Os EUA têm o exército mais forte do mundo. Mas falta munição
Conflitos recentes expuseram falhas logísticas americanas, que gasta munições caras e de alta tecnologia com mais rapidez do que pode produzi-las

Os Estados Unidos seguem como a maior potência militar do mundo, mas sua capacidade de sustentar guerras prolongadas pode depender de um fator menos visível do que caças, porta-aviões ou sistemas de alta tecnologia: a quantidade de armas disponíveis, uma fraqueza revelada pelo conflito atual no Irã, que drenou os estoques de seus arsenais.
Um novo estudo do Center for Strategic and International Studies (CSIS) sustenta que o país precisa reconstruir e reformular sua base industrial de munições diante do novo perfil dos conflitos.
As guerras tanto no Irã quanto na Ucrânia expuseram os limites dos estoques dos EUAe intensificaram a preocupação com a possibilidade de conflitos simultâneos e prolongados.
Segundo a análise, o avanço da defesa aérea, o ritmo acelerado dos combates e o uso em massa de drones e mísseis aumentam a pressão sobre a capacidade de produção de armamentos americana.
O desafio não é apenas fabricar mais armas, mas também mudar a composição do arsenal, alerta o CSIS. O Pentágono começa a abandonar uma dependência excessiva de sistemas sofisticados e caros, e também a ampliar o número de mísseis, interceptadores e drones de menor custo, que possam ser produzidos em grande escala.
A mudança aparece nos pedidos orçamentários de 2027. A solicitação de interceptadores Patriot PAC-3 MSE aumentou 839% em relação a 2026, enquanto a de sistemas THAAD cresceu 2.216% e a de mísseis Tomahawk avançou 1.740%, em uma tentativa de reconstruir estoques considerados essenciais.
Essas armas de alto desempenho, porém, foram concebidas principalmente para maximizar a capacidade e a precisão, e não para a produção em massa.A fabricação de alguns sistemas pode levar de 25 a 51 meses, aponta o estudo, o que cria um problema logístico caso os estoques sejam consumidos rapidamente em um conflito de alta intensidade.
Reforma na produção
Drone da Força Aérea americana: armamentos de alta tecnologia podem dar lugar à equipamentos mais simples e de mais fácil produção (AFP/USAF/James Lee Harper Jr.)
É nesse espaço que entram as armas de menor custo. O Pentágono lançou programas voltados à produção acelerada de drones, mísseis de cruzeiro e interceptadores mais baratos, apostando em sistemas que possam ser fabricados em maior quantidade e utilizados contra ameaças como enxames de drones.
Um dos principais exemplos é o Drone Dominance Program, criado em 2025, com um orçamento de US$ 1,1 bilhão, para ampliar a produção doméstica de pequenos drones. A iniciativa prevê colocar cerca de 340 mil unidades em operação até o fim de 2027, evidenciando a escala que Washington considera necessária para os conflitos atuais.
Outros programas seguem a mesma lógica. A Força Aérea pretende adquirir mais de 27 mil mísseis de cruzeiro por meio do Family of Affordable Mass Missile, enquanto o Exército busca milhares de interceptadores de baixo custo e o Pentágono aposta em novas empresas para acelerar a produção.
O estudo mostra que a diferença entre os dois modelos também se reflete no tempo necessário para colocá-los em operação. Enquanto sistemas tradicionais podem levar anos para ampliar sua capacidade industrial, programas de baixo custo foram estruturados para aproximar a velocidade de produção daquela da indústria comercial.
Essa mudança já começa a alterar o perfil do arsenal americano. Cerca de 49% das munições solicitadas pelo Departamento de Defesa para 2027 custam menos de US$ 600 mil por unidade; nas projeções para 2031, essa parcela supera 70%. A estratégia passa a priorizar não apenas a profundidade dos estoques, mas também a variedade.
Apesar disso, transformar anúncios em armas disponíveis continua sendo um obstáculo. Acordos plurianuais entre o governo e fabricantes servem como sinal de demanda, mas não equivalem a recursos efetivamente aprovados pelo Congresso, a contratos assinados pelo Pentágono ou à capacidade industrial entregue pelas empresas.
O setor privado, por sua vez, já começou a ampliar os investimentos. Empresas que assinaram acordos com o Departamento de Defesa registraram, em conjunto, um aumento de 31% nos gastos de capital no segundo trimestre, enquanto companhias como Lockheed Martin e L3Harris anunciaram bilhões de dólares em investimentos para ampliar fábricas, equipamentos e cadeias de fornecimento, aponta o CSIS.
Ainda assim, aumentar a produção não garante automaticamente maior poder de combate. As novas armas precisarão ser testadas, aprovadas em combate e integradas às operações militares e incorporadas aos planos dos comandantes, que terão de decidir quando utilizar sistemas sofisticados e quando recorrer a alternativas mais baratas e numerosas.
É nesse ponto que o estudo coloca uma questão maior sobre o futuro da superioridade militar americana. A vantagem dos EUA pode depender menos de possuir as armas mais avançadas do mundo do que da capacidade de produzir rapidamente uma combinação ampla de sistemas, repor estoques e sustentar operações por longos períodos.
Para os autores, a reconstrução da base industrial de munições é urgente, mas ainda pode colocar os Estados Unidos na direção certa. A capacidade de restaurar estoques, acelerar a implantação de novas linhas de produção e combinar armas de alto desempenho com sistemas de baixo custo será fundamental para preservar a dissuasão americana diante de guerras cada vez mais longas, intensas e tecnológicas.
