Ozempic no Mercado Livre (MELI34): XP vê avanço estratégico no México; modelo virá para o Brasil?

O lançamento de uma loja oficial da Novo Nordisk no Mercado Livre (MELI;MELI34) do México é visto pela XP Investimentos como um movimento estratégico da gigante do e-commerce. O portfólio de semaglutida, como Ozempic, Wegovy e Rybelsus, será oferecido diretamente aos consumidores, sob exigência de receita médica.
A equipe de analistas liderada por Danniela Eiger avalia a classe de medicamentos GLP-1 (como Ozempic) como uma categoria de alto ticket e uso crônico, que se adequa à dinâmica de marketplace do Mercado Livre dado seu perfil de demanda recorrente, enquanto o fabricante dará suporte à economia do canal.
“A iniciativa sinaliza progresso contínuo na construção da vertical de saúde do Mercado Livre. A principal questão continua sendo a replicabilidade no Brasil, onde o arcabouço regulatório atual restringe materialmente tal modelo”, pondera a XP.
Sob a parceria, o Mercado Envios e os centros de distribuição do Mercado Livre darão suporte logístico, enquanto a entrega de última milha será realizada por operadores de transporte farmacêutico licenciados.
A XP destaca que loja da Nova Nordisk também está incluída no Programa de Proteção de Marcas do Meli, reforçando as salvaguardas contra produtos falsificados e desviados.
E o Brasil?
Enquanto no México, sob a Ley General de Salud (COFEPRIS), a venda online de medicamentos com prescrição é permitida se o vendedor possuir licença sanitária e operar com um farmacêutico responsável que valide as receitas antes da entrega, a regulação brasileira ainda não permite esse tipo de operação.
Embora no México a lei não tenha sido explicitamente desenhado para marketplaces, os analistas da XP destacam que o arcabouço é suficientemente permissivo para permitir que fabricantes operem canais DTC (diretamente ao consumidor) por meio de logística licenciada, em uma zona cinzenta regulatória.
Em contraste, no Brasil a RDC 44/2009 limita as vendas online à extensão digital de uma farmácia licenciada (“.com.br”), restringindo explicitamente marketplaces de atuarem como vendedores.
“Dado que medicamentos GLP-1 são substâncias controladas, a semaglutida enfrenta uma camada regulatória adicional, enquanto fabricantes não podem se envolver em distribuição DTC, já que a comercialização de medicamentos permanece exclusiva de farmácias licenciadas”, dizem os analistas.
Embora a Lei 15.354/2026 tenha permitido que farmácias terceirizem logística e entrega (por exemplo, via iFood), ela não altera a regulação central. Dessa maneira , o Mercado Livre atualmente opera uma única farmácia licenciada em SP por meio do MELI Farma, com um sortimento limitado focado em HPC/OTC (higiene pessoal e livres de prescrição).
Tendo esses aspectos em vista, a XP vê um impacto limitado para farmácias brasileiras.
“Como a regulação atual efetivamente exige que nem marketplaces nem fabricantes atuem como vendedores de medicamentos com prescrição, vemos impacto limitado no curto prazo”, dizem os analistas.
Ainda que o México ofereça uma prévia real da potencial evolução do mercado caso as regras brasileiras sejam flexibilizadas, a XP acredita que um eventual debate regulatório seria um processo muito longo, com forte oposição dos players farmacêuticos brasileiros.
