Partido das Baratas se torna maior desafio ao governo de Modi na Índia
Manifestações do partido satírico canalizam insatisfação da juventude indiana e podem representar sério risco político a Narendra Modi

Os protestos do chamado partido das baratas, protagonizados pela juventude indiana contra vazamentos de provas de admissão, derrubaram o ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan, e transformaram a crise educacional em um dos maiores desafios enfrentados pelo governo de Narendra Modi. O movimento, iniciado nas redes sociais, espalhou-se por todo o país e levou dezenas de milhares de estudantes às ruas de Nova Délhi.
A mobilização foi liderada por Abhijeet Dipke, fundador do partido satírico Cockroach Janta Party (CJP), que surgiu em maio como uma campanha online e rapidamente se transformou em um movimento de rua.
O estopim foi o cancelamento do exame médico do Neet — principal exame de entrada para a área de saúde — após o vazamento de questões, o que afetou milhões de candidatos que dependem dessas provas para concorrer a empregos considerados estáveis. Houve, inclusive, casos de suicídio relacionados aos vazamentos.
Insatisfação
No auge da crise, a polícia lançou gás lacrimogêneo e utilizou cassetetes contra manifestantes que marchavam em direção ao Parlamento indiano. Segundo as autoridades, 60 manifestantes e 118 policiais ficaram feridos nos confrontos, enquanto o acesso à internet móvel foi suspenso em partes da capital.
Apesar da repressão, os manifestantes insistiram: muitos afirmam que o problema vai além dos vazamentos e reflete um sistema educacional incapaz de garantir oportunidades reais de ascensão social.
Pressionado, Modi aceitou a renúncia de Pradhan em 25 de julho, anunciou tribunais de tramitação rápida epenas mais severas para crimes relacionados a vazamentos de provas e criou um painel para revisar o sistema de exames.
O governo também abriu negociações com líderes do CJP, combinando diálogo político com ação policial.
Partido sem política
Apesar da repercussão nacional, Dipke afirmou à Reuters que o CJP não pretende disputar eleições imediatamente. Segundo ele, o objetivo atual é construir uma “agenda da geração Z” e fortalecer um movimento social voltado a restaurar a confiança e a responsabilidade nas instituições, sem apoiar partidos da oposição ou do governo.
Analistas observam que o movimento já alcançou um feito raro ao forçar a queda de um ministro federal. O cientista político Amitabh Tiwari avalia à Reuters que o impacto eleitoral nas eleições estaduais de 2027 pode ser limitado, mas a insatisfação juvenil pode se tornar um fator mais relevante até as eleições gerais de 2029, caso o CJP mantenha sua mobilização.
O contexto da crise é tanto político quanto socioeconômico. Com mais de 360 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos, a Índia tem a maior população jovem do mundo. Um relatório da Universidade Azim Premji mostra que o desemprego entre jovens é quase quatro vezes maior do que entre adultos mais velhos e que 67% dos graduados de 20 a 29 anos estavam desempregados em 2023.
Economistas afirmam que o crescimento acelerado do PIB não foi acompanhado pela criação de empregos de qualidade.
A participação da indústria de transformação no PIB caiu de 17% em 2015 para 14% atualmente, aponta a BBC, enquanto o setor de tecnologia, tradicional motor de empregos de classe média, enfrenta pressão da inteligência artificial e estagnação salarial.
