Otan é como um 'zumbi' no abismo entre EUA e Europa, diz analista

A reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), realizada nesta semana na Turquia, mais uma vez foi marcada por um clima tenso entre os participantes.
O presidente dos Estados Unidos fez várias críticas aos países europeus, por considerar que eles precisam gastar mais em defesa, e fez ameaças diretas à Espanha e Dinamarca.
Aos espanhóis, disse que iria romper as relações comerciais com o país, porque Madri não autorizou o uso de bases espanholas em operações contra o Irã. Para a Dinamarca, repetiu a ameaça de tomar a Groenlândia, que ele considera fundamental para a defesa dos EUA. Os dinamarqueses reiteraram que a ilha não está à venda.
Para Diogo Castro e Silva, economista, sócio da Nostrum Public Affairs e colunista da EXAME, os Estados Unidos e a Europa vivem uma espécie de divórcio, pois o abismo entre ambos está cada vez maior.
"A Otan é uma organização que ainda existe, funciona, que tem cúpulas, que tem estrutura militar, mas ela hoje é um pouco um zumbi", avalia.
"Ninguém saiu da aliança, então ela não está morta, mas também não está prosperando. Há um divórcio lento se passando, como nos casamentos", afirma.
"É um divórcio em que pessoas vão dividindo os bens, você usa a casa de campo quando eu não vou. Isso está acontecendo na Europa. A relação de dependência que havia com os EUA era meio virtuosa enquanto a aliança funcionava, mas hoje é encarada na Europa como meio tóxica. E do lado americano há a visão de que a Europa é um peso morto", afirma.
Donald Trump durante reunião de cúpula da Otan, em Ancara, na quarta-feira, 8 (Alexis Jumeau/AFP)
Acordo tácito
Silva aponta que a aliança entre EUA e Europa, criada após o fim da Segunda Guerra, em 1945, era baseada em um acordo tácito de que os europeus dependeriam dos americanos e não buscariam desenvolver uma defesa autônoma. Assim, os países europeus teriam grande dificuldade para fazer uma guerra entre si, como ocorreu duas vezes no começo do século 20.
Para o analista, este cenário não deverá mudar tão cedo. "Essas visões não conduzem a um bom destino, e não devem mudar sem que haja um outro entendimento político dos dois lados do Atlântico", avalia. "Eu penso que se pode minimizar o efeito, mas não se pode reverter. O dano está feito."
