Os três negócios da SpaceX — e qual deles vai decidir se o IPO valeu a pena

A SpaceX estreou na Nasdaq nesta sexta-feira, 12, sob o ticker SPCX, precificada a US$ 135 por ação na maior oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) da história.
Mais de duas vezes sobredemandada por investidores institucionais, com mais de US$ 10 bilhões em ordens verificadas, a empresa chegou ao mercado público não como uma empresa de foguetes, mas como três negócios diferentes, cada um em um estágio e com dinâmicas financeiras opostas.
O prospecto S-1 arquivado na SEC organiza a SpaceX em três segmentos: Conectividade, Espaço e IA. A receita total foi de US$ 18,7 bilhões em 2025, alta de 33% em relação ao ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, a receita foi de US$ 4,7 bilhões, crescimento de 15%.
Segmento 1: Conectividade — o único que lucra
A Starlink é hoje o maior negócio da SpaceX por receita e o único segmento operacionalmente lucrativo.
Gerou US$ 11,4 bilhões em 2025, 61% da receita total, com margem Ebitda de 63%, muito acima dos 20% típicos de operadoras tradicionais de satélite. No ano, o segmento registrou US$ 4,4 bilhões em lucro operacional.
A Starlink chegou a 10,3 milhões de assinantes no primeiro trimestre de 2026, ante 5 milhões no fim de 2024. A rede está adicionando cerca de 1,5 milhão de novos clientes por mês.
O preço médio por usuário caiu ao longo do tempo, o mercado se expande para clientes de menor renda, mas com mais volume.
A estratégia futura inclui o Starlink Mobile, que usa satélites de nova geração para conectar celulares convencionais diretamente, sem necessidade de antena, em parceria com operadoras como T-Mobile.
Segmento 2: Espaço — o negócio original, com prejuízo crescente
O segmento Espaço cobre foguetes, espaçonaves e lançamentos.
Inclui o Falcon 9, que realizou cerca de 130 lançamentos em 2025, representando mais de 60% do mercado global de lançamentos comerciais, o Dragon, usado para carga e tripulação pela Nasa, o Starshield, versão militar do Starlink, e o Starship, o foguete de próxima geração.
O segmento gerou US$ 4,1 bilhões em 2025 mas operou no prejuízo, com perda operacional de US$ 657 milhões.
No primeiro trimestre de 2026, a receita foi de US$ 619 milhões e a perda operacional de US$ 662 milhões, o prejuízo supera a receita no trimestre.
A razão é o Starship: a SpaceX revelou no S-1 ter investido mais de US$ 15 bilhões no desenvolvimento do foguete, valor acima do orçamento original.
O futuro do segmento é o mais transformador de todos. A SpaceX cita explicitamente no S-1 turismo espacial, fabricação em órbita e mineração de asteroides como mercados futuros. Além disso, tem contratos com a Nasa para o programa Artemis de retorno à Lua.
Segmento 3: IA — o mais novo, o mais caro e o mais especulativo
O segmento de IA é resultado da fusão da SpaceX com a xAI de Elon Musk, concluída em fevereiro de 2026.
Reúne o modelo de linguagem Grok, a rede social X e data centers de alta performance, incluindo o Colossus, um dos maiores supercomputadores de treinamento de IA do mundo.
O segmento agora se chama SpaceXAI.
Em 2025, gerou US$ 3,2 bilhões em receita — principalmente de parcerias de computação e acesso à API do Grok.
Mas também concentra a maior parte das perdas: no primeiro trimestre de 2026, registrou perda operacional de US$ 2,47 bilhões. O prejuízo operacional total da SpaceX no primeiro trimestre de 2026 foi de US$ 1,94 bilhão — e 75% veio da IA.
A aposta de longo prazo vai além dos data centers terrestres. A SpaceX quer construir data centers em órbita, aproveitando energia solar ilimitada e ausência de restrições de refrigeração.
O mercado endereçável total declarado no S-1 é de US$ 28,5 trilhões — dos quais US$ 26,5 trilhões são atribuídos à IA.
O que os investidores estão comprando
Quem compra ações da SpaceX hoje está comprando três coisas ao mesmo tempo: uma operadora de internet via satélite rentável e em crescimento acelerado; uma empresa de lançamentos espaciais que sangra caixa no curto prazo para construir a infraestrutura do futuro; e uma aposta especulativa em IA e computação orbital que ainda não provou seu modelo de negócio.
A SpaceX projeta crescer de US$ 25 bilhões em receita em 2026 para US$ 150 bilhões em 2040, com Ebitda projetado de US$ 95 bilhões no mesmo ano.
O que decide se o IPO vai gerar retorno é, no fim, uma pergunta simples: qual dos três negócios vai crescer mais rápido do que o mercado espera?
