Ozempic sem patente: quem disputa o mercado bilionário das canetas no Brasil?
Alguns meses depois do fim da patente, veja quem já vende semaglutida no Brasil, quem está na fila e o que muda para preços, farmácias e SUS

A queda da patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, abriu espaço para uma nova disputa na indústria farmacêutica brasileira.
Desde maio de 2026, a Anvisa aprovou versões sintéticas, um genérico e medicamentos similares, mas a chegada às farmácias ocorre em ritmo mais lento do que a corrida por registros.
Em outubro, apenas Ozivy, da EMS, e Semavy, da Hypera, estavam à venda entre as novas versões sintéticas, segundo levantamento publicado pela EXAME.
O mercado, porém, vai além dos fabricantes de semaglutida. A Novo Nordisk tenta preservar a participação de suas marcas, a Eli Lilly mantém a liderança em receita com o Mounjaro, e as redes de farmácias precisam equilibrar o aumento do volume vendido com a redução das margens. Ao mesmo tempo, o governo voltou a discutir a oferta desses medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O que mudou desde março?
Em 12 de janeiro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu não prorrogar as patentes do Ozempic e do Rybelsus, ambos da Novo Nordisk. A decisão abriu caminho para que outras empresas desenvolvessem e comercializassem medicamentos à base de semaglutida, desde que obtivessem o registro sanitário necessário. A patente expirou em 20 de março.
A primeira nova versão aprovada foi o Ozivy, da EMS, em 26 de maio. Produzido com semaglutida sintética, o medicamento passou a ser vendido em junho. Em 29 de julho, a Anvisa concedeu registros a cinco produtos:
- Owozy, da Ávita Care;
- Seemasun, da Sun Farmacêutica;
- Zempneo, da Brainfarma;
- Semavy, da Cosmed, ligada à Hypera Pharma;
- Orsema, da Ranbaxy.
Em agosto, a agência aprovou também o primeiro genérico de semaglutida sintética, fabricado pela EMS, e o similar Semaclique, da Germed. A autorização sanitária, contudo, não significa que o produto já esteja disponível para compra: ainda há etapas comerciais, como a definição de preços e o lançamento.
A diferença ficou evidente em um levantamento publicado pela EXAME em outubro. Embora a Anvisa já tivesse concedido dez registros de versões similares de semaglutida naquele ano, apenas duas marcas — Ozivy e Semavy — haviam chegado às farmácias. A concorrência, portanto, já começou, mas ainda está longe de reunir todos os fabricantes autorizados.
Quem já está no mercado e quem está na fila?
A disputa pela semaglutida no Brasil envolve farmacêuticas nacionais e estrangeiras, com produtos em diferentes etapas regulatórias e comerciais. A tabela reúne os principais registros concedidos pela Anvisa, os medicamentos já disponíveis nas farmácias e os projetos cuja situação foi identificada em reportagens até outubro de 2026.
| Empresa | Produto | Situação em outubro de 2026 | Indicação e preço |
|---|---|---|---|
| EMS | Ozivy | Aprovado e comercializado desde junho | Diabetes tipo 2. Preço de lançamento a partir de R$ 452 por caneta; programas comerciais reduziram o valor unitário. |
| Ávita Care | Owozy | Registro aprovado em julho; ainda fora das prateleiras no levantamento de outubro | Diabetes tipo 2. Preço de varejo não identificado. |
| Sun Farmacêutica | Seemasun | Registro aprovado em julho; lançamento ainda pendente no levantamento consultado | Diabetes tipo 2. Preço não identificado. |
| Brainfarma, do grupo Hypera | Zempneo | Registro aprovado em julho; lançamento ainda pendente no levantamento consultado | Diabetes tipo 2. Preço não identificado. |
| Cosmed, ligada à Hypera | Semavy | Aprovado em julho e comercializado desde setembro | Diabetes tipo 2. Cerca de R$ 333 por caneta em condição promocional de compra de três unidades. |
| Ranbaxy | Orsema | Registro aprovado em julho; lançamento ainda pendente no levantamento consultado | Diabetes tipo 2. Preço não identificado. |
| EMS | Semaglutida genérica | Registro aprovado em agosto; sem lançamento confirmado no levantamento de outubro | Diabetes tipo 2. Preço de varejo não identificado. |
| Germed | Semaclique | Similar aprovado em agosto; sem lançamento confirmado no levantamento de outubro | Diabetes tipo 2. Preço de varejo não identificado. |
A Eurofarma, que chegou a preparar um pedido para produzir sua própria versão, transferiu o processo regulatório à Ávita Care e firmou acordo com a Novo Nordisk para distribuir as duas marcas. A parceria permitiu que a empresa permanecesse no segmento sem disputar diretamente a produção da semaglutida sintética.
Genérico, similar ou caneta nacional: por que o nome importa?
O fim da patente não transforma automaticamente todo medicamento à base de semaglutida em genérico. As categorias regulatórias são diferentes e ajudam a entender por que os produtos chegam ao mercado em momentos distintos.
O genérico não tem marca comercial e deve cumprir os requisitos regulatórios aplicáveis à categoria, incluindo a demonstração de equivalência em relação ao medicamento de referência. O similar tem nome comercial e também precisa demonstrar os requisitos de qualidade, segurança e eficácia exigidos pela Anvisa.
No caso da semaglutida sintética, a agência adotou o Ozivy como referência para o registro do genérico da EMS e do similar Semaclique, da Germed.
Já a expressão “caneta nacional” descreve a origem ou a produção do medicamento, não uma categoria regulatória. O Ozivy, por exemplo, é uma versão sintética de um medicamento originalmente biológico. A Anvisa avaliou sua qualidade, segurança e eficácia antes de autorizar a comercialização.
A indicação aprovada também precisa ser considerada. As novas versões sintéticas mencionadas nos comunicados da Anvisa foram autorizadas para o tratamento de adultos com diabetes mellitus tipo 2 insuficientemente controlado. O registro para essa finalidade não significa autorização automática para tratar obesidade, indicação que exige avaliação regulatória própria.
Quanto custa agora e até onde o preço pode cair
A redução de preços nas concorrentes do Ozempic já aparece nas primeiras marcas lançadas, mas os valores variam conforme a apresentação, a farmácia e as condições comerciais oferecidas pelos fabricantes.
O Ozivy chegou ao mercado com preços anunciados entre R$ 452 e R$ 498 por caneta.
Em julho, a EMS passou a oferecer três unidades de 1 mg por R$ 999 em seu programa comercial, o equivalente a R$ 333 por caneta.
A Hypera adotou estratégia semelhante para o Semavy, já que o produto chegou às farmácias em setembro por R$ 333 por unidade na compra de três canetas, também por R$ 999.
Os preços das canetas variam conforme a marca e a apresentação. Em outubro, Ozempic e Wegovy tinham valores próximos de R$ 999 em determinadas versões, enquanto o Mounjaro, da Eli Lilly, custava entre R$ 1.422 e R$ 3.499.
Os preços promocionais não correspondem necessariamente aos valores máximos definidos pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), mas refletem preços encontrados no mercado e podem variar conforme a apresentação e as condições de venda.
A entrada de mais fabricantes deve aumentar a concorrência. No caso dos genéricos, a legislação prevê preço pelo menos 35% inferior ao do medicamento de referência. A redução nas prateleiras dependerá dos lançamentos e da disponibilidade dos produtos.
Como Novo Nordisk e Lilly estão reagindo
Para a Novo Nordisk, o fim da patente exige defender marcas que construíram o mercado brasileiro de semaglutida. A companhia tentou prorrogar a exclusividade na Justiça, mas não obteve sucesso no STJ. Depois da decisão, passou a ampliar as opções comerciais e a distribuição de seus produtos.
Uma das frentes foi a parceria com a Eurofarma para vender Poviztra e Extensior, versões de semaglutida biológica com preços inferiores aos de Ozempic e Wegovy. Em setembro, a fabricante também relançou o NovoCare Farmácia, uma plataforma digital integrada a farmácias parceiras, após testar um modelo de venda direta no país.
A estratégia busca ampliar o acesso e preservar espaço em um mercado que passou a contar com concorrentes mais baratos. A companhia também tem interesse em ampliar a presença de seus medicamentos na rede pública, embora a incorporação ao SUS dependa de avaliação e decisão do governo.
A Eli Lilly enfrenta uma dinâmica diferente. Seu principal produto no segmento, o Mounjaro, contém tirzepatida, e não semaglutida, e mantém proteção patentária até 2036. Mesmo assim, a concorrência e as mudanças de preços afetam o mercado como um todo.
Em um ano no Brasil, o Mounjaro somou R$ 13,54 bilhões em vendas, o que superou as projeções da companhia, e fez a operação brasileira entrar para o grupo das dez maiores da Lilly no mundo.
Em junho, a farmacêutica reduziu em 35% o preço de um combo com duas caixas, em mais um movimento para competir em um mercado de rápida expansão.
A disputa, portanto, não se limita a reproduzir a semaglutida. As fabricantes também concorrem por preço, distribuição, presença nas farmácias e capacidade de sustentar o fornecimento.
Farmácias, planos e SUS: quem ganha na cadeia
Para as redes de farmácias, vender mais canetas emagrecedoras não significa necessariamente lucrar mais. Em julho, o Itaú BBA reduziu de R$ 27 para R$ 20 seu preço-alvo para as ações da RD Saúde, citando a concorrência de produtos mais baratos e o avanço do mercado informal. Segundo o banco, o lucro bruto por caneta havia caído para cerca de 20%.
Em outubro, a XP apontou outro efeito da concorrência. Em agosto, a receita de sua cesta de medicamentos usada como referência para o Mounjaro caiu 6% em relação a julho, enquanto o volume vendido cresceu apenas 1%. A combinação indica uma queda de cerca de 7% no preço médio. Para as farmácias, isso pressiona ainda mais o desafio de vender unidades suficientes para compensar a redução dos valores por produto.
Nos planos de saúde, a ampliação do acesso pode alterar os gastos com tratamentos para obesidade e diabetes, além da demanda por consultas, exames e procedimentos. O impacto dependerá das regras de cobertura e dos resultados clínicos observados.
No SUS, o Ministério da Saúde protocolou, recentemente, em setembro, um pedido para que a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) avalie a incorporação de medicamentos à base de semaglutida ou liraglutida.
O ministro Alexandre Padilha estimou um custo anual de R$ 1,5 bilhão e afirmou que compras em larga escala, combinadas à produção nacional, poderiam reduzir os preços em até 80% a 90%. São estimativas do governo, ainda sem decisão de incorporação.
Em 2025, a Conitec havia rejeitado a inclusão da semaglutida para pacientes com obesidade de graus II e III, sem diabetes, a partir de 45 anos e com doença cardiovascular estabelecida. Um novo pedido será submetido a avaliação técnica e orçamentária e, até a conclusão do processo, esses medicamentos não integram a oferta regular do SUS.
Além do peso: por que as canetas entraram na conversa sobre longevidade
A expansão dos medicamentos GLP-1 também colocou a semaglutida e outras moléculas da classe no centro das discussões sobre saúde metabólica e longevidade. Estudos investigam efeitos cardiovasculares, renais e outros desfechos, mas a possibilidade de prolongar a vida saudável ainda não foi comprovada.
A corrida comercial no Brasil está concentrada, neste momento, na ampliação do acesso a tratamentos já aprovados, na diferenciação entre produtos e na disputa por participação de mercado.
Leia também: A nova fronteira das canetinhas emagrecedoras: o que a ciência já sabe sobre longevidade
Nos próximos meses, os principais marcos serão a chegada de novos produtos às farmácias, a definição de preços para os registros já concedidos e o avanço da avaliação sobre o SUS. O fim da patente encerrou a exclusividade da Novo Nordisk sobre a semaglutida no Brasil, mas a disputa por volume, preço e rentabilidade continua.
