Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercados
04/11/2026
5 min

Pessimismo com Brasil bate recorde e gestores abandonam Bolsa

Pesquisa com gestoras multimercados mostra que 95% têm visão negativa sobre a economia, enquanto posições vendidas em ações superam as compradas pela 1ª vez no ano

Pessimismo com Brasil bate recorde e gestores abandonam Bolsa
RESUMO +

O pessimismo dos gestores multimercados com a economia brasileira atingiu em novembro o maior nível da série histórica: 95% das 20 gestoras consultadas pela empresa XP Investimentos têm visão negativa, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira, 4. Pela primeira vez no ano, as posições vendidas em ações brasileiras superaram as compradas, e 70% passaram a apostar na alta do dólar.

O pessimismo dos gestores multimercados em relação à economia brasileira atingiu o maior nível da série histórica em novembro, enquanto o otimismo com a Bolsa local perdeu força.

Levantamento da XP Investimentos, divulgada nesta quarta-feira, 4, com 20 gestoras multimercados macro mostra que 95% delas têm uma visão negativa sobre o Brasil, ante 55% na pesquisa anterior, realizada em setembro. Nenhuma gestora consultada apontou uma perspectiva considerada positiva para a economia, contra 20% na edição passada. Os outros 5% têm visão neutra.

A deterioração das expectativas também se reflete nas posições dos fundos em ativos brasileiros. Pela primeira vez no ano, a parcela de gestores posicionados de forma vendida em ações brasileiras superou a dos comprados. Atualmente, 30% das gestoras estão apostando na queda da Bolsa, enquanto 25% mantêm posições compradas.

Em setembro, o cenário era bastante diferente: 70% estavam compradas e nenhuma gestora tinha posição vendida.

O levantamento foi realizado pela equipe de fundos da XP entre os dia 26 e 30 de outubro, período marcado pela forte reprecificação dos ativos brasileiros após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no 2° turno das eleições no domingo, 25.

O resultado das urnas contrariou as expectativas de parte dos investidores, que haviam incorporado aos preços dos ativos a possibilidade de alternância de poder e de mudanças na condução da política econômica.

Em um único pregão, na segunda-feira, 26,o Ibovespa despencou 13,9%, o dólar avançou 8% e os juros futuros abriram mais de 250 pontos-base nos vencimentos intermediários. O movimento levou os gestores a reverem suas apostas e reduzirem a exposição ao chamado "kit Brasil", que reúne posições em ativos domésticos, como ações, câmbio e juros.

Segundo o relatório da XP, o intervalo entre as duas pesquisas foi marcado pelo trade eleitoral e pela reprecificação dos ativos locais. "Diante desse novo patamar de preços, os gestores reduziram de forma relevante suas exposições ao kit Brasil", afirma a equipe.

A mudança mais expressiva ocorreu no câmbio. Em setembro, 64% dos gestores estavam vendidos em dólar, apostando na valorização do real, enquanto 36% estavam comprados na moeda americana. Na pesquisa mais recente, a relação se inverteu: 70% passaram a apostar na alta do dólar e apenas 30% mantiveram posições vendidas.

O movimento também aparece nas apostas diretamente relacionadas ao real. A parcela de gestores comprados na moeda brasileira caiu de 75% para 21%, enquanto as posições vendidas saltaram de 25% para 79%.

Para a XP, o câmbio, que antes era um dos principais vetores de expressão do "kit Brasil", passou a funcionar comoinstrumento de proteção diante da deterioração do cenário doméstico.

Na Bolsa, a redução de exposição também foi significativa. Além da queda das posições compradas, que passaram de 70% para 25%, a pesquisa identificou o surgimento de posições vendidas, que não apareciam na edição anterior.

Na semana seguinte ao segundo turno, o Ibovespa aumulou desvalorização de 18,12% nos cinco pregões e encerrou a última sexta, 30, coma maior queda desde março de 2020. Desde o recorde de fechamento de 9 de outubro, aos 209.066,90 pontos, o principal índice da B3 perdeu aproximadamente 41 mil pontos. Com isso, o ganho acumulado no ano, que chegou a quase 30%, recuou para cerca de 4%.

Adesvalorização semanal foi a quinta maior desde o início do Plano Real, em julho de 1994, segundo levantamento da Elos Ayta. O período também foi marcado pelo primeiro acionamento do circuit breaker da Bolsa desde 2020.

No mercado de câmbio, o movimento foi semelhante. O dólar acumulou valorização de 9,04% na primeira semana após a eleição, a maior alta semanal desde outubro de 2008, durante a crise financeira global. A moeda encerrou a sexta-feira, 30, cotada a R$ 5,444.

Expectativas para juros e atividade

O pessimismo com a economia brasileira também aparece nas projeções dos gestores para os indicadores macroeconômicos. A estimativa de inflação para 2026 subiu de 4,97% para 5,24%, enquanto a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) recuou de 1,78% para 1,68%.

A cautela também chegou às expectativas para a política monetária. Na pesquisa anterior, havia um consenso maior em torno de um corte de juros. Agora, 75% dos gestores esperam que o Banco Central mantenha a Selic em 13,75% na reunião desta quarta do Comitê de Política Monetária (Copom), enquanto 25% projetam uma redução de 0,25 ponto percentual. Nenhuma gestora prevê uma elevação da taxa.

Apesar da expectativa de manutenção no curto prazo, os gestores ainda trabalham com juros mais baixos em 2027. A Selic terminal projetada para aquele ano está em 13,04%, mas, segundo a XP, a convicção sobre a extensão do ciclo de afrouxamento monetário diminuiu.

Nos Estados Unidos, 70% dos gestores ainda enxergam potencial de alta para os juros americanos. O Federal Reserve manteve a taxa na faixa entre 3,75% e 4,00% nesta semana, embora a decisão tenha registrado dois votos favoráveis a uma elevação.

AutorClara Assunção
FonteExame
Distribuído por