Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Mundo
05/11/2026
6 min

Paraguai já teve presidente que renunciou e foi morar em Balneário Camboriú

Santiago Peña é o segundo presidente paraguaio a renunciar seu cargo desde a redemocratização; o Congresso do país já analisava seu impeachment

Paraguai já teve presidente que renunciou e foi morar em Balneário Camboriú

O presidente do Paraguai, Santiango Peña, renunciou seu cargo nesta quinta-feira, 5. O mandatário, que assumiu o cargo em 2023 para um mandato até 2028, enfrenta uma crise bancária, associada ao Banco Ueno. O Congresso do país já analisava seu impeachment.

Com Peña, o país tem seu segundo presidente a renunciar o cargo desde a redemocratização do país, na década de 1990. Seu correligionário Raul Cubas Grau também abriu mão da chefia do Executivo em 1999, após sete meses de instabilidades políticas graves que envolveram o assassinato de seu vice-presidente, Luis Maria Argaña.

Caso o presidente não tivesse desistido da liderança do Executivo e o Congresso tivesse decidido por afastá-lo do cargo, Peña também não seria o primeiro. Fernando Lugo, do partido de esquerda Frente Guasú, foi destituído por impeachment em 2012.

A renúncia de Raul Cubas Grau e o exílio em Balneário Camboriú

Raúl Cubas Grau renunciou à Presidência do Paraguai em 28 de março de 1999, após cerca de sete meses no cargo. A crise política que levou à sua saída foi desencadeada pelo assassinato do vice-presidente Luis María Argaña, em 23 de março daquele ano, e se agravou com a morte de cinco manifestantes contrários ao governo durante protestos em Assunção.

Na época, o Congresso se preparava para votar o impeachment de Cubas, acusado de responsabilidade pelas mortes. A renúncia foi anunciada antes da votação, em meio à pressão de setores políticos e à preocupação de que o conflito evoluísse para uma guerra civil.

A saída do presidente também teve participação do governo brasileiro. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 30 de março de 1999, o então presidente Fernando Henrique Cardoso telefonou para Cubas dois dias antes e o aconselhou a tomar “uma atitude razoável”, pensar no bem da população paraguaia e evitar um “banho de sangue”.

A possibilidade de asilo político no Brasil fez parte das conversas. A intervenção de FHC foi considerada importante para a decisão de Cubas de deixar o cargo. Após a renúncia, o então presidente do Senado, Luis González Macchi, assumiu a Presidência, conforme previsto naConstituição paraguaia.

Depois de renunciar, Cubas recebeu asilo político do governo brasileiro. Em 29 de março de 1999, o Brasil enviou um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) a Assunção para transportá-lo e sua família ao país. A concessão do asilo ocorreu no mesmo dia em que o Poder Judiciário paraguaio solicitou sua prisão, sob acusação de responsabilidade pelas mortes dos cinco manifestantes durante os protestos contra seu governo.

O ex-presidente estava na embaixada brasileira em Assunção enquanto o embaixador negociava com as autoridades paraguaias um salvo-conduto, autorização necessária para que pudesse deixar o país.

Chegado no Brasil, Raúl Cubas Grau se mudou para a orla de Camboriú, em Santa Catarina, atualmente o munícipio de Balneário Camboriú.

Em reportagem publicada em 9 de maio de 1999, a Folha de S.Paulo relatou que o ex-presidente vivia recluso em um apartamento de 300 metros quadrados na avenida Atlântica, à beira-mar.

Segundo o jornal, Cubas chegou a passar 20 dias seguidos sem sair de casa. Nas poucas ocasiões em que deixava o imóvel, era acompanhado por policiais federais, inclusive quando dirigia sua caminhonete pela cidade.

A opção pelo isolamento partiu do próprio ex-presidente e também atendia a recomendações das autoridades responsáveis por sua segurança.

Cubas era o segundo ex-presidente paraguaio a buscar asilo no Brasil. O primeiro havia sido o ditador Alfredo Stroessner, que governou o país entre 1954 e 1989, quando foi derrubado por uma insurreição militar liderada pelo general Andrés Rodríguez, responsável pela redemocratização do país. Stroessner viveu em Brasília até sua morte, em 2006.

Fernando Lugo foi destituído por impeachment em 2012

Em junho de 2012, o então presidenteFernando Lugo foi afastado do cargo em um processo de impeachment conduzido pelo Congresso paraguaio. A destituição ocorreu em apenas dois dias, entre 21 e 22 de junho, e abriu uma nova crise institucional no país.

Lugo, eleito em 2008 pela coalizão Aliança Patriótica para a Mudança, foi o primeiro candidato de fora doPartido Colorado a vencer uma eleição presidencial no Paraguai desde 1954. Sua vitória encerrou décadas de domínio da legenda, que havia governado o país durante a ditadura de Stroessner e também após a redemocratização.

O processo de impeachment foi motivado por acusações de mau desempenho das funções presidenciais, previstas na Constituição paraguaia. O estopim foi um confronto entre policiais e camponeses durante uma operação de reintegração de posse em Curuguaty, em junho de 2012, que deixou 17 mortos, sendo 11 camponeses e seis policiais.

Em artigo publicado em 2016 na revista acadêmica Brazilian Political Science Review, os pesquisadores Daniel Jatobá, da Universidade de Brasília (UnB), e Bruno Theodoro Luciano, da Universidade de Birmingham, analisaram a destituição como parte de uma trajetória de instabilidade institucional no Paraguai. Segundo os autores, embora o procedimento tenha seguido formalmente os mecanismos constitucionais, a perda de apoio político no Congresso foi decisiva para a queda do presidente.

O vice-presidente Federico Franco, que havia rompido com Lugo, assumiu o comando do Executivo e concluiu o mandato até 2013.

A destituição provocou reação de países vizinhos: Paraguai foi suspenso do Mercosul e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), sob o argumento de que houve uma ruptura da ordem democrática. A suspensão foi revertida após as eleições presidenciais de 2013, vencidas por Horacio Cartes, do Partido Colorado.

Santiago Peña renuncia a Presidência

"Me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis de minha vida", afirmou Peña em vídeo publicado na rede social X. "Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. O faço pensando na estabilidade de nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas."

Sobre a crise bancária no país, o conservador do Partido Colorado afirmou: "Quero pedir desculpas ao povo se em algum momento falhei. Nunca foi minha intenção fraudar a confiança que depositaram em mim."

A instabilidade começou após o banco digital Ueno fechar as portas. A crise se agravou nesta quarta-feira, 4, depois que o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu intervir no Ueno Bank por insuficiência de capital. Com isso, os serviços da instituição foram suspensos.

Quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios tem conta no banco. O escândalo levou à renúncia do presidente do BCP, Carlos Carvallo.

"Hoje minha prioridade é apenas uma: a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas poupanças ao nosso sistema financeiro. Por trás de cada depósito há anos de esforço, sacrifício e projetos familiares. Meu maior desejo é que se garanta a devolução desses recursos", disse Penã.

AutorPaloma Lazzaro
FonteExame
Distribuído por