Os planos da Alibaba para virar a 'Nvidia da China' — e liderar a corrida da IA
Com um novo chip que promete rivalizar com a americana, planos de 20 gigawatts em data centers até 2032 e uma receita de nuvem que já cresce 45% ao ano, a Alibaba aposta todas as fichas na IA — e já colocou o Brasil no mapa dessa expansão

RESUMO +
A empresa de comércio eletrônico Alibaba apresentou na terça-feira, 22, o Zhenwu V900, descrito pela companhia como o chip de IA mais poderoso já produzido na China. O lançamento integra o compromisso de investir mais de US$ 53 bilhões em IA e nuvem, além de ampliar data centers e reduzir a dependência da fabricante Nvidia.
Depois de décadas construída em torno do comércio eletrônico, a Alibaba está se reinventando como uma empresa de inteligência artificial (IA) — e o anúncio mais recente da companhia mostra o tamanho da aposta.
Na terça-feira, 22, durante a Apsara Conference, evento anual da empresa em Hangzhou, o CEO Eddie Wu apresentou o Zhenwu V900, chip que a companhia descreve como "o mais poderoso de IA já produzido na China", peça central de um plano para elevar a capacidade global de data centers da Alibaba Cloud até 2032.
Desenvolvido pela T-Head, divisão de semicondutores da Alibaba, o Zhenwu V900 promete desempenho três vezes superior ao do modelo anterior, o Zhenwu M890, lançado em maio.
Segundo a empresa, ele pode ser combinado em clusters de até 500 mil unidades para treinar os modelos de IA mais avançados, com produção em massa prevista para o primeiro trimestre de 2027.
A família Zhenwu já soma mais de 100 mil unidades em operação na nuvem pública da empresa, usadas por mais de 650 clientes de setores como automotivo, financeiro e energético — mais de 30 montadoras e empresas de direção autônoma usam os chips para pesquisa e desenvolvimento, segundo documento arquivado pela companhia junto à SEC, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos. A afirmação de desempenho é da própria Alibaba e não foi verificada de forma independente.
Da fabricação de chips à disputa por trilhões de parâmetros
O chip é só uma parte de uma estratégia mais ampla. No mesmo evento, Wu anunciou planos para desenvolver um futuro modelo da família Qwen com entre 5 trilhões e 10 trilhões de parâmetros — mais que o dobro do Qwen3.8-Max, lançado em agosto com 2,4 trilhões, hoje o maior modelo da companhia.
Segundo a empresa, a equipe do Qwen já explora uma técnica chamada aprimoramento recursivo, em que sistemas de IA ajudam a melhorar suas próprias capacidades.
A meta de 20 gigawatts de capacidade, segundo analistas do banco Citigroup, poderia gerar mais de US$ 160 bilhões em receita externa para a divisão de nuvem da empresa. Para efeito de comparação, um data center de 1 gigawatt que a Meta anunciou em julho, no Canadá, custou cerca de US$ 9 bilhões.
Todo esse plano está apoiado num compromisso já assumido pela empresa: mais de US$ 53 bilhões em investimentos em infraestrutura de IA e nuvem ao longo de três anos, valor parcialmente financiado por uma oferta de ações que levantou cerca de US$ 10,2 bilhões em Hong Kong, em agosto.
As ações da Alibaba reagiram bem ao anúncio do chip. Os papéis negociados em Hong Kong subiram 2%, e os listados em Nova York avançaram mais de 3% no pré-mercado.
Os números que sustentam a aposta
A pressa por investir tanto em chips e data centers tem explicação nos resultados recentes da empresa.
No trimestre encerrado em 30 de junho, a receita externa da Alibaba Cloud cresceu 45% na comparação anual, com a receita de produtos ligados à IA registrando crescimento de três dígitos pelo décimo segundo trimestre consecutivo — uma sequência que já dura três anos.
Só esses produtos de IA somaram 12,4 bilhões de iuanes no trimestre, equivalentes a 35% de toda a receita externa da divisão de nuvem, com uma taxa de execução anualizada de 49,5 bilhões de iuanes (cerca de US$ 6,9 bilhões).
O crescimento, porém, tem custo. O lucro ajustado da empresa caiu 30% no mesmo período, atribuído pela própria Alibaba ao volume de investimento em infraestrutura e tecnologia de IA.
Em teleconferência com investidores, a diretoria da empresa afirmou que, no curto prazo, o valor gerado pela IA deve continuar concentrado em chips e infraestrutura de nuvem, dada a restrição de oferta global de componentes — e que, no longo prazo, a monetização deve migrar para produtos e resultados de IA, em vez de depender apenas do acesso a modelos via API.
Uma corrida por reduzir a dependência de chips estrangeiros
O avanço em hardware próprio também tem um motivo estratégico específico: reduzir a dependência da Nvidia. Com as restrições americanas à venda de processadores avançados para a China, desenvolver chips domésticos se tornou prioridade para empresas chinesas de IA — e a Alibaba também estuda abrir o capital da T-Head separadamente, para aproveitar o apetite dos investidores pelo mercado de aceleradores de IA.
O anúncio do chip ocorreu poucos dias antes do encontro entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, em Washington, num momento em que chips, modelos avançados e restrições de exportação seguem no centro da disputa entre as duas potências.
Um estudo do NIST, instituto de padrões dos Estados Unidos, já apontou que a distância entre os modelos chineses e a fronteira tecnológica americana está encolhendo rapidamente — em maio, o DeepSeek V4 Pro foi avaliado cerca de oito meses atrás da fronteira; em julho, um modelo da chinesa Zhipu AI já foi considerado comparável a um sistema americano lançado apenas seis meses antes.
De olho no Brasil e em outros mercados emergentes
Enquanto investe pesado em chips e data centers na China, a Alibaba também acelera a expansão internacional da nuvem — e o Brasil já entrou nesse radar. Em 27 de agosto, a Alibaba Cloud inaugurou sua primeira região de nuvem na América do Sul, com dois data centers em São Paulo, oferecendo serviços de computação, armazenamento, segurança e bancos de dados a partir de infraestrutura local.
"O Brasil é uma das economias digitais mais dinâmicas do mundo e um novo mercado central para a expansão da Alibaba Cloud na América Latina", disse Allen Guo, vice-presidente de Negócios Internacionais da empresa, no anúncio.
A chegada ao país segue o mesmo modelo adotado em outras regiões recentes, como México, França, Japão, Coreia do Sul e Malásia: parcerias com empresas locais para construir um ecossistema em torno da nuvem chinesa.
No Brasil, a Insi vai revender o portfólio de nuvem e IA da Alibaba de forma personalizada para empresas locais, enquanto a 4Linux, especializada em software livre, vai combinar os modelos abertos da família Qwen com sua experiência de implantação para levar IA generativa a empresas brasileiras. Com a nova região, a Alibaba Cloud passou a operar 106 zonas de disponibilidade em 31 regiões ao redor do mundo, disputando diretamente espaço com rivais americanas como AWS, Google Cloud e Microsoft Azure em mercados emergentes.
A entrada no Brasil também chega num momento de transição tecnológica dentro da própria Alibaba: a empresa lançou recentemente o Qwen3.8-Flash, modelo multimodal de 125 bilhões de parâmetros (dos quais 6 bilhões são ativados por token), apresentado como prévia da arquitetura que deve sustentar a próxima geração de modelos da companhia, o Qwen4, atualmente em treinamento.
Entre chip próprio, modelo cada vez maior e nuvem em expansão para novos países, a aposta da Alibaba é depender cada vez menos de fornecedores externos e construir, internamente, a maior parte possível da infraestrutura necessária para competir na corrida global da IA.
