agropecuária, mas na perda de fôlego da economia como um todo.

“O ponto principal me parece ser a desaceleração na margem, esperada, ainda que tenha havido uma surpresa para cima. A economia perdeu fôlego, a despeito dos diversos estímulos. Isso é o essencial”, afirma.

Agropecuária puxa economia

A agropecuária cresceu 2,8%no segundo trimestre, o melhor desempenho entre os grandes setores da economia. O resultado foi favorecido pela produção agrícola e pela pecuária.

Para Serigatti, o desempenho do campo foi determinante para o resultado, especialmente diante do ritmo mais fraco de serviços e indústria.

“Se diversos setores desaceleraram mais do que no primeiro trimestre ou chegaram até mesmo a uma contração, de onde veio esse crescimento pelo lado da oferta no topo das expectativas? Justamente na agropecuária”, afirma.

Ricciardi também aponta o agro como principal responsável pela surpresa positiva do PIB.

“A gente teve um excelente desempenho do agro, variando quase 3% na passagem de um trimestre para o outro, enquanto nossa expectativa era de uma variação mais tímida”, diz.

Toledo, porém, pondera que o desempenho trimestral da agropecuária deve ser interpretado com cautela.

“O fato de ter sido ‘puxado pela agropecuária’ me parece ser menos relevante. A atividade da agropecuária é anual. A divisão trimestral e ainda por cima ajustada para a sazonalidade é algo que costuma gerar surpresas, mas com pouca significância econômica”, afirma.

Serigatti também chama atenção para o efeito do calendário agrícola. O aumento dos abates e a produção de grãos contribuíram para o resultado, mas boa parte da contribuição do setor tende a ficar concentrada no primeiro semestre.

“A principal safra a gente colhe no primeiro trimestre. A maior fração da nossa segunda safra a gente colhe no segundo trimestre”, explica.

Por isso, a contribuição da agropecuária tende a ser menor no segundo semestre. O plantio, que ganha importância a partir de agora, prepara a produção que será contabilizada no PIB do ano seguinte.

Gasto do governo

Pelo lado da demanda, o consumo do governo cresceu 0,4% entre abril e junho. O avanço ajudou a compensar a retração de 0,4% no consumo das famílias.

O movimento chamou a atenção de Serigatti justamente porque ocorreu em um momento de perda de força da demanda privada.

“A gente já esperava uma desaceleração do consumo das famílias, mas o que esse número trouxe foi uma contração de 0,4%. E tivemos um gasto do governo crescendo acima do esperado”, afirma.

Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, a expansão do consumo público está relacionada ao impulso fiscal e ajudou a sustentar o resultado.

“Justamente porque o governo tem gastado muito, uma expansão fiscal desenfreada, por isso que aumentou o consumo da administração pública”, diz.

A dinâmica, segundo os economistas, ajuda a explicar por que o PIB conseguiu avançar mesmo com uma queda no principal componente da demanda.

Mas Toledo vê o movimento com cautela. Para ele, o resultado mostra que os estímulos ainda conseguem sustentar partes da economia, mas não impediram a perda de dinamismo. “A economia perdeu fôlego, a despeito dos diversos estímulos. Isso é o essencial”, afirma.

Investimentos

O terceiro suporte veio dos investimentos. A Formação Bruta de Capital Fixo cresceu 1,2% no segundo trimestre. Entre os componentes da demanda, o resultado foi positivo e, para Toledo, representa uma das notícias mais favoráveis do PIB.

“Economicamente, o crescimento mais forte dos investimentos, provavelmente liderados pela infraestrutura, é um resultado positivo”, afirma o diretor da E2+.

O avanço dos investimentos ajudou a compensar a queda do consumo das famílias e mostra que nem todos os componentes da demanda perderam força.

A composição setorial, no entanto, reforça a percepção de uma economia mais fraca. A indústria cresceu apenas 0,1%, enquanto os serviços avançaram 0,2%. Na indústria de transformação, houve retração de 0,4%.

Para Ricciardi, essa diferença é importante porque os setores mais dependentes das condições financeiras estão justamente entre os que mais desaceleraram.

“Os itens cíclicos, ou seja, aqueles mais sensíveis à política monetária, mostraram um arrefecimento até maior do que o antecipado”, afirma.

Consumo e juros

O dado mais fraco pelo lado da demanda foi o consumo das famílias, que recuou 0,4% no trimestre. O resultado reforça a percepção de que os juros elevados e o endividamento começam a limitar a atividade.

Para Agostini, esse é um dos sinais mais claros de que a política monetária está chegando à economia real.

“A gente acredita ainda que a economia brasileira no segundo semestre vai sentir os efeitos negativos da alta taxa de juros. A gente pode ver muito isso pelo endividamento das famílias, que acabou impactando no consumo das famílias do PIB”, afirma.

Ricciardi também espera continuidade desse movimento. Segundo ele, a desaceleração do mercado de trabalho e da massa salarial deve reduzir o ritmo dos componentes mais sensíveis à política monetária.

Toledo tem uma leitura semelhante. Para ele, a combinação entre juros elevados e incerteza deve manter a demanda retraída.

“Não acredito que o quadro mudará qualitativamente daqui para frente. Exceto pelo impulso da infraestrutura, positivo e relativamente independente do ciclo, imagino uma demanda retraída pelos juros elevados e pela incerteza sobre o que vem pela frente”, afirma.

Economia no 2º semestre

O resultado de 0,5% no segundo trimestre não significa que a economia tenha ganhado força. Para os quatro economistas, a principal mensagem é de desaceleração, ainda que o PIB continue crescendo.

A diferença está na intensidade esperada para os próximos meses. O Daycoval trabalha, por enquanto, com crescimento de 0,15% a 0,2% no segundo semestre, embora Ricciardi ressalte que as contas ainda serão revisadas. O banco elevou sua projeção para o PIB de 2026 de 1,7% para 1,8%.

Na Austin Rating, Agostini projeta crescimento zero no terceiro trimestre e alguma recuperação no último trimestre, dependendo da evolução do cenário econômico.

“O Brasil ainda tem desafios muito grandes na questão fiscal internamente. Esse tem sido o calcanhar de Aquiles no país”, afirma.

O BTG Pactual mantém projeção de 2% para o PIB em 2026, enquanto a XP também estima crescimento de 2%. As duas instituições, porém, esperam uma economia mais fraca em 2027.

Para Toledo, a fotografia atual deve continuar relativamente estável nos próximos meses.

“A economia perdeu fôlego, a despeito dos diversos estímulos. Não acredito que o quadro mudará qualitativamente daqui para frente”, afirma.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
Distribuído por