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Sacre Investimentos
InvestMercadosFINRF
25/06/2026
5 min

Para gestores, o CDI não paga mais o risco do crédito privado

Para gestores, o CDI não paga mais o risco do crédito privado

O mercado de crédito privado brasileiro vive uma contradição, de acordo com gestores. Enquanto a inadimplência das empresas aumentou, as recuperações judiciais bateram recordes e os custos financeiros seguem pressionados pelos juros elevados, ainda assim, os investidores passaram os últimos anos aceitando receber prêmios cada vez menores para financiar companhias.

A distorção foi alimentada por uma forte entrada de recursos na renda fixa, mas começa a ser questionada em um cenário em que a taxa básica de juros, a Selic, deve permanecer elevada por mais tempo. Para os especialistas em renda fixa, o investidor precisará voltar a olhar menos para o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) e mais para a qualidade do risco que está comprando.

Segundo Eduardo Furuie, cofundador e CIO da Nexa Finance, o spread médio das debêntures caiu de aproximadamente 269 pontos-base sobre o CDI em junho de 2023 para 163 pontos-base em janeiro de 2026.

Ao mesmo tempo, os indicadores de crédito seguiram trajetória oposta. A inadimplência das empresas acima de 90 dias chegou a 2,75% em março deste ano, mais que o dobro do registrado no fim de 2020. O número de empresas inadimplentes cresceu 45% no período e as recuperações judiciais atingiram recorde ao longo do ano passado.

"O investidor está recebendo menos prêmio em um momento em que o risco de crédito aumentou", afirma Furuie.

Para o cofundador e CIO da Nexa Finance, o fechamento dos spreads refletiu muito mais a forte demanda por crédito privado do que uma melhora efetiva da qualidade dos emissores.

"O estoque de crédito privado saiu de R$ 1,27 trilhão em 2023 para R$ 2,17 trilhões em março de 2026. Esse fluxo criou uma demanda adicional em um mercado no qual a oferta de crédito corporativo de alta qualidade não cresceu na mesma velocidade", diz.

Rodrigo Mendonça, diretor gestor de renda fixa abertos da Valora Investimentos, concorda que os fatores técnicos tiveram peso decisivo.

"Parte grande dessa compressão veio de um movimento técnico forte na indústria de crédito e renda fixa como um todo. A Selic elevada puxou uma captação enorme para os fundos, e esse volume de recurso perseguindo uma oferta de papel limitada comprime spread independentemente do fundamento".

Mendonça lembra ainda que a Medida Provisória (MP) 1.303, criada no ano passado pelo governo federal, também contribuiu para acelerar esse movimento ao aumentar o fluxo para determinados instrumentos de crédito privado.

Isso porque a proposta legislativa buscava acabar com a isenção do Imposto de Renda sobre os rendimentos ativos como LCIs, LCAs, CRIs, CRAs e debêntures incentivadas. Mas o texto previa uma tributação em cima desses instrumentos a partir de 2026, o que provocou uma corrida para garantir títulos isentos ainda no ano passado. A MP, no entanto, perdeu a validade e foi retirada da pauta.

Ainda assim, ela contribuiu para resultar em um mercado em que, por um período, investidores passaram a aceitar remunerações cada vez menores para correr riscos semelhantes.

Gestores apontam volta à realidade

Neste ano, porém, o cenário começou a mudar, segundo os gestores.

Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que aoferta de debêntures no mercado secundário caiu de R$ 296 bilhões no quarto trimestre de 2025 para R$ 236,1 bilhões no primeiro trimestre deste ano. No mercado primário, as emissões recuaram de R$ 175 bilhões para R$ 99 bilhões.

Ao mesmo tempo, os spreads das debêntures voltaram a abrir. Para Mendonça, isso não representa uma crise. "O estresse observado neste ano foi essencialmente técnico. Houve alguns eventos de crédito relevantes que funcionaram como gatilho para resgates em fundos e necessidade de venda de papéis", afirma.

Segundo o diretor gestor de renda fixa abertos da Valora, a abertura foi generalizada, atingindo emissores de diferentes qualidades, o que reforça a leitura de um ajuste técnico e não de uma deterioração sistêmica. "Mão enxergamos um problema sistêmico de crédito, mas sim uma reprecificação técnica que, inclusive, pode ter aberto boas oportunidades em papéis específicos".

Selic alta por mais tempo muda o jogo

A mudança nas expectativas para os juros também pesa. Omercado já projeta uma Selic de 14% em 2026, segundo o Boletim Focus mais recente divulgado na segunda, 22. Já a ata mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom) reforçou que o Banco Central pretende manter cautela diante das incertezas domésticas e internacionais.

Para Adriano Casarotto, gestor de crédito da Franklin Templeton Brasil, isso exige uma revisão das estratégias. "Começamos o ano com uma expectativa de Selic bem menor do que ela está hoje. Agora o mercado está praticamente travado próximo dos níveis atuais".

Segundo Casarotto, juros elevados por mais tempo dificultam o processo de desalavancagem das empresas. "Isso acaba sendo mais difícil para as empresas tocarem o processo, fazerem o pagamento das despesas financeiras. O indicador de cobertura da dívida melhora menos do que o esperado".

Diante disso, Furuie projeta que o próximo ciclo do crédito privado será diferente dos anteriores. "Há seis meses o mercado precificava um alívio vindo da queda de juros. Hoje, a curva aponta para juros altos por mais tempo. Não dá mais para olhar apenas para CDI+. É preciso olhar para a qualidade do risco", afirma.

Segundo o CIO da Nexa, a busca genérica por retornos acima do CDI tende a perder espaço para uma análise mais criteriosa das estruturas e dos emissores. "O crédito privado não perdeu relevância, mas entrou em uma fase que exige mais seletividade".

AutorClara Assunção
FonteExame
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