Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
EmpresasACS
21/10/2026
5 min

“Parece que não pode ver um real sobrando”: por que acordo com o Einstein reacende dúvidas sobre uso do caixa da Ânima (ANIM3)

O movimento se soma a outras decisões recentes que frustraram investidores e levanta dúvidas se os benefícios estratégicos da parceria compensarão o risco financeiro assumido

“Parece que não pode ver um real sobrando”: por que acordo com o Einstein reacende dúvidas sobre uso do caixa da Ânima (ANIM3)

“Parece que não pode ver um real sobrando.” Foi assim que um gestor de ações que preferiu não se identificar resumiu o acordo firmado por uma controlada da Ânima (ANIM3), a Inspirali, com o Hospital Israelita Albert Einstein. 

A frase é provocativa, mas captura a inquietação que reapareceu entre investidores: depois de anos tentando reduzir a dívida e demonstrar disciplina na alocação de capital, a companhia voltou a assumir compromissos financeiros relevantes. Ontem (20), com o anúncio, os papéis fecharam em queda de mais de 9%. 

Mais cedo neste ano, a empresa anunciou a recompra da Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), por R$ 410 milhões, um valor que nenhum dos grandes bancos brasileiros ou analistas de ações achou razoável.  

Ao incluir a dívida da adquirida, o BTG estima que a operação chegue a cerca de R$ 560 milhões — o equivalente a 10 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) anual da FMU, ante as aproximadamente 3 vezes que a própria Ânima era negociada à época. Naquele pregão, as ações ANIM3 chegaram a cair mais de 20%. 

Antes mesmo disso, a educadora também havia surpreendido o mercado em agosto de 2024, ao distribuir R$ 178 milhões em dividendos, entregando um dividend yield de 13,9% com base no pagamento de R$ 0,4712 por ação.  

A decisão foi vista com alerta pelo mercado, já que ocorreu no mesmo trimestre em que a companhia registrou prejuízo contábil e enfrentava forte pressão de endividamento.  

Agora, a parceria com o Einstein reforça a preocupação. "Quando o dinheiro começa a aparecer e a rentabilidade melhora um pouco, eles dão um jeito de gastar", diz outro gestor.  

Toda essa preocupação acontece porque a companhia passou anos tentando se livrar de um passado de muitas dívidas — principalmente após a aquisição dos ativos brasileiros da Laureate, em 2021. Desde então, a companhia vinha avançando na redução da alavancagem, indicador que relaciona o endividamento à capacidade de geração de resultados.

Os problemas que o mercado vê na parceria com o Einstein 

Segundo a Ânima, a parceria com o Einstein tem apelo estratégico: a Inspirali poderá associar sua marca à de uma instituição reconhecida na área da saúde e receber apoio técnico, científico e acadêmico para seus cursos de medicina. Para a empresa, isso pode ajudar a diferenciar a oferta e atrair alunos num mercado mais competitivo. 

O acordo abrange 15 instituições da Inspirali, 1.892 vagas anuais autorizadas em Medicina e aproximadamente 12,6 mil alunos, segundo o BTG. O prazo inicial é de 20 anos, com renovação automática por mais 20. 

O Einstein prestará serviços técnicos, científicos, pedagógicos e de consultoria e autorizará o uso de sua marca nos cursos, conforme as condições contratuais. A Inspirali continuará responsável pelas decisões acadêmicas e institucionais e pelo cumprimento das exigências regulatórias.   

A preocupação dos analistas, porém, está na conta. O contrato prevê R$ 150 milhões em duas parcelas de R$ 75 milhões, corrigidas pelo IPCA, além de uma comissão de 6% sobre a receita líquida dos alunos que ingressarem em novas turmas após a assinatura. 

Ou seja, a parceria cria custos definidos, enquanto a receita extra necessária para compensá-los ainda depende de a Inspirali conseguir captar mais alunos, melhorar a retenção ou elevar mensalidades. 

Pelas estimativas da XP, considerando os pagamentos fixos e a comissão, o ticket médio precisaria subir cerca de 10% a partir de 2027 para que o valor presente líquido do acordo fosse neutro. O primeiro ciclo de captação sob a parceria deve dar sinais mais concretos sobre essa possibilidade. 

Já o Itaú BBA reconhece o potencial de fortalecimento da marca, mas pondera que ainda é difícil mensurar se os benefícios compensarão os custos. Para o banco, a alavancagem da Ânima e a capacidade de seguir reduzindo a dívida continuam no foco dos investidores. 

O histórico que assombra o mercado 

A cautela dos investidores tem raízes na própria trajetória da companhia. Em 2021, a Ânima concluiu a compra dos ativos brasileiros da Laureate, grupo dono de instituições como Anhembi Morumbi. A operação mudou a escala da empresa, mas também deixou uma conta pesada para financiar. 

A negociação foi acirrada: a Laureate já tinha um acordo de venda com a Ser Educacional, mas a Ânima apresentou uma proposta superior, de R$ 4,4 bilhões, e pagou uma multa de rescisão de R$ 180 milhões para assumir o negócio. Com isso, o grupo ampliou sua presença no ensino superior e fortaleceu a atuação em cursos de Medicina. 

O salto de escala veio acompanhado de um aumento expressivo do endividamento logo antes dos juros no Brasil começarem uma escalada, saindo da casa de um dígito para mais de 15% ao ano.  

Assim, o custo dessa dívida e pressionou os resultados, levando a companhia a priorizar a geração de caixa, a redução de custos e a desalavancagem. Essa disciplina vinha acalmando o mercado em relação às decisões de alocação de capital da companhia, mas a confiança parece ter se quebrado.  

O temor é que a Ânima esteja revivendo um erro antigo: expandir antes de ter clareza sobre o rumo dos juros no Brasil. 

Em paralelo a isso, os papéis da companhia sobem quase 70% no mês de outubro, embalados pelo ânimo dos investidores sobre um possível governo de Flávio Bolsonaro, visto como mais responsável do ponto de vista fiscal. Isso tem aliviado os juros futuros e estimulado as apostas em empresas endividadas e/ou mais expostas aos ciclos da economia doméstica, como é o caso da Ânima. 

AutorBia Azevedo
FonteSeu Dinheiro
Distribuído por