Para o ‘Rei da Soja’, Bolsonaro errou ao enfrentar China, cita grande perigo para o agronegócio brasileiro e chama Trump de ‘doidão’
O ex-presidente Jair Bolsonaro errou ao confrontar a China na tentativa de agradar aos Estados Unidos, colocando em risco a posição pragmática que o Brasil deveria preservar diante da disputa entre as duas potências. A avaliação é de Blairo Maggi, acionista do Grupo Amaggi e ex-ministro da Agricultura, conhecido como “Rei da Soja”. “O Bolsonaro […]

O ex-presidente Jair Bolsonaro errou ao confrontar a China na tentativa de agradar aos Estados Unidos, colocando em risco a posição pragmática que o Brasil deveria preservar diante da disputa entre as duas potências.
A avaliação é de Blairo Maggi, acionista do Grupo Amaggi e ex-ministro da Agricultura, conhecido como “Rei da Soja”.
“O Bolsonaro errou, e a nossa chancelaria errou, ao fazer aquele enfrentamento com a China para agradar os Estados Unidos. Foi o primeiro passo em que erramos ao não ficar totalmente isentos”, afirmou Maggi nesta quinta-feira (10).
A declaração foi dada durante o painel “O agro brasileiro visto de fora: como os mercados globais enxergam o Brasil nos próximos 10 anos”, no Agro Summit do Bradesco BBI, realizado no Hotel Rosewood, em São Paulo.
Para Maggi, o Brasil deveria adotar uma postura pragmática diante do avanço da rivalidade entre chineses e norte-americanos, evitando um alinhamento automático com qualquer um dos lados.
“Vocês brigam lá, brigam aqui e deixam a gente vender no meio. O Brasil não tem nada a ver com essa história, não tem nada a ver com essas confusões”, disse.
“Espero realmente que o Brasil não tenha que fazer essa escolha, de ficar em um bloco ou em outro. Porque, se tivermos que fazer isso, teremos grandes problemas internos na produção brasileira”, acrescentou.
O grande perigo para o agro
A preocupação de Maggi está relacionada à dependência comercial do agronegócio brasileiro em relação à China e, ao mesmo tempo, ao esforço de Pequim para ampliar sua segurança alimentar e reduzir a exposição a fornecedores externos.
Durante sua passagem pelo Ministério da Agricultura, entre 2016 e 2018, Maggi afirmou ter viajado oito vezes à China para negociar pontos específicos das exportações brasileiras. Segundo ele, as autoridades chinesas já demonstravam preocupação, há quase uma década, com a posição que o Brasil adotaria diante da polarização entre as duas potências.
“Todas as vezes que fui lá, a imprensa vinha perguntar qual era a posição do Brasil em determinados assuntos. Estamos falando de quase dez anos atrás. Já se olhava que teríamos uma bipolaridade nesse assunto”, recordou.
Na avaliação do empresário, a China procura parceiros capazes de assegurar o fornecimento contínuo de alimentos, uma condição considerada estratégica para a estabilidade social do país. Qualquer sinal de vulnerabilidade política do Brasil pode, portanto, acelerar a procura chinesa por alternativas.
“A China sempre quer contar com alguém confiável. Quer contar com alguém que amanhã esteja na mesma posição que está hoje, fornecendo alimentos para que a paz social permaneça. Onde não tem comida, tem briga”, afirmou.
“Quando a China percebe que o Brasil fica vulnerável nessa posição de escolher um lado ou outro, ela tem que fazer opções”.
Esse movimento acende, segundo Maggi, um “sinal amarelo” para o agronegócio brasileiro. A China está buscando maior autossuficiência em alimentos e redução das compras de alguns produtos nos quais o Brasil conquistou participação relevante.
O empresário avalia que o país asiático tem condições de se tornar autossuficiente na produção de aves e suínos, segmentos nos quais as importações representam uma pequena parcela de seu consumo. A limitação está na oferta da proteína vegetal necessária para alimentar os animais.
“Para fazer a proteína animal, eles vão precisar da proteína vegetal. E é aí que está onde o Brasil está pendurado nesse negócio”, disse.
Soja ainda limita autonomia chinesa
Embora Pequim queira diminuir a dependência estrangeira, Maggi considera difícil que a China alcance a autossuficiência em soja. O país teria que deslocar terras utilizadas por outras culturas para produzir um grão disponível no mercado internacional a preços relativamente competitivos.
“Hoje eles têm condições de fazer isso? Não, não têm. Teriam que substituir terras que estão produzindo alguma coisa para voltar a produzir soja, que é uma mercadoria encontrada no mundo de forma relativamente barata”, explicou.
A avaliação do “Rei da Soja” é que os chineses tentarão ampliar a produção doméstica, mas enfrentarão restrições físicas e econômicas. Essas limitações preservam uma oportunidade para o Brasil, desde que o país mantenha relações comerciais confiáveis e abra novos destinos para suas exportações.
“Não duvido que o chinês vá fazer, mas tem coisas que ele não pode fazer. O tempo não dará a ele essa oportunidade. E é aí que mora a oportunidade do Brasil.”
Apesar dessa vantagem, Maggi defendeu que o agronegócio não dependa excessivamente de um único comprador. A abertura de mercados é um processo permanente, mas exige o cumprimento de regras sanitárias, ambientais e comerciais cada vez mais rigorosas.
Barreiras e protecionismo
O ex-ministro também alertou que alguns países utilizam exigências sanitárias e ambientais como barreiras comerciais disfarçadas para proteger seus produtores.
Maggi citou as restrições europeias à carne de frango brasileira e as dificuldades enfrentadas pelo país para habilitar produtos em mercados como Japão e Coreia do Sul.
“As coisas são impostas a nós, às vezes travestidas. Dizem que temos que atender a determinada exigência porque sabem que será difícil cumprir. Portanto, cria-se uma barreira de entrada”, afirmou.
Na visão do empresário, enfrentar essas restrições exige uma atuação conjunta das companhias, associações, federações, do Ministério das Relações Exteriores e dos adidos agrícolas.
“O que nos garantiu chegar até aqui não é o que vai nos levar para a frente, ou poderá não ser. Nós vamos estar no jogo no futuro se atendermos às regras e exigências do futuro, sejam elas sanitárias, ambientais ou comerciais.”
Questionado pelo jornalista William Waack, que moderou o painel, sobre o que ele acha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Maggi se referiu ao lider norte-americano como “doidão”. “Acho ele muito imprevisível”.
Quem é o “Rei da Soja”?
Engenheiro-agrônomo formado pela Universidade Federal do Paraná, Blairo Maggi participou da expansão dos negócios familiares que deram origem à Amaggi. A companhia atua na produção agrícola, comercialização e processamento de commodities, logística e energia.
O avanço da família Maggi na produção de soja, especialmente durante as décadas de 1990 e 2000, fez com que Blairo ficasse conhecido como o “Rei da Soja”.
Sua carreira política começou como suplente no Senado. Em 2002, foi eleito governador de Mato Grosso e conquistou a reeleição em 2006. Deixou o cargo em março de 2010 para concorrer ao Senado, sendo eleito naquele ano.
Em maio de 2016, licenciou-se do mandato para assumir o Ministério da Agricultura no governo de Michel Temer, permanecendo à frente da pasta até o encerramento da gestão, em 2018.
Como ministro, Maggi concentrou parte de sua atuação na abertura e ampliação de mercados para os produtos agropecuários brasileiros, com uma série de missões internacionais. Ao final do mandato, afastou-se da vida pública e retomou sua atuação no setor privado.
