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PolíticaMPOL
26/10/2026
6 min

Os motivos que levaram Lula a superar Flávio Bolsonaro, segundo especialista em opinião pública

O especialista em opinião pública e fundador da Nox, Eduardo Sincofsky, afirmou, durante participação na live do Market Makers sobre a apuração do segundo turno das eleições presidenciais, que as pesquisas qualitativas já indicavam sinais de resistência ao senador Flávio Bolsonaro (PL) entre eleitores indecisos e grupos que poderiam definir a disputa. Com 99,90% das […]

Os motivos que levaram Lula a superar Flávio Bolsonaro, segundo especialista em opinião pública

O especialista em opinião pública e fundador da Nox, Eduardo Sincofsky, afirmou, durante participação na live do Market Makers sobre a apuração do segundo turno das eleições presidenciais, que as pesquisas qualitativas já indicavam sinais de resistência ao senador Flávio Bolsonaro (PL) entre eleitores indecisos e grupos que poderiam definir a disputa.

Com 99,90% das urnas apuradas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito para o quarto mandato com 51,77% dos votos válidos, ante 48,23% de Flávio.

Segundo Sincofsky, embora as projeções quantitativas apontassem para uma vitória provável do candidato, as conversas realizadas com eleitores revelavam preocupações com o retorno a aspectos do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, além de críticas ao tom adotado por integrantes da direita durante a campanha.

Sincofsky explicou que sua análise se baseou em pesquisas qualitativas realizadas desde janeiro do ano anterior, com atenção especial aos eleitores indecisos e aos segmentos que oscilavam entre os dois campos políticos.

Para ele, o resultado também refletiu uma disputa em torno das percepções sobre o passado, as expectativas para o futuro e a capacidade de cada campanha de dialogar com diferentes grupos do eleitorado.

“Eu venho pesquisando os indecisos. O país está dividido em três terços: um terço que vota sempre no PT, um terço que vota sempre contra o PT e um terço que flutua”, detalhou Sincofsky, ao descrever a divisão do eleitorado que orientou seu trabalho.

Eleitores indecisos demonstravam incômodo com Flávio

Segundo o especialista, Flávio Bolsonaro enfrentou dificuldades para construir uma identidade política própria ao longo da campanha, inicialmente dependendo sobretudo do sentimento antipetista. No fim do primeiro turno, porém, o candidato passou a apresentar características que poderiam diferenciá-lo do pai, como a juventude e um perfil percebido por alguns eleitores como mais moderado.

Nas pesquisas qualitativas realizadas durante o segundo turno, Sincofsky identificou que parte dos eleitores que haviam decidido seu voto na última hora começou a demonstrar desconforto com declarações e comportamentos do candidato.

“Esse coletivo dos eleitores da última hora ficou bastante incomodado com a questão da Constituição e com a questão do divórcio que ele trouxe no debate”, afirmou o especialista, referindo-se a temas que, segundo sua análise, geraram dúvidas entre esses eleitores.

Sincofsky também observou que as pesquisas quantitativas nem sempre captavam com a mesma rapidez as mudanças que apareciam nas conversas em pequenos grupos. Ele ressalvou que sua amostra era reduzida, de 30 a 40 pessoas por rodada, mas destacou sua experiência de três décadas com pesquisas qualitativas.

“Me parecia que estava se formando alguma coisa que as pesquisas não estavam conseguindo captar. Posso estar enganado, lógico”, relata, ao explicar a hipótese que compartilhou com interlocutores do mercado financeiro antes da divulgação do resultado.

O peso das conversas dentro de casa

Um dos aspectos que mais chamaram a atenção de Sincofsky foi a maneira como a disputa eleitoral se manifestava no ambiente familiar, especialmente entre casais com preferências políticas diferentes.

Segundo ele, as pesquisas mostravam mulheres e homens tentando convencer seus parceiros a votar em determinado candidato, enquanto questões como educação, identificação social e expectativas econômicas apareciam com frequência nessas conversas.

O especialista citou o relato de uma entrevistada cujo marido estudava na Universidade Federal do Rio de Janeiro e que demonstrava preocupação com possíveis cortes de recursos para a educação em um eventual governo de Flávio Bolsonaro.

“Me parecia que algumas discussões estavam sendo cozinhadas dentro dos lares e que, de algum modo, iam abalando a credibilidade do Flávio”, explicou Sincofsky.

Na avaliação dele, a eleição não foi definida apenas pela preferência por um candidato, mas também pelo receio de que uma mudança de governo representasse uma piora em relação à situação presente. Nesse contexto, o desafio de Flávio era convencer o eleitor de que sua proposta de futuro não significaria um retorno ao passado associado à gestão do pai.

“O PT conseguiu sair por cima e achou uma narrativa muito importante: a questão de defender os menos favorecidos e continuar com sua plataforma tradicional. Conseguiu convencer parte das pessoas de que a mudança poderia ser para pior com Flávio”, afirmou.

O tom da campanha e o comportamento dos candidatos

Sincofsky também apontou que determinados episódios envolvendo integrantes da direita tiveram repercussão negativa entre eleitores que, embora compartilhassem algumas pautas conservadoras, não se identificavam com o estilo de comunicação adotado.

Como exemplo, mencionou vídeos e declarações de caráter provocativo associados ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e a outros participantes da campanha. Segundo o especialista, o problema não estava necessariamente no conteúdo de todas as posições defendidas, mas na forma como elas eram apresentadas.

“Esse deboche do Nikolas representava um Brasil que as pessoas não querem”, disse Sincofsky, ao comentar a reação observada nas entrevistas.

Ele ressaltou que eleitores de direita podiam concordar com determinadas propostas e, ao mesmo tempo, rejeitar comportamentos considerados excessivos. Essa distinção, segundo sua análise, ajuda a compreender por que o apoio a candidatos conservadores em outras disputas não se convertia automaticamente em votos para Flávio Bolsonaro.

“O eleitor pode votar no Nikolas e não acreditar que o Bolsonaro ou Flávio sejam a escolha para presidente. Ou pode entender que aquilo já passou do ponto”, explicou.

Eleitorado mais complexo desafia as pesquisas tradicionais

Questionado sobre a possibilidade de o eleitorado brasileiro estar se tornando mais sofisticado em suas escolhas, Sincofsky concordou que o voto não deve ser interpretado como uma adesão automática a um campo político em todas as disputas.

Para ele, a existência de eleitores que apoiam candidatos de direita para cargos legislativos, mas fazem escolhas diferentes na eleição presidencial, demonstra que as preferências variam conforme o candidato, a pauta e o contexto.

O especialista também destacou a importância de compreender as conversas que se desenvolvem fora das redes sociais e dos ambientes políticos mais engajados.

“Meu trabalho não é só saber o que as pessoas pensam, mas entender que conversas estão acontecendo e onde elas acontecem”, afirmou.

Na avaliação de Sincofsky, a campanha de Lula também se beneficiou de uma estratégia de comunicação que estimulou conversas entre pessoas com posições distintas, sem necessariamente transformar cada divergência em um confronto ideológico.

Ele citou ainda as imagens de manifestações e mobilizações do campo progressista como elementos que podem ter contribuído para transmitir uma percepção de engajamento.

AutorAnna Scabello
FonteMoney Times
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