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15/06/2026
6 min

Os filhos de Francisco transformaram ovos em cervejaria que mira R$ 100 mi

Os filhos de Francisco transformaram ovos em cervejaria que mira R$ 100 mi

Os Filhos de Francisco transformaram ovos em cervejaria que mira R$ 100 mi

Lohn Bier, de Lauro Müller, no Sul de Santa Catarina, redesenha portfólio, aposta em wellness e transforma nova linha em 20% do faturamento

Na música sertaneja, Os Filhos de Francisco viraram símbolo da força de um pai capaz de acender o sonho dos filhos. Em Lauro Müller, município de 14,6 mil habitantes no Sul de Santa Catarina, aos pés da Serra do Rio do Rastro, outra família também teve em Seu Chico a ignição de uma virada improvável.

A diferença é que, em vez da música, os filhos de Francisco Felisbino e Filomena Lohn Felisbino transformaram, literalmente, ovos de granja em uma das cervejarias independentes que mais cresce na região Sul do país.

A trajetória empresarial da família começou em 1989, com a fundação da Avícola Catarinense. A operação cresceu, ganhou escala e chegou ao pico de 6 milhões de pintinhos por mês. As aves, com apenas 24 horas de vida, abasteciam alguns dos principais players da agroindústria de Santa Catarina.

Em 2013, Seu Chico, como é conhecido, decidiu vender o negócio. A disciplina operacional aplicada por ele na avicultura e o incentivo permanente para que os filhos acreditassem no próprio caminho foram fundamentais para empreender em um mercado até então desconhecido por eles.

Depois da venda da avícola, Eduardo Felisbino, hoje CEO da Lohn Beer, Tatiani Felisbino Brighenti, diretora de marketing, e Ricardo Felisbino, diretor financeiro, decidiram levar para outro setor a cultura de trabalho aprendida com o pai. A eles se juntou Richard Brighenti, marido de Tatiani, diretor de novos projetos e mestre cervejeiro responsável pelas receitas da marca. Em 2014, nascia a Lohn Bier.

“Nós crescemos vendo nosso pai não ter sábado, domingo ou feriado para construir a empresa. Ele acordava durante a madrugada, a cada três horas, para conferir se as condições do incubatório, onde os ovos eram chocados, estavam ajustadas. Essa dedicação virou uma referência para todos nós. Naturalmente, ele despertou em nós o espírito empreendedor”, afirma Tatiani, sem esconder a emoção ao falar da importância do pai.

Fundada em meio ao boom das chamadas cervejarias artesanais no Brasil, a Lohn começou envasando 16 mil litros por mês. Pouco mais de uma década depois, consolida-se como uma marca independente de chope e cerveja que conquista cada vez mais espaço nas gôndolas das principais redes de supermercados de Santa Catarina e avança para o Rio Grande do Sul e o Paraná.

A linha de produção atual tem capacidade para 500 mil litros mensais e meta de chegar a 1 milhão de litros por mês até 2030, com receita projetada na casa dos R$ 100 milhões.

A escala também aparece no desempenho recente. No primeiro trimestre de 2026, a Lohn cresceu 100% em vendas em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionada pela ampliação da presença no varejo e pela adaptação do portfólio aos novos hábitos de consumo.

A mudança de patamar também exigiu uma revisão no portfólio. Richard explica que uma das decisões estratégicas foi reduzir o número de variações de cerveja e chope para ganhar escala, eficiência e presença no varejo, mantendo a qualidade e o frescor da bebida como diferenciais.

“Hoje temos uma linha mais enxuta, diferentemente de alguns anos atrás, quando eram oferecidos inúmeros sabores. Agora, focamos cada vez mais nas nossas linhas que são referência pela qualidade, como a IPA, a Carvoeira, a Pilsen e, agora, a Ultra”, afirma Richard.

Rótulo com mais de 30 medalhas

A estratégia de enxugar o portfólio não reduziu a ambição da marca. Ao contrário. A Lohn ultrapassou a marca de 100 medalhas em concursos nacionais e internacionais e se tornou uma das cervejarias independentes mais premiadas do país.

O rótulo mais emblemático segue sendo a Carvoeira, uma Russian Imperial Stout com funghi secchi e cumaru. Sozinha, a cerveja acumula 30 medalhas internacionais e já foi eleita a melhor do mundo no World Beer Awards, na categoria Herb & Spice.

O avanço também é resultado de uma estratégia que combina capilaridade, logística refrigerada, leitura de comportamento do consumidor e aposta crescente em produtos ligados ao mercado de bem-estar. Um dos principais movimentos foi levar para o varejo uma experiência antes muito associada ao consumo em bares e torneiras: o chope não pasteurizado.

Hoje, 40% da operação da Lohn é dedicada ao chope em garrafas PET de 1 litro, com distribuição semanal e cadeia 100% refrigerada para supermercados.

A lógica é complexa. Para manter o frescor do produto, a marca assumiu o desafio de abastecer lojas em diferentes regiões sem permitir oscilações de temperatura.

Na prática, criou uma estrutura de supply chain para fazer o chope sair da fábrica e chegar à gôndola com características próximas às do consumo imediato. A rota mais longa é até Curitiba, uma viagem de sete horas do caminhão refrigerado entre a sede da fábrica, no Sul de SC, e o mercado paranaense.

Cervejaria independente produz cerca de 500 mil litros por mês e projeta atingir a marca de 1 milhão de litros em 2030 (Divulgação/Divulgação)

Mas o movimento mais recente está em outra fronteira: o mercado de wellness. Com consumidores mais atentos a calorias, glúten, rotina esportiva e equilíbrio alimentar, a cervejaria lançou a Cerveja Ultra, sem glúten, com baixo teor calórico e 4% de volume alcoólico.

A resposta foi rápida. Em poucos meses, o rótulo passou a representar 20% do faturamento. Na prática, a cada cinco litros vendidos pela Lohn, um já é da nova Ultra. “Esse tipo de incremento nasce de uma combinação que considero essencial: leitura de mercado, experiência prática da equipe, inteligência comercial e uso cada vez mais estratégico de IA na gestão”, diz Eduardo.

A nova etapa da estratégia é o lançamento da Ultra em lata, formato que amplia o acesso ao produto e coloca a marca em uma disputa mais direta com grandes rótulos nacionais e estrangeiros. A distribuição está em expansão e a bebida chega às prateleiras das principais redes de supermercados de Santa Catarina ao longo deste mês.

“A novidade oportuniza que outros consumidores acessem a nossa marca, que tradicionalmente não trabalhava com esta embalagem. É uma receita brasileira que disputará e continuará disputando espaço com as marcas estrangeiras no mercado do nosso país, que adora esse estilo”, avalia Richard.

A Carvoeira ajudou a projetar Lauro Müller no mapa global da cerveja. Agora, a Ultra mostra que a marca quer ocupar também outro território: o das bebidas independentes adaptadas a novos hábitos de consumo.

O resultado é uma empresa que nasceu de uma granja, cresceu com DNA familiar, ganhou reputação internacional com rótulos autorais e agora avança com a nas gôndolas das grandes redes de supermercados. Dos ovos ao chope, da avicultura ao wellness, os filhos de Francisco e Filomena encontraram um novo jeito de transformar produção em negócio.

AutorRafael Martini
FonteExame
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