Os 'herdeiros' de Steve Jobs: entre Cook e Ternus, qual CEO vale mais a pena para a Apple?
Com a saída de Tim Cook, John Ternus assume o comando da Apple com o desafio de manter a eficiência operacional do antecessor e reacelerar a inovação em produtos e inteligência artificial na era pós-Jobs

Tim Cook construiu sua reputação, ainda como executivo de operações da Apple, por reuniões que podiam durar de cinco a seis horas seguidas — interrogando cada gerente sobre planilhas e números e com um copo de refrigerante Mountain Dew nas mãos, segundo reportagem do Wall Street Journal de 2014. "Fale sobre seus números. Abra sua planilha", dizia, enquanto passava página por página, slide por slide, sem deixar nenhum detalhe operacional escapar.
Um ex-executivo da loja online da Apple contou à CNN Money, em 2008, que tinha ingressos para ver o time de beisebol Mets naquela noite — mas seguiu preso em uma sala de reunião com Cook até tarde, bombardeado por perguntas enquanto observava o relógio "como uma criança na escola".
Foi esse estilo obsessivo por dados e processos que Cook levou ao cargo de CEO de uma das maiores empresas do mundo, em 24 de agosto de 2011,um dia depois de Steve Jobs renunciar ao posto em meio à doença que o levaria à morte poucas semanas depois.
É fato que Cook nunca foi conhecido como um grande revolucionário da tecnologia como seu antecessor, mas, passados 15 anos, Cook deixa a Apple avaliada em mais de US$ 4 trilhões — contra os cerca de US$ 350 bilhões que a empresa valia quando ele assumiu.
Nesta terça-feira, 1º, Cook passa o bastão de CEO da big tech paraJohn Ternus, engenheiro formado em uma escola bem diferente dentro da própria Apple: a da engenharia de produto, não a das operações.
Conhecido como o "arquiteto do iPhone", a expectativa entre analistas é de que Ternus preserve o legado de Cook, mas com maior apetite ao risco — investindo mais em pesquisa e desenvolvimento, e avançando com mais rapidez em categorias ainda emergentes para a Apple, como óculos com inteligência artificial (IA) e robótica.
Duas gerações, idades parecidas no comando
Cook nasceu em 1º de novembro de 1960, em Mobile, no Alabama, e completa 65 anos ainda em 2026.
Já Ternus nasceu em maio de 1975, também nos Estados Unidos, e tem hoje 51 anos — uma diferença de 14 anos entre os dois executivos.
Enquanto Cook assumiu o comando da Apple relativamente perto dos 51 anos, Ternus chega ao posto com a mesma idade que seu antecessor tinha ao virar CEO — mas depois de uma trajetória interna quase duas vezes mais longa dentro da empresa.
A era John Ternus: o que muda na Apple com a saída de Tim CookDo perfil de finanças à engenharia mecânica
Os dois têm formação em engenharia, mas em áreas distintas. Cook se formou em engenharia industrial pela Universidade Auburn e fez MBA na Universidade Duke — um perfil mais voltado a operações, cadeia de suprimentos e gestão financeira.
Ternus se formou em engenharia mecânica pela Universidade da Pensilvânia, em 1997, e chegou a competir pelo time de natação da universidade, sendo reconhecido como um dos atletas mais premiados da história da equipe.
Seu projeto de conclusão de curso foi um braço mecânico de alimentação, controlado por movimentos de cabeça, pensado para pessoas com tetraplegia — um sinal precoce do interesse por acessibilidade que acompanharia sua carreira.
Antes da Apple, trabalhou por quatro anos como engenheiro mecânico na Virtual Research Systems, empresa californiana especializada em headsets de realidade virtual.
A trajetória de Cook e Ternus na Apple
Cook entrou na Apple em março de 1998, como vice-presidente sênior de operações mundiais, contratado pelo próprio Steve Jobs — décadas depois, relembraria que decidiu confiar na intuição, não na lógica, para aceitar o convite, descrevendo a chance de trabalhar com Jobs como "uma oportunidade única na vida".
Nos primeiros anos, Cook fechou fábricas e armazéns próprios da empresa, substituindo-os por fabricantes terceirizados — o que reduziu o estoque da Apple de meses para dias, e mostrou a Jobs que havia encontrado o operador que faltava ao seu time.
Ternus chegou três anos depois, em 2001, como integrante júnior da equipe de design de produto, trabalhando inicialmente em monitores externos para o Mac — entre eles o Apple Cinema Display, seu primeiro projeto na empresa.
Diferentemente de Cook, que chegou já em posição de comando, Ternus subiu praticamente todos os degraus da hierarquia de engenharia da Apple: virou gerente cerca de três anos depois de entrar, vice-presidente de engenharia de hardware em 2013, e vice-presidente sênior em 2021.
Dez anos ao lado de Steve Jobs
Diferentemente de Cook, que assumiu o comando só depois da saída de Jobs, Ternus efetivamente trabalhou sob a liderança direta do cofundador da Apple por cerca de dez anos, entre 2001 e a renúncia de Jobs em 2011.
Foi nesse período que a empresa lançou o iPod, o iPhone, o iPad, o MacBook Air e a primeira Apple TV — a era mais intensa de reinvenção da companhia, quando a Apple deixou de ser uma fabricante de computadores em dificuldades para se tornar uma das empresas mais influentes do mundo.
'Não é uma pessoa de produto'
A biografia de Jobs escrita por Walter Isaacson revela uma frase reveladora do cofundador da Apple sobre seu sucessor: Jobs descrevia Cook como alguém que "não é uma pessoa de produto" — um reconhecimento de que a força de Cook estava em operações, não na criação.
É justamente nesse ponto que Ternus se diferencia do antecessor: ele construiu a carreira inteira dentro da engenharia de hardware, supervisionando o desenvolvimento de praticamente toda geração de iPad já lançada, além de AirPods, Apple Watch, iPhone e o Vision Pro — um perfil muito mais próximo do que Jobs valorizava em um executivo de produto do que o próprio Cook jamais teve.
Reuniões maratonadas vs. liderança colaborativa
Colegas descrevem Ternus como colaborativo, de baixo ego e focado em engenharia — alguém que prefere ficar perto da própria equipe a liderar de forma autoritária, segundo relato de Steve Siefert, seu primeiro chefe na Apple, ao New York Times.
É um estilo bem diferente do de Cook, conhecido por reuniões maratonas e cobrança direta de números.
Também contrasta com o próprio Jobs, showman nato, hands-on em cada detalhe de produto e temperamental — nem Cook nem Ternus são descritos dessa forma por quem trabalhou com os dois.
A cultura da Apple de formar CEOs em casa
Apesar das diferenças de formação e estilo, Cook e Ternus compartilham uma característica marcante: os dois subiram inteiramente dentro da própria Apple, sem vir de fora para assumir o comando — reforçando o padrão histórico da empresa de promover lideranças internas para o cargo mais alto.
Cook levou 13 anos entre entrar na Apple e virar CEO; Ternus levou 25 anos entre seu primeiro projeto, o Apple Cinema Display, e a cadeira de CEO — quase o dobro do tempo de espera do antecessor, mas também quase o dobro de experiência acumulada dentro da própria cultura da empresa antes de assumir o comando.
O que muda — e o que não deve mudar na Apple?
Segundo analistas, Ternus não deve promover mudanças bruscas logo de início — a expectativa é de que suas prioridades fiquem mais claras ao longo dos próximos meses, à medida que a Apple define novos planos de investimento, roteiros de produto e estratégias de aquisição.
O que já parece consenso é que ele não será cobrado para repetir exatamente o caminho de Cook, mas sim para proteger e dar continuidade à máquina que o antecessor construiu — ao mesmo tempo em que assume a responsabilidade de resolver o que Cook não conseguiu: colocar a Apple de volta no centro da conversa sobre inteligência artificial.
