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30/09/2026
9 min

PETR4, BBSA3, SANP11, CMIG4: A onda privatista acabou?

O ano era 2014, e uma figura cômica surgia nas propagandas eleitorais. Vestido como um super-herói, com capa e tudo a que tinha direito, seu grande poder era privatizar empresas: o chamado “raio privatizador”. Paulo Batista (do antigo PRP), então candidato a deputado estadual por São Paulo, tentava “surfar” nos escândalos da Lava Jato, quando […]

PETR4, BBSA3, SANP11, CMIG4: A onda privatista acabou?

O ano era 2014, e uma figura cômica surgia nas propagandas eleitorais. Vestido como um super-herói, com capa e tudo a que tinha direito, seu grande poder era privatizar empresas: o chamado “raio privatizador”. Paulo Batista (do antigo PRP), então candidato a deputado estadual por São Paulo, tentava “surfar” nos escândalos da Lava Jato, quando a Petrobras(PETR3;PETR4) foi atingida em cheio, com diretores e políticos presos. Posteriormente, a estatal reconheceu prejuízo de R$ 6,2 bilhões decorrente dos desvios de recursos.

Batista não foi eleito, mas, quatro anos depois, nas eleições de 2018, o então candidatoJair Bolsonaro, na época no Partido Social Liberal (PSL), também entrou em campo com um discurso privatista, encarnado na figura de seu “posto Ipiranga”,Paulo Guedes. Na época, Guedes defendia a privatização de todas as estatais. Ele encerrou seu mandato com a venda de duas: a Eletrobras, hoje Axia Energia (AXIA3), e a Codesa (Companhia Docas do Espírito Santo).

Isso não anula o fato de que o mercado passou por uma “onda privatista”. Nos últimos sete anos, a bolsa perdeu cinco estatais. O pontapé inicial foi dado ainda no governo Michel Temer, em 2019, quando a BR Distribuidora foi vendida e se tornou a Vibra Energia (VBBR3). Depois, foi a vez da Copel (CPLE6), no Paraná, e da Eletrobras. Sabesp (SBSP3), em São Paulo, e, agora, a Copasa (CSMG3), privatizada pelo governo Romeu Zema (Novo), completam a lista.

Agora, passados mais de dez anos do escândalo da Lava Jato, quando defender privatizações virou algo “pop” para parte do eleitorado, os candidatos parecem não fazer questão de se posicionar a favor da venda de estatais.

‘Não pega’ no eleitorado

Segundo analistas e especialistas que conversaram com o Money Times, as privatizações perderam importância no discurso eleitoral. Hoje, o brasileiro tem outras questões que lhe tiram o sono: segurança pública, por exemplo, ou mesmo a questão do Judiciário.

“Se aprendeu que o tema não traz votos (ou, pelo menos, a quantidade de votos que atrai é imensamente menor à que é retirada do candidato) e as eleições se tornaram mais disputa de narrativas do que de propostas”, discorre o economista Márcio Holland, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP).

Uma fonte da área política de um grande banco afirmou ao Money Times que os candidatos deixaram de falar sobre isso “porque não pega muito” no eleitorado.

“Aquela questão de gabinete enxuto, ‘contratei poucas pessoas, economizei X’, que estava muito presente, principalmente em 2018, hoje você vê que pouca gente fala. E eu acho que entra nessa linha também a própria privatização.”

Apesar disso, o apoio às privatizações ainda é grande. Segundo pesquisa do site Poder360, o apoio à venda total ou parcial de empresas estatais atingiu 54%. Trata-se do maior percentual já registrado pelo PoderData desde 2021.

A questão, segundo a fonte, é que a privatização tem apoio, mas não apelo. “Ninguém vai lutar por privatização.”

Em conversas reservadas com a campanha de Bolsonaro, a ideia é: sem polêmicas — o que inclui evitar defender de forma enfática a venda de estatais. “Eles tentam sempre ficar ali, em cima do muro, com medo de ter algum tipo de rejeição, porque querem marcar vários tipos de público.”

Ainda segundo essa mesma fonte, no gabinete do senador Rogério Marinho, um dos principais apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL), a avaliação é de que privatizar é algo difícil no mundo político. Não é simplesmente dar uma canetada. É preciso negociar e enfrentar pressões, além de desenhar um arcabouço regulatório nem sempre fácil de construir. O desgaste político também não costuma ser pequeno.

“Eles sabem que não dá para fazer isso. Ok, você colocar os Correios, que é uma empresa que gera muita insatisfação a muitos brasileiros, é uma coisa. Mas você começar a colocar a Petrobras, como o Paulo Guedes falava naquela época, Banco do Brasil (BBSA3), Caixa… O buraco é um pouco mais embaixo.”

Petrobras e Banco do Brasil

No âmbito nacional, Petrobras e Banco do Brasil são as grandes joias. A primeira bate recordes de produção e lucratividade, enquanto vê uma nova fronteira para o petróleosurgir: a Margem Equatorial, que pode ser transformadora para a companhia. Isso tudo enquanto o preço do petróleo negocia na faixa de US$ 100 o barril.

“Doze anos depois, a Petrobras virou uma empresa séria, paga muito dividendo, e o Brasil é autossuficiente. Não é um assunto: ele [Bolsonaro] vai perder votos se falar de privatização. E eu acho que tem certas coisas que é meio sincericídio”, avalia o analista da Levante Flavio Conde.

O próprio Marinho declarou que a Petrobras é uma empresa importante e estratégica para o Brasil. “Todas as outras empresas estatais vão passar por uma avaliação para verificar qual é a sua eficácia. Não há nenhum plano no sentido de privatizar a Petrobras”, disse ele, em evento em Brasília, em agosto.

Já o Banco do Brasil viu seu lucro derreter 60% nos últimos balanços, mas mais por questões setoriais do que por ações do governo federal, com o agronegócio vivendo um dos piores momentos da história na área de crédito.

“O problema que ele está enfrentando temporariamente são os empréstimos rurais. Dos agricultores, principalmente. Só que eles estão numa situação difícil, não por culpa do governo Lula, mas por uma questão conjuntural que veio por questões principalmente externas. Primeiro, aumento do preço do fertilizante com a guerra da Ucrânia e a Rússia; depois, com a guerra do Irã com os Estados Unidos”, afirma Conde.

Daniella Marques, ex-assessora especial do Ministério da Economia e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, atualmente na campanha de Flávio, “puxou a sardinha” para seu lado ao ser indagada sobre o tema da privatização durante um evento do Grupo Esfera.

Segundo ela, até os Correios, que acumulam rombos bilionários, perderam a janela de serem privatizados. Para Daniella, porém, “mais de 20 estatais” poderiam entrar na mira do governo e o “Banco do Brasil poderia [ser privatizado]”, pois negocia abaixo de uma vez seu patrimônio.

A prova cabal de que o discurso de privatização perdeu o apelo, no entanto, é que até outros candidatos de direita são restritivos à venda da Petrobras. Renan Santos (Missão) disse que empresas que são estratégicas para o Brasil, em setores estratégicos, “eu vou manter”, enquanto Ronaldo Caiado (PSD) se declarou contra a venda do Banco do Brasil e da Caixa e a favor da venda de alguns segmentos de gás da Petrobras, mas não da empresa inteira.

O único que se mantém com seu discurso privatista é Romeu Zema, mas, segundo as pesquisas eleitorais mencionadas no contexto da campanha, marcava 1% das intenções de voto.

E nos estados?

Na bolsa, ainda restam algumas estatais estaduais — entre elas, Banrisul(Rio Grande do Sul), Sanepar (Paraná) e Cemig(Minas Gerais). Em todos os casos, candidatos de direita lideram as pesquisas, mas nenhum se comprometeu a privatizar as companhias.

O caso mais enfático, talvez, tenha sido o do senador e candidato pelo PL, Sergio Moro, que não só não se comprometeu a vender a empresa de saneamento do Paraná, como criticou a venda da Copel.

“Não existe nenhum compromisso com privatização em relação à Sanepar, mas o choque de gestão é necessário […] A privatização serve para ter um serviço mais eficiente. O serviço que a Copel hoje presta aos paranaenses não é mais eficiente”, disse ele.

Mesmo assim, Conde, da Levante, acredita que, entre todas as empresas que ainda restam na bolsa, a Sanepar é a que tem maior probabilidade de ser vendida.

“O Estado já vendeu uma parte da Copel e não causou nenhuma comoção. A Sanepar, eu acho que não causaria, porque o pessoal do Estado, na mídia, aceitou bem, e a Copel continuou boa. Então, eu acho que ela é que tem mais chance.”

Em relatório, porém, a XP vê como difícil uma venda da empresa de saneamento. Os analistas listam três pontos:

  • o Paraná é possivelmente um dos Estados com as melhores contas públicas do Brasil, e sua participação na SAPR equivale a apenas cerca de R$ 2 bilhões;
  • o Estado decidiu avançar na universalização dos serviços de esgotamento sanitário por meio de PPPs, em conjunto com o atual programa de investimentos que a Sanepar espera executar; e
  • a população percebe a Sanepar como uma boa prestadora de serviços.

“Ainda não descartamos totalmente a possibilidade de uma privatização avançar, mas as chances são baixas e o timing permanece bastante incerto”, diz o relatório da XP.

Com isso, a corretora rebaixou a recomendação para neutra, com preço-alvo de R$ 45,80 por ação, citando a ausência de gatilhos nos próximos seis a 12 meses, “o que torna o papel uma alternativa menos atraente em comparação com outras empresas que negociam a TIRs reais muito atrativas em termos absolutos”.

Cemig, em MG, também enfrenta dificuldades

Em Minas, o candidato a governador Cleitinho (Republicanos) disse, em debate na TV Bandeirantes, que não tem vontade de privatizar a empresa, citando o lucro de R$ 5 bilhões. Entretanto, criticou o fato de a companhia ter “virado cabide de emprego e negociação política”.

Já o atual governador mineiro, Mateus Simões (PSD), afirmou que não pretende discutir a privatização. Ele também admitiu que uma eventual troca do presidente da Cemig poderia ocorrer no contexto de negociações políticas.

Já Alexandre Kalil (PDT) defende a venda apenas de empresas deficitárias e descartou a possibilidade de privatizar a Cemig, considerada lucrativa.

“Mesmo que os candidatos alterem suas posições ao longo da campanha, a privatização exigiria uma mudança na Constituição de Minas Gerais. O processo seria demorado e poderia enfrentar forte oposição”, diz o Banco Safra, em relatório.

Na avaliação do banco, possíveis mudanças na administração e na estratégia da Cemig podem aumentar a percepção de risco entre os investidores. Além disso, essas alterações poderiam atrasar discussões importantes, como a renovação das concessões da companhia.

O banco reduziu o preço-alvo para R$ 11,90 e mantém recomendação neutra.

Ao que parece, hoje, Paulo Batista e seu raio privatizador seria mais um vilão do que um super-herói.

AutorRenan Dantas
FonteMoney Times
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