'Otimismo seletivo': por que errar ficou muito caro para as incorporadoras

O mercado imobiliário brasileiro entra em 2026 em um período de retomada cautelosa, caracterizado pelo que o Radar da Construção – Panorama Estratégico do Mercado Imobiliário e da Construção, elaborado pelo Ecossistema Sienge, CV CRM, Grupo OLX e Nomad, chama de "otimismo seletivo".
"É o otimismo de quem sabe ler dado e tomar decisão com mais assertividade", resume Gabriela Torres, gerente executiva de dados e inteligência do Ecossistema Sienge. A primeira metade do ano não representou um ciclo de expansão automática, mas sim uma fase em que a busca por eficiência operacional e de capital se torna essencial.
A conjuntura para 2026 é marcada por crédito ainda restritivo, com a taxa Selic projetada em 12,50% ao ano e a inflação estimada em 4,31%, próxima ao teto da meta. Com o PIB previsto em 1,85% e o câmbio em R$ 5,40, aumenta o "custo do erro" para incorporadoras em decisões sobre localização e timing de lançamento.
"Há um aumento do preço do insumo, ligado à geopolítica, e da mão de obra, ligada a mudanças sociais, somados a um crédito mais caro. Qualquer erro ao longo do processo pesa mais no resultado final", afirma Gabriela Torres, gerente executiva de dados e inteligência do Ecossistema Sienge.
A pressão sobre os custos de construção, no entanto, é desigual. Segundo o Índice de Preço de Materiais de Construção (IPMC), no acumulado de 12 meses até maio de 2026, o fio de cobre subiu 30,72% e o cimento 14,96%, enquanto aço e argamassa registraram queda. Já o INCC aponta alta de cerca de 9% nos custos de mão de obra, consolidando-se como principal vetor de pressão no período.
Dinâmica de preços e repasse
Apesar do aumento nos custos, o setor conseguiu repassá-los aos lançamentos. O Índice de Lançamentos Imobiliário (ILI) DataZAP revela valorização média de 10,06% nos imóveis lançados, acima do INCC acumulado de 6,17%. O preço médio geral dos lançamentos nas regiões monitoradas chegou a R$ 12.849,63 por metro quadrado.
O estudo mostra que cada cidade responde de forma distinta aos estímulos. Fortalezase mantém como referência no segmento econômico, liderando isoladamente pelo quinto trimestre consecutivo, com a maior valorização trimestral registrada entre as regiões monitoradas (+62,60%). O preço médio dos lançamentos na cidade alcançou R$ 12.936,31/m², reforçando sua atratividade para o padrão econômico.
Curitiba se destaca no segmento de médio padrão, posicionando-se logo atrás de São Paulo, mantendo-se entre as primeiras cidades em demanda. Além disso, a capital paranaense também aparece como uma das líderes no padrão econômico, com preço médio de lançamentos em R$ 13.914,94/m², segundo a análise comparativa regional do Radar.
Já Brasília lidera o segmento de alto padrão e vem ganhando espaço no padrão econômico, subindo para a quinta posição do ranking IDI, impulsionada pela chamada "Demanda Direta". O desempenho da capital federal contribuiu para que o Centro-Oeste passasse a ocupar duas das três primeiras posições no alto padrão, reduzindo a concentração histórica do eixo Sul-Sudeste.
Outras cidades também mostram dinâmicas relevantes: Maringá e Itajaí entraram no top 10 do médio padrão devido à alta procura ativa, enquanto Goiânia mantém posições de destaque no mesmo segmento. Florianópolis, embora em 12º lugar noIDI econômico, apresenta valorização anual expressiva de 26,13% e um dos maiores preços médios do país (R$ 17.706,51/m²). O
Rio de Janeiro, apesar de ter o maior preço médio por metro quadrado (R$ 19.445,44), ocupa apenas a décima posição no IDI do padrão econômico, indicando um mercado de nicho com alto ticket, porém demanda mais restrita nesse segmento.
Perfil do consumidor
Ocomportamento do comprador exige estratégias digitais mais assertivas. Segundo o Anuário DataZAP, 82% dos consumidores estão nas etapas iniciais da jornada de compra, sendo 30% em descoberta e 52% em busca ativa. Cerca de 91% consideram imóveis usados, enquanto 16% avaliam lançamentos na planta ou em construção, preferência mais forte entre os compradores mais jovens.
O comprador médio em 2026 possui renda domiciliar mensal de R$ 7.371,54, concentrada nas classes B e C, e leva em média três meses na busca pelo imóvel ideal. Além disso, 48% realizam sua primeira compra, reforçando a necessidade de orientação e confiança ao longo do processo.
