Os planos do ex-cientista de Musk para criar robôs humanoides na Europa

O mundo dá voltas. E, para um ex-cientista da Tesla e da SpaceX, empresas de Elon Musk, essas voltas o levaram de volta à Europa com um objetivo ambicioso: criar o primeiro robô humanoide europeu projetado para o trabalho.
Rémi Cadene é o presidente-executivo (CEO) e cofundador da UMA, startup sediada em Paris. Antes de fundá-la, Cadene trabalhou no desenvolvimento do sistema Autopilot e do robô Optimus, da Tesla, e depois assumiu a liderança da área de robótica da plataforma de inteligência artificial (IA) de código aberto Hugging Face, onde criou o LeRobot, biblioteca aberta que virou infraestrutura essencial para a robótica no mundo todo.
Segundo a Bloomberg, o robô da UMA, chamado de Northstar e equipado com IA, tem como foco ajudar a automatizar processos industriais, e vai mirar a Europa primeiro.
"Os custos de mão de obra são muito altos e, considerando as tendências demográficas, haverá uma demanda significativa", disse Cadene, em referência ao envelhecimento populacional do continente.
Antes da UMA
A trajetória de Cadene é o que dá musculatura ao projeto. Antes da Tesla, ele passou pela Meta e, no Hugging Face, tornou-se pesquisador principal.
Ele não está sozinho nessa. A UMA reúne um time que a imprensa de robótica apelidou de "supergrupo europeu". Entre os cofundadores estão Pierre Sermanet, que pesquisou aprendizado profundo por duas décadas na Universidade de Nova York e no Google DeepMind, Simon Alibert, cocriador do LeRobot, e Robert Knight, que projeta robôs humanoides há mais de 25 anos.
A empresa, cujo nome é a sigla em inglês para Assistente Mecânico Universal, saiu do modo sigiloso em 1º de dezembro de 2025, com apoio de investidores de peso — entre eles a gestora Greycroft e nomes influentes da IA, como Yann LeCun, um dos pais das redes neurais. A startup afirma que já conversa com cerca de 50 potenciais clientes para identificar aplicações industriais.
Como funciona o Northstar?
Em demonstração na sede da empresa, em Paris, Cadene apresentou um protótipo inicial do Northstar e mostrou sua estabilidade ao empurrá-lo com um bastão.
A UMA pretende entregar uma prova de conceito até o fim deste ano. A primeira versão terá rodas em vez de pernas e será revestida por uma camada externa flexível, semelhante a uma roupa de trabalho.
O objetivo é um robô leve, de cerca de 40 quilos, capaz de operar com segurança ao lado de trabalhadores humanos. Seu diferencial está no sistema de IA. Segundo a empresa, em vez de depender de programação específica para cada tarefa, o robô usa um método de aprendizado em tempo real, que permite observar uma demonstração, aprender uma nova habilidade e aperfeiçoá-la com a prática.
"É assim que uma criança aprende a amarrar os sapatos: primeiro alguém ensina, depois ela melhora com a prática", afirmou Cadene, segundo a Bloomberg.
No laboratório da empresa, braços robóticos equipados com visão computacional foram demonstrados separando buchas plásticas por cor de forma autônoma.
Uma corrida global
A aposta da UMA se insere em um mercado que virou obsessão do Vale do Silício à China.
O setor de robôs humanoides deve saltar de cerca de US$ 2,92 bilhões em 2025 para US$ 15,26 bilhões em 2030, segundo a consultoria MarketsandMarkets.
As projeções de longo prazo são ainda mais ousadas: o Goldman Sachs estima um mercado de US$ 38 bilhões até 2035, enquanto o Morgan Stanley projeta US$ 5 trilhões até 2050.
O que move essas cifras é a combinação de IA mais capaz e queda de custos.
O Goldman Sachs projeta que as remessas globais podem alcançar 1,4 milhão de unidades por ano até 2035, puxadas por uma redução de 40% no custo dos materiais. As instalações, que eram quase nulas em 2023, já passaram de 16 mil unidades em 2025.
Mas a concorrência é pesada.
A UMA disputa espaço com a Tesla, cujo Optimus tem preço-alvo de US$ 20 mil a US$ 30 mil por unidade em escala, com a americana Figure e com fabricantes chinesas como a Unitree, cujo modelo G1 é vendido a cerca de US$ 16 mil. Por ora, empresas chinesas dominam o mercado atual.
Diante desses gigantes, a tese de Cadene é contraintuitiva. Para ele, a Europa, e não o Vale do Silício ou a Ásia, seria o melhor lugar para erguer uma empresa de humanoides.
O argumento se apoia em dois pilares — a rede industrial histórica do continente e a mão de obra altamente qualificada, combinados a uma população que envelhece e a custos de trabalho elevados.
Na avaliação do executivo, a adoção de robôs pessoais poderá ocorrer em ritmo mais acelerado do que a dos smartphones, cuja popularização levou cerca de 12 anos.
A expectativa é que os próprios humanoides participem da fabricação de novas unidades, reduzindo custos e acelerando a expansão. Resta saber se o primeiro grande nome dessa nova era falará, como quer Cadene, francês.
